Aquecimento e temperaturas elevadas nos Polos em ano de La Niña
Robertscribbler

Há uma La Niña em Desenvolvimento — Então Porque é Que o Mundo Ainda Está a Aquecer?

A longo prazo, não há dúvida daquilo que está a controlar a tendência da temperatura do mundo. A grande erupção de gases de efeito estufa por parte da indústria de combustíveis fósseis e maquinaria baseada em energia não-renovável fez com que os níveis de carbono atmosférico atingissem 405 ppm de CO2 e 490 ppm CO2e este ano. Todo este carbono adicionado fez com que o mundo aquecesse um valor recorde de 1,22ºC face aos níveis da década de 1880, durante 2016 (aproximadamente). Mas sobreposto a esta tendência de aquecimento de longo prazo está o ir e vir do calor atmosférico e da superfície do oceano baseado em variabilidade natural que é a Oscilação Sul – El Niño (OSEN).

OSEN — Um Padrão de Onda a Sobrepor-se à Tendência de Aquecimento de Longo Prazo

Pense nisto como sendo um padrão de onda menor que se sobrepõe à escalada de temperatura global atual. À medida que o El Niño aumenta e se faz revelar, forças naturais causadas ​​pelo aquecimento periódico da superfície do oceano no Pacífico Equatorial impulsionam ainda mais as temperaturas globais. Isto tende a acrescentar à tendência de aquecimento global provocada pelos humanos. Assim, com frequência, os anos de El Niño são também anos quentes recorde.

Influência do El Niño na temperatura global


(Variações de temperatura entre El Niño e La Niña criam um padrão ondulado na tendência de aquecimento global geral. Nota — o ano quente recorde de 2016 não está incluído neste gráfico. Fonte da imagem: NOAA. |Vermelho= meses de El Niño | Cinzento= meses neutros | azul= meses La Niña

Por outro lado, a La Niña, que gera um arrefecimento periódico no Pacífico Equatorial, tende a ir um pouco contra a tendência de aquecimento de longo prazo. Assim, os períodos de La Niña tendem a fazer com que as temperaturas atmosféricas globais médias na medida anual desçam cerca de 0,2 a 0,4ºC, a partir dos períodos de pico de aquecimento atmosférico durante o El Niño. Claro que, uma vez que a variabilidade OSEN tipicamente segue uma gama desde +0,2ºC a -0,2ºC mas não afeta as tendências de temperatura a longo prazo, é preciso apenas cerca de uma década para que os anos La Niña sejam tão quentes como os recentes anos El Niño.

Ligeiro Aquecimento Durante o Outono de 2016 Apesar da La Niña

Durante o outono de 2015 e o inverno e a primavera de 2016, um poderoso El Niño ajudou a elevar as temperaturas de superfície globais a novos patamares recorde. Isto aconteceu porque gases de efeito de estufa por todo o mundo estiveram a carregar calor no Sistema Terrestre durante algum tempo e o forte El Niño serviu como uma espécie de rastilho que abriu as comportas para uma vaga de calor atmosférico. É por isso que 2016 será cerca de 1,22ºC mais quente do que as temperaturas da década de 1880 (1ºC mais quente do que as temperaturas de linha de base da NASA para o Século XX) e porque os anos entre 2011 e 2016 estarão, em média, acima de 1ºC mais quentes do que os valores da década de 1880 no geral (0,8ºC mais quentes do que as linhas de base para o Século XX).

Mas agora, com o El Niño de 2016 já ultrapassado e com uma La Niña a formar-se no Pacífico, seria de esperar que as temperaturas globais arrefecessem um pouco. Em grande parte, isto aconteceu. Em janeiro e fevereiro deste ano, as temperaturas médias mensais foram tão altas quanto 1,5ºC acima das médias da década de 1880. Desde o Verão, as médias caíram para cerca de 1 a 1,1ºC acima dos valores da década de 1880.

Temperaturas médias nos meses de 2016

As temperaturas globais atingiram um mínimo à volta de 1ºC acima da década de 1880, ou 0,4ºC acima da média entre 1981 e 2010, neste gráfico baseado em GFS de Karsten Haustein, durante junho, tendo em seguida começado a subir lentamente durante o outono, mesmo quando uma fraca La Niña se começou a desenvolver.

Com a La Niña a continuar a formar-se, seria de esperar que estes valores mensais continuassem a cair um pouco à medida que a La Niña fosse crescendo. Mas isto não parece estar a passar-se. Em vez disso, as temperaturas atmosféricas atingiram um mínimo em torno de 1 a 1,1ºC acima dos níveis da década de 1880, em junho, julho, agosto e setembro, e agora parecem estar a recuperar.

