Anomalia da Temperatura Janeiro de 2016 NASA Ártico mais quente
Robertscribbler

Ártico Sem Inverno em 2016 – NASA Marca Janeiro Mais Quente Já Registado

Os cientistas estão perplexos e nós também devíamos estar. O calor global e especialmente as temperaturas extremamente altas em relação à média que vimos no Ártico ao longo do mês passado são absolutamente sem precedentes. É estranhamente bizarro. E o que parece, para este observador em particular, é que a sazonalidade do nosso mundo está a mudar. O que estamos a testemunhar, neste momento, parece o começo do fim para o Inverno tal como o conhecemos.

Janeiro Mais Quente do Registo – Mas o Ártico Está Simplesmente Bizarro

Qualquer pessoa que observe o Ártico – de cientistas a ambientalistas, a especialistas em ameaças emergentes, a entusiastas do tempo e do clima, até simplesmente pessoas normais, inquietos com o estado do nosso sistema climático global o qual se revela rapidamente – deviam estar muito, muito preocupados. A emissão humana de gases de efeito estufa – agora a empurrar os níveis de CO2 acima das 405 partes por milhão e a adicionar uma série de gases extra que retêm o calor – parece estar a forçar rapidamente o nosso mundo a aquecer. E a aquecer mais rapidamente num dos absolutamente piores lugares que se possa imaginar – o Ártico.

Não só foi este janeiro de 2016 o mês de janeiro mais quente já registado no registo climático global de 136 anos da NASA; não só janeiro mostrou a maior diferença de temperatura em relação à média para um único mês – com 1,13°C acima da linha de base do século XX da NASA, e cerca de 1,38°C acima das médias de 1880 (apenas 0,12°C abaixo da perigosa marca de 1,5°C); como o que observámos na distribuição global dessas temperaturas quentes recorde foi ao mesmo tempo estranho e perturbador.
Anomalia da Temperatura Janeiro de 2016 NASA

(Um mundo quente recorde em janeiro mostra calor extremo no Ártico. O mapa global de anomalia da temperatura da NASA, em acima, sugere que o calor tropical – acentuado por um El Nino recorde – viajou para o norte e pelo Ártico dentro por meio de pontos fracos na corrente de jato sobre a América do Norte Ocidental e a Europa Ocidental. Fonte da imagem – NASA GISS).

Apesar de que o mundo estava quente no seu todo – com o calor do El Nino a dominar as zonas tropicais – os extremos das temperaturas acima da média concentraram-se exatamente no telhado do nosso mundo. Lá, nas terras do Ártico e do gelo glacial e da permafrost agora a descongelar – sobre a Sibéria, sobre o norte do Canadá, sobre o norte da Gronelândia e por toda a zona do Oceano Ártico acima da Latitude Norte 70 – as temperaturas andavam em média entre os 4 e os 13 graus Celsius acima do normal. Isso é entre 7 e 23 graus Fahrenheit mais quente do que o normal para o período extraordinário de um mês inteiro.

E quanto mais para norte se ia, mais calor se obtinha. Acima da linha de Latitude Norte 80, as médias de temperatura para toda a região subiram para cerca de 7,4 graus C (13 graus F) mais quentes que o normal. Para esta área do Ártico, isso é tipo igual à diferença típica entre janeiro e abril (abril é cerca de 8 C mais quente do que janeiro, durante um ano normal). Assim, o que temos visto é absolutamente sem precedentes – no Ártico, para o mês inteiro de janeiro de 2016, as temperaturas foram aquelas de uma primavera.

Desvio das temperaturas em relação à média no Ártico para 2016

(Para janeiro e fevereiro de 2016, a região de Latitude Norte 80 e em direção ao norte experienciou as suas condições mais quentes jamais registadas. As temperaturas mantiveram-se num intervalo de -25 a -15 C para a zona, um conjunto de temperaturas mais típicas de meados ou final de abril. Fonte da imagem: NOAA).