Sinal de Amplificação Polar Aparece como uma Irregularidade na Medida Global

Por outras palavras, estamos a assistir a um aumento na tendência da temperatura global, quando deveríamos estar a assistir a um declínio de contra-tendência estável forçado pela variabilidade natural.

Porque é que isto está a acontecer?

A evidência climática aponta para um conjunto bastante óbvio de suspeitos. Em primeiro lugar, o valor de Oscilação Decenal do Pacífico tem continuado a empurrar para a faixa positiva. E este estado tenderia a favorecer mais calor que irradia de volta para a atmosfera a partir da superfície do oceano.

No entanto, se olharmos para os mapas climáticos globais, os principais contribuidores para a anomalia não vêm do Pacífico, mas dos pólos. Pois este outono viu aquecimento extremo em ambas as regiões polares norte e sul do mundo. Hoje, as anomalias de temperatura no Ártico e na Antártida foram 5,84 e 4,19ºC acima da média, respetivamente. A média aproximada entre os dois pólos de +5ºC para estas regiões de alta latitude. Como já mencionado muitas vezes anteriormente, tal magnitude de aquecimento é um sinal evidente de amplificação polar baseada em mudança climática, onde as temperaturas nos pólos aquecem mais depressa relativamente ao resto da Terra durante a primeira fase de aquecimento forçado por gases de efeito estufa.

Aquecimento e temperaturas elevadas nos Polos

Aquecimento extremo das regiões polares continuou a 4 de novembro de 2016. Este aquecimento está a fazer frente à tendência da La Niña, a qual tenderia a arrefecer o mundo temporariamente. Fonte da imagem: Climate Reanalyzer.

Por si só, estas temperaturas anormalmente elevadas nos pólos seriam estranhas o suficiente. Mas quando se tem em conta que a La Niña ainda deveria estar a arrefecer o globo, começa a parecer que este severo aquecimento polar tem contrariado um pouco o sinal de arrefecimento da La Niña — virando-o de volta para o aquecimento no final do outono. E se isto é o que realmente está a acontecer, então tal implicaria que o sinal de variabilidade natural que é produzido pela OSEN está a começar a ser suplantado por influências baseadas na amplificação polar. Por outras palavras, parece haver um outro sinal que se está a começar a intrometer sob a forma de um pico de temperatura baseado na amplificação polar.

É algo que tem aparecido de tempos a tempos como uma irregularidade nos dados de observação ao longo dos últimos anos. Mas o outono de 2016 fornece um dos sinais mais fortes até ao momento. E é um sinal relacionado com um conjunto de feedbacks que têm o potencial de afetar o ritmo geral do aquecimento planetário. Definitivamente, algo para se ter em conta daqui para a frente.

Traduzido do original There’s a La Nina Developing — So Why is the World Still Heating Up?, publicado por Robertscribbler em http://robertscribbler.com/ a 4 de novembro de 2016.

Estes conteúdos são traduzidos e/ou legendados por voluntários motivados pelo desejo de facilitar o conhecimento a todos e assim melhorar as nossas vidas. Qualquer pessoa pode fazer o mesmo.
Para iniciar ou sugerir uma tradução, clique aqui.
Anúncios
Standard
aumento da temperatura em 0,3°C até 1900
Sam Carana

Alterações Climáticas: Após o Acordo de Paris, Onde Ficamos?

Sugerimos a leitura de “Alterações Climáticas: Após o Acordo de Paris, Onde Ficamos?” no site Aquecimento Global: A Mais Recente Ciência Climática
 
No Acordo de Paris, os países comprometeram-se em fortalecer a resposta global à ameaça das alterações climáticas, mantendo o aumento da temperatura média global a menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais e fazendo esforços para limitar o aumento da temperatura em 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.

aumento da temperatura global 1,5C

Quanto é que as temperaturas já subiram? Como ilustrado pela imagem acima, dados da NASA mostram que, durante o período trimestral de setembro a novembro de 2015, estava ~ 1°C mais quente do que em 1951-1980 (ou seja, que a linha de base).

Uma tendência polinomial com base nos dados de 1880-2015 para estes três meses indica que um aumento de temperatura de 1,5°C em relação à linha de base será alcançado no ano de 2024.

Vamos verificar os cálculos. A linha de tendência mostra que estava ~ 0,3°C mais frio em 1900 comparado com a linha de base. Considerando o atual aumento em ~ 1°C, isso implica que desde 1900 houve um aumento de 1,3°C em relação à linha de base. Isto faz com que um outro aumento de 0,2°C até 2024, como indicado pela linha de tendência, resultaria num aumento conjunto em 2024 de 1,5°C em comparação com a linha de base.