E para o inverno de 2016, é possível que o Ártico nunca experiencie condições típicas. Pois, de acordo com a NOAA, a primeira quinzena de fevereiro viu este calor recorde, tipo Primavera, prolongar-se até hoje. É como se estas zonas mais frias do Hemisfério Norte ainda não tivessem experienciado Invernocomo se a tempestade anormal que levou as temperaturas do Ártico para níveis recorde durante o final de dezembro tenha, desde então, enfiado o termómetro em níveis típicos de abril e o deixado lá preso.

Calor do El Niño Teleconecta com o Polo

Porque é isso tudo tão ameaçador?

Seria mau se fosse o caso em que o calor no Ártico simplesmente resultasse no cada vez mais rápido derretimento dos glaciares – forçando os mares a subirem centímetros, polegadas e pés. Seria muito mau se o aquecimento polar se amplificasse à medida que o gelo branco sobre a terra e sobre o mar regredisse, tornando uma superfície refletora de calor numa característica de absorção de calor azul escura, verde e castanha. Seria surpreendentemente mau se tal calor também resultasse em degelo da permafrost, mais uma vez agravando o aquecimento forçado pelos humanos ao desbloquear até 1.300 biliões de toneladas de carbono e, eventualmente, transferir cerca de metade disso para a nossa atmosfera. E seria muito ruim se todo esse calor extra no Ártico começasse a intrometer-se com o clima do Hemisfério Norte, ao alterar o fluxo da corrente de jato. Resultando em sulcos muito persistentes produtores de secas e depressões produtoras de tempestades.

Ondas de Amplitudes Elevadas na Corrente de Jato

(Ondas de amplitudes elevadas na Corrente de Jato – uma sobre a parte ocidental da América do Norte e uma segunda sobre a Europa – transferem calor de Latitudes inferiores para o Ártico durante um ano de El Nino a 7 de fevereiro de 2016. Enquanto a amplificação polar encrencava em novos extremos durante os meses quentes recorde de dezembro e janeiro, parecia que a capacidade do El Nino para fortalecer a Corrente de Jato, e assim separar o calor equatorial do Polo frio, havia sido comprometida. Fonte da imagem: Earth Nullschool).

Infelizmente, estes eventos já não são apenas hipotéticos. O gelo do mar está a recuar. A permafrost está a descongelar. Os glaciares estão a derreter. E o fluxo da Corrente de Jato parece estar a enfraquecer.

Mas e se todo esse acumular polar de calor devido à queima de combustíveis fósseis pelos humanos tivesse ainda mais um efeito adicional? E se essa pedra quente atirada para o rio da circulação atmosférica que chamamos de El Nino pudesse de alguma forma transferir a sua acumulação de calor tropical lá para acima até ao Polo? E se o fluxo da Corrente de Jato no Hemisfério Norte tivesse ficado tão fraca que até mesmo um aquecimento nos trópicos devido a um forte El Nino recorde não pudesse acelerá-lo significativamente (através do aumento do diferencial de calor entre o Equador e o Polo). E se essas novas zonas ondulantes da Corrente do Jato se estendessem até ao Ártico – empurrando o calor tropical para o extremo norte durante eventos El Nino? Em momentos em que o mundo, como um todo, estivesse no seu mais quente? Durante um período em que o calor e a humidade na superfície do Oceano Pacífico estivessem a explorar um novo pico devido a uma combinação de aquecimento forçado pelos humanos e um El Nino atingir o topo do ciclo de variabilidade natural?

E se, de alguma forma, esse pico de calor tropical pudesse fluir desde o Equador até ao Pólo?

O que veríamos, então, seria uma aceleração das perigosas mudanças no Ártico descritas em cima. O que veríamos seria um aliar do sinal de amplificação polar, associado ao aquecimento global, com o topo da escalada quente de variabilidade natural que é o El Nino. E quanto ao Ártico sem inverno que foi o primeiro mês e meio de 2016, foi isso o que parece que acabámos de experienciar.

Os cientistas estão perplexos. Bem, deviam estar. Devíamos estar todos.