Anomalia da temperatura de superfície nos continentes

A situação é ainda pior do que isso. O Acordo de Paris visa evitar um aumento de temperatura de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Quando incluímos os aumentos de temperatura desde os níveis pré-industriais até o ano de 1900, torna-se evidente que já ultrapassámos um aumento de 1,5°C desde os níveis pré-industriais. Isto é ilustrado pela imagem acima, anteriormente adicionada a Quanto tempo resta para agir? (vejam as notas ali), e pelo gráfico em baixo, de uma publicação recente por Michael Mann, que acrescenta que um aquecimento de ~ 0,3°C por efeito de estufa já havia ocorrido por volta do ano de 1900.

aumento da temperatura em 0,3°C até 1900

Um aquecimento de ~ 0,3°C por efeito de estufa já havia ocorrido pelo ano de 1900.

Vamos adicionar as coisas novamente. Um aumento de ~ 0,3°C antes de 1900, um novo aumento de 0,3°C entre 1900 e a linha de base (1951-1980) e um novo aumento de ~ 1°C desde a linha de base até à data, juntos representam um aumento de ~ 1,6°C em relação aos níveis pré-industriais.

Por outras palavras, já ultrapassámos um aumento de 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais em 0,1°C.

A linha de tendência indica que um novo aumento de 0,5°C terá lugar até ao ano de 2030. Ou seja, que sem uma ação abrangente e efetiva, ficará 2°C mais quente do que os níveis pré-industriais antes do ano de 2030.

O pior das emissões ainda está por vir.

A maior parte da ira de aquecimento global ainda está por vir e a situação é ainda mais ameaçadora do que na foto acima, pelas seguintes razões:

  1. Metade do aquecimento global tem até agora sido mascarado por aerossóis, particularmente os sulfatos que são emitidos quando alguns dos combustíveis fósseis mais sujos são queimados, como o carvão e combustível bunker. Enquanto fizermos a mudança necessária para a energia limpa, o efeito de mascaramento que vem com essas emissões irá desaparecer.
  2. Como Ricke e Caldeira salientam, o dióxido de carbono que é libertado agora, só atingirá o seu pico de impacto daqui a uma década. Por outras palavras, ainda estamos por experienciar toda a ira do dióxido de carbono emitido durante a última década.
  3. picos anormais de temperaturas

  4. A maior ameaça vem de picos de temperatura. Pessoas em algumas partes do mundo vão ser atingidas mais fortemente, especialmente durante os picos de verão, como discutido na próxima secção deste post. Enquanto as temperaturas sobem, a intensidade desses picos irá aumentar. A imagem à direita ilustra isso com uma previsão para 25 de Dezembro de 2015, mostrando o tempo extremo para a América do Norte, com temperaturas tão baixas como 30,6°F -0,8°C na Califórnia, e tão elevadas quanto 71,5°F ou 22°C na Carolina do Norte. [a 26 fizeram de facto 22°C na Carolina do Norte e 3°C na Califórnia].
  5. Mecanismos de reforço positivo como as rápidas mudanças de albedo no Ártico e as grandes quantidades de metano libertadas abruptamente do fundo do mar do Oceano Ártico, podem acelerar dramaticamente o aumento de temperatura. Além disso, o vapor de água vai aumentar em 7% para cada 1°C de aquecimento. O vapor de água é um dos gases de efeito estufa mais fortes, logo, o aumento do vapor de água continuará a contribuir para um aumento não-linear da temperatura. As subidas de temperatura resultantes ameaçam ser não-lineares, como discutido na secção final deste post.

A situação é ainda pior para alguns

Tais aumentos de temperatura vão atingir algumas pessoas mais do que outras. Para as pessoas que vivem no hemisfério norte, a perspectiva é pior do que para as pessoas no Hemisfério Sul.

Dados da NOAA mostram que a anomalia da temperatura global em terra e nos oceanos para novembro foi de 0,97°C, enquanto que a anomalia da temperatura global na terra e nos oceanos para 3 meses foi de 0,96°C. A anomalia da temperatura em terra no Hemisfério Norte (onde a maioria das pessoas vivem) em novembro 2015 para 12 meses foi de 1,39°C, como mostrado na imagem abaixo, enquanto a linha de tendência mostra que, para as pessoas que vivem no Hemisfério Norte, um aumento de 1,5°C em comparação com 1910-2000 poderia ser alcançado tão cedo quanto em 2017.