Links:

NASA GISS

NOAA

Os Cientistas estão Perplexos pelo que Está a Acontecer no Ártico Neste Momento

Tempestade Quente no Ártico para Descongelar o Polo Norte

Clima do Polo Norte

O Blog do Gelo do Mar Ártico

Impactos da Perda de Gelo do Mar

Earth Nullschool

Jennifer Francis sobre o Impacto do Aquecimento no Árctico Sobre a Corrente de Jato

Traduzido do original No Winter For the Arctic in 2016 — NASA Marks Hottest January Ever Recorded, publicado por Robertscribbler em http://robertscribbler.com/ a 18 de Fevereiro de 2016.

Outros blogues com publicações recentes sobre Alterações Climáticas em Português:

Gelo do Ártico Continua num Recorde Mínimo para a Época do Ano

em https://alteracoesclimaticas…

Papel do Metano no Aquecimento do Ártico

em https://alteracoesclimaticas…

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Robertscribbler

Zika Vírus e a Nova Distopia do Clima – O Efeito de Estufa Humano como Multiplicador de Doenças

A partir de hoje, as autoridades no Brasil, Colômbia, Jamaica, El Salvador e Venezuela, exortavam as mulheres para evitarem ficarem grávidas … É impensável. Ou melhor, é algo saído de uma história de ficção científica, o cerne absoluto de um futuro distópico.

– Bill McKibben, num comunicado recente sobre o aquecimento global e o vírus Zika que é agora uma pandemia.
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Existe uma infinidade de doenças por aí fora. Doenças que não conhecemos. Doenças trancadas em cantos do mundo rarefeitos e distantes. Doenças que operam em ambientes de selva de nichos pequenos. Doenças que vivem em apenas sistemas de cavernas ou numa única espécie. Doenças que foram trancadas há milhões de anos atrás no gelo que descongela agora. Doenças que, se lhes for dado um vetor – ou um meio de viajarem para fora dos seus pequenos nichos orgânicos ou ambientais rarefeitos – podem causar danos incalculáveis em amplas extensões do globo.

Países com transmissão do vírus zika

Os países com transmissão ativa do Zika Vírus reportada. Até recentemente, as crises de Zika estavam isoladas à África Central e Polinésia Francesa. Agora, o vírus é uma pandemia global com as autoridades da Organização Mundial de Saúde preocupada que as infeções possam chegar aos 4 milhões. Fonte da imagem: O CDC.

Tal foi o caso com o outrora humilde vírus Zika. Descoberto em 1947 na África Central, a doença primeiro só existia em macacos. O vírus levou 7 anos para dar o salto para os humanos em 1954. Mas, ao início, os sintomas eram apenas ligeiros e para a maior parte da história da doença era considerado uma forma menos prejudicial do vírus Dengue – ao qual está estreitamente relacionado. O vírus, ao início, aparentava apenas resultar em febre, dores de cabeça, erupção cutânea e dor nas costas – se quaisquer sintomas aparecessem de todo. Iria levar muito mais tempo para os devastadores e terríveis efeitos posteriores, de um vírus que aparentava num primeiro momento ser inofensivo, começarem a aparecer.

Até 2007, quando o vírus começou a crescer até aos seus níveis de pandemia atuais, estava na sua maioria isolado à África Central e a uma região da Polinésia Francesa no Pacífico. Ambas as áreas estão entre as mais calorosas e mais chuvosas do mundo. Ambas caracterizadas por populações muito grandes e persistentes dos tipos de mosquitos mais adequados para a transmissão desta doença agora amplamente temida.

Uma Questão da Extensão Crescente dos Vetores de Doenças

Em linguagem de epidemiologia, um vetor é um transportador da doença. No caso de Zika, o transportador primário é o mosquito. No total, sete espécies da variedade de mosquitos Aedes são conhecidos por transportar Zika.

Em condições climáticas normais, o alcance desses insetos transmissores de doenças tende a permanecer bastante estável. Mas não é esse o caso no mundo atual. Desde 1880, o mundo tem aquecido e as extensões de mosquitos vetores de doença têm-se expandindo. Sob o regime atual de aumento da temperatura de 1°C ao longo dos últimos 136 anos, o Aedes Aegypti – um dos principais transportadores do vírus Zika – expandiu o seu habitat para fora dos trópicos e em latitudes cada vez mais elevadas.

Aedes Aegypti Distribuição Global

Distribuição global do Aedes Aegypti em 2015 – vermelho indica maior frequência, azul indica frequência zero. O Aedes Aegypti é um vetor de doenças para vírus como o Dengue e o Zika. À medida que o mundo aqueceu, o seu habitat tem vindo a expandir-se para Latitudes cada vez mais elevadas. Fonte da imagem: Distribuição do Aedes Aegypti

Mas não só a extensão global desses portadores da doença está em expansão como também há uma persistência nas regiões que eles ocupavam anteriormente. Regiões que poderão ter assistido apenas a uma ou duas semanas por ano nas quais mosquitos fêmea, infectados com Zika, estavam ativos, podem agora experienciar um ou dois meses de exposição. E regiões em que o mosquito estava ativo durante apenas alguns meses poderão agora ver populações ativas transmissoras da doença durante metade do ano ou mais.

É essa duração crescente e expansividade da exposição ao vetor de doença que é um dos impactos epidemiológicos mais perigosos da mudança climática. A alteração climática não apenas possibilita o movimento de doenças provenientes do isolamento anterior em reservatórios remotos. Ela também permite uma amplitude cada vez maior de transporte, já que as áreas em que as espécies portadores de doenças estão adaptadas a viver expandem dramaticamente, tanto em termos de espaço como em termos de tempo de exposição.

É como se tivéssemos decidido carregar triliões de mosquitos com o que equivale a munição viva biológica e, em seguida, lhes déssemos a capacidade de descarregar essa munição letal sobre extensões cada vez mais amplas e mais abrangentes do globo. Isso é basicamente o que se obtém quando se aquece o mundo. Uma expansão e invasão global de doenças até então desconhecidas espalha-se pelo mundo através de vetores como o mosquito.

A Explosão Viral do Zika Ocorre Durante o Ano Mais Quente Já Registado

Voltando ao nosso conto de expansão do vírus Zika desde 2007 até 2016, descobrimos que o Zika durante este espaço de tempo tinha saltado para fora do seu habitat tradicional do século XX e, coincidentemente, expandido com a propagação de mosquitos da variedade Aedes ao longo das bandas de clima em aquecimento e umedecimento. Em 2007, o primeiro salto fora da África Central e Polinésia Francesa ocorreu em Yap – uma parte dos Estados Federados da Micronésia.

O alcance da epidemia, em seguida, expandiu novamente até 2014 para a Ilha de Páscoa, Polinésia mais ampla, as Ilhas Cook, e a Nova Caledónia. A expansão geográfica desta doença ao longo das cadeias de ilhas do Pacífico indica que o aumento da virilidade do Zika desencadeou-se, provavelmente, a partir da estirpe da Polinésia Francesa e não a partir da estirpe em África.

Então, em 2015, coordenado com as temperaturas globais mais quentes já registadas, o vírus Zika pulou para fora dos seus limites ambientais da bacia das ilhas do Pacífico e espalhou-se para o Brasil e Caribe. O vírus, subsequentemente, espalhou-se através de uma ampla secção da América Central e América do Sul. A partir de ontem, avisos de viagens de possível exposição ao vírus Zika estavam incluídos nesta lista de 22 países:

Barbados, Bolívia, Brasil, Cabo Verde, Colômbia, Equador, El Salvador, Guiana Francesa, Guadalupe, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras, Martinica, México, Panamá, Paraguai, Porto Rico, Saint Martin, Samoa, Suriname e Venezuela.

Hoje, a Organização Mundial da Saúde estava a emitir avisos de que até 4 milhões de pessoas podem acabar por ser infetadas antes do surto mais recente estar terminado.