Anomalia da Temperatura Terrestre no Hemisfério Norte

De forma similar, a perspectiva é pior para as pessoas que vivem em regiões que já estão a experienciar agora elevadas temperaturas durante os picos de verão. Como disse, com o aumento das temperaturas, a intensidade de tais picos irá aumentar.

Mecanismos de Reforço Positivo (Feedbacks) no Ártico

A imagem abaixo, de uma publicação anterior, representa o impacto dos feedbacks que estão a acelerar o aquecimento no Ártico, com base em dados da NASA até Novembro de 2013, e a sua ameaça de causarem aquecimento global descontrolado. Como a imagem mostra, as temperaturas no Ártico estão a subir mais rápido do que em qualquer outro lugar no mundo, mas o aquecimento global ameaça recuperar o atraso assim que os feedbacks começarem a ser mais intensivos. A situação, obviamente, deteriorou-se ainda mais desde que esta imagem foi criada em novembro de 2013.

Aquecimento global acelerado no Ártico e mecanisos de reforço positivo

Aquecimento global acelerado no Ártico resultante dos mecanismos de reforço positivo. 1- Aquecimento global; 2- Aquecimento Acelerado no Ártico; 3- Aquecimento Global Fugidio.

A imagem abaixo mostra as anomalias da temperatura de superfície do mar no Hemisfério Norte em novembro.

Anomalia da Temperatura de Superfície do Mar

A imagem em abaixo dá uma indicação das elevadas temperaturas da água abaixo da superfície do mar. Anomalias tão elevadas como 10,3°C ou 18.5°F foram registadas ao largo da costa leste da América do Norte (círculo verde no painel direito da imagem em baixo) a 11 de dezembro de 2015, enquanto que a 20 de dezembro de 2015, temperaturas tão altas quanto 10.7°C ou 51,3°F foram registadas perto de Svalbard (círculo verde no painel direito da imagem abaixo), uma anomalia de 9,3°C ou 16.7°F.

Anomalia da Temperatura de Superfície dos Oceanos Dez 2015

Esta água quente é levada pela corrente do Golfo para o Oceano Ártico, ameaçando soltar grandes quantidades de metano do fundo do mar. A imagem abaixo ilustra o perigo, mostrando enormes quantidades de metano sobre o Oceano Ártico a 10 de Dezembro, de 2015.

Níveis de Metano no Ártico

O metano é libertado ao longo do Oceano Ártico em grandes quantidades, e este metano está a mover-se em direção ao equador à medida que atinge grandes altitudes. A imagem em baixo ilustra como o metano está a acumular-se em altitudes mais elevadas.

Níveis globais de metano

A imagem em cima mostra que o metano é especialmente proeminente em altitudes mais elevadas recentemente, tendo impulsionado os níveis de metano numa média estimada em 9 ppb ou cerca de 0,5%. As emissões anuais de hidratos foram estimadas em 99 Tg anualmente, numa publicação de 2014 (imagem abaixo).

Fontes de emissões de metano

Fontes de emissões de metano em Tg por ano.
Pântanos – 217 = 28,1%; Combustíveis fósseis e biomassa – 131 = 17%; Ruminantes, arroz, lixeiras – 200 = 25,9%; Outras fontes naturais, lagos, incêndios – 123 = 16%; Hidratos e Permafrost – 100 = 13%; Total – 171 Tg por ano.

Uns adicionais 0,5% de metano representam uma quantidade de cerca de 25Tg de metano. Isto vem em cima dos 99 Tg de metano estimados em 2014 como sendo libertados de hidratos anualmente.

A situação é calamitosa e apela a uma acção abrangente e eficaz, conforme descrito no Plano Climático.

Referências

– How Close Are We to ‘Dangerous’ Planetary Warming? By Michael Mann, December 24, 2015
http://www.huffingtonpost.com/michael-e-mann/how-close-are-we-to-dangerous-planetary-warming_b_8841534.html

– Maximum warming occurs about one decade after a carbon dioxide emission, by Katharine L Ricke and Ken Caldeira (2014)
http://iopscience.iop.org/1748-9326/9/12/124002/article

– How much time is there left to act?
http://arctic-news.blogspot.com/p/how-much-time-is-there-left-to-act.html

Durante os três meses do período entre Setembro e Novembro de 2015, esteve 1°C mais quente do que entre 1951-1980,…
Publicado por Sam Carana na quarta-feira, 16 de Dezembro de 2015, em Arctic-News.blogspot.com

Standard