O Nova Distopia Climática – Estamos Agora a Dizer às Mulheres para Não Terem Filhos

Como muitas febres virais, o Zika ataca o sistema nervoso das pessoas que infecta. E apesar de os sintomas iniciais poderem parecer leves, com até 80 por cento das pessoas infetadas a mostrarem nenhum sintoma de todo, o vírus pode causar danos graves a longo prazo tanto para bebés não nascidos como para indivíduos vulneráveis. Como as taxas de infecção pelo vírus aumentaram, foram suspeitas de estarem relacionadas instâncias de um tipo de paralisia temporária chamada Síndrome de Guillain Barre e um encolhimento aterrorizante das cabeças de bebés em gestação chamado microcefalia, que também aumentaram [O que é Microcefalia, na Wikipédia].

Microcefalia e vírus Zika

Um aumento nas taxas de microcefalia – um encolhimento trágico das cabeças de crianças não nascidas como resultado de danos virais no sistema nervoso – entre as crianças em regiões de surto do vírus Zika levantou preocupações globais quanto ao impacto contínuo do vírus. Mais particularmente, as mulheres em um número crescente de países estão agora a ser solicitadas a abster-se de terem filhos durante meses ou mesmo anos. Fonte da imagem: O CDC.

Hoje na BBC:

O vírus, que não apresenta sintomas 80% das vezes, é acusado de causar desenvolvimento atrofiado do cérebro em bebés. Cerca de 3.500 casos de microcefalia foram identificados até agora no Brasil. E pessoal médico em Recife, a capital do estado no Nordeste no Brasil, dizem que estão a lutar para lidar com pelo menos 240 casos de microcefalia em crianças.O Secretário de Saúde da cidade, Jailson Correia, um especialista em doenças tropicais, disse à BBC que ele e outros precisam “de lutar duro”.

Estes são impactos profundamente terríveis. Impactos que não foram inicialmente esperados de um vírus que ao início parecia tão inócuo. E é essa ameaça de microcefalia gerada por Zika entre os lactentes que está a impulsionar tudo, desde avisos de viagem para a medida inédita de alguns países solicitarem que as suas populações humanas dêem o passo extremo de evitar a gravidez.

Desde segunda-feira, autoridades no Brasil, Colômbia, Jamaica, El Salvador e Venezuela estavam a exortar as mulheres a não engravidarem. A moratória para a gravidez – que é voluntária – varia em duração de alguns meses a dois anos no caso de El Salvador. E a razão para a moratória solicitada é, infelizmente, prática. As autoridades desses países estão agora forçadas a escolher entre perguntar às mulheres para evitarem a gravidez ou terem os seus sistemas de saúde sobrecarregados por lactentes que sofrem de microcefalia.

Com uma vacina provavelmente a ​​10-12 anos de distância para o vírus Zika, com 4 milhões de casos esperados no foco atual, e com o habitat dos mosquitos Aedes que carregam o vírus a continuar a expandir-se na cauda de um aquecimento global forçado pelos humanos, estamos infelizmente apenas no início desta tragédia. Um evento que, como Bill McKibben observou no The Guardian no início desta semana, saltou totalmente para o reino da distopia.

Um Deslocamento Profundo para a Humanidade

A microcefalia entre crianças é ao mesmo tempo trágica e terrível. O seu impacto atinge o cerne daquilo que significa ser-se um ser humano. Se um vírus, conduzido para regiões distantes pelo aquecimento do mundo através da queima de combustíveis fósseis, é capaz de paralisar os nossos filhos enquanto ainda no útero, a nossa sensação de segurança é abalada enquanto testemunhamos esta brutalidade de partir o coração. É o tipo de coisa tão terrível que não podia vir da imaginação humana. E é por isso que, quando o testemunhamos, experimentamos uma estranha sensação de deslocamento. Um sentimento surreal de que nada está correto. Como o momento depois do carro bater no poste de telefone, o momento em que ainda estás a voar pelo ar, arremessado do veículo. O momento imediatamente antes do impacto inevitável com o pavimento.

Mas o impacto, infelizmente, vem. Não estamos apenas a tornar muitas das espécies deste mundo em órfãos climáticos. Em criaturas sem um espaço seguro para viver e prosperar, também o estamos a fazer a nós mesmos. Pois os filhos de Zika também são órfãos climáticos. As vítimas trágicas de uma variedade crescente de condições ambientais que são perigosas para a vida humana. E o Zika é apenas um exemplo das doenças mortais, condições meteorológicas extremas, elevação do nível do mar, colapso glacial, morte do oceano, e rotura das colheitas que estamos agora a forçar sobre o habitat humano. Um habitat que estamos a tornar menos habitável para nós mesmos e para praticamente tudo o resto.

É isso que significa deslocação terminal – ser forçadamente excluído. Ser-se, de repente, introduzido num ambiente muito hostil em que a sobrevivência, e neste caso a reprodução, é, de repente, um negócio arriscado. Para os seres humanos, este é um deslocamento profundo. Um que faz com que o mundo em que estamos a viver agora pareça por demais estranho. Pois não estamos a viver no mundo que estamos acostumados. E aquele que estamos a fazer é ao mesmo tempo terrível e trágico. E, com toda a honestidade, precisamos desesperadamente de parar com os danos antes de qualquer outra coisa muito grande, ou terrível, ou essencial, se solte.

Links:

O Virus Zika Prenuncia o Nosso Futuro Distópico Climático

Sobre Mudanças Climáticas e Doenças Transmitidas por Vetores

O CDC

O Virus Zika

Zika Vírus Originário de Mosquito Espalha-se Explosivamente

Aedes Aegypti

UCAR: Mudanças Climáticas e Doença Originária em Vetor

Cidade Brasileira Vê um Pico nos Casos de Microcefalia

Fatos sobre Microcefalia

Aquecimento Global Aumenta População de Mosquito em 50 por Cento

Traduzido do original Zika and the New Climate Dystopia — Human Hothouse as Disease Multiplier, publicado por Robertscribbler em http://robertscribbler.com/ a 28 de Janeiro de 2016.

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Robertscribbler

Um Salto Aterrorizante nas Temperaturas Globais – Dezembro de 2015 1,4 C Acima de 1890

Um monstro El Nino a disparar no Pacífico. Uma acumulação maciça de gases de efeito estufa provenientes de combustíveis fósseis na atmosfera empurram os níveis de CO2 bem acima das 400 partes por milhão. A contribuição de outros gases de efeito estufa empurrando a forçação calórica total global para as 485 partes por milhão de CO2e. Dado este contexto forte, sabíamos que os números iriam provavelmente ser maus. Apenas não sabíamos o quão maus. E, olhando para as medições iniciais que entram, podemos, definitivamente, dizer que isto é sério.

De acordo com o relatório de hoje da Agência Meteorológica do Japão, as temperaturas globais aumentaram uns ridículos 0,36 graus Celsius desde o período de Dezembro de 2014 – o Dezembro anterior mais quente no registro climático global – até Dezembro de 2015 – o novo Dezembro mais quente por um bom bocado de diferença. Para colocar um salto mensal tão espantoso das temperaturas globais, de um ano para o outro, em contexto, a taxa média decenal de aumento da temperatura global tem estado na faixa dos 0,15 C a cada dez anos durante as últimas três décadas e meia. É como se se aglomerasse 20 anos de aquecimento forçado por humanos tudo num diferencial de 12 meses.

Temperatura Global Recorde Dezembro 2015

(A Agência Meteorológica do Japão mostra um salto assustadoramente acentuado nas temperaturas globais para o mês de Dezembro de 2015. Fonte da imagem: JMA). [clique na imagem para aumentar o seu tamanho]

Dando uma olhada a este salto mensal incrível nas temperaturas globais em termos de faixas de tempo mais longas, descobrimos que Dezembro de 2015 ficou em 1,05 C acima da média do século XX e um aterrorizante (sim, não há outra palavra para o descrever) 1,42 C acima da média de temperaturas no início do registo em 1890.

O mundo está agora a explorar médias de temperatura globais mensais que estão a bater muito perto de uns perigosos 1,5 C acima dos níveis pré-industriais. E embora esses números não reflitam médias anuais que provavelmente serão muito menores – na faixa de 1 a 1,2 C acima de 1880 para 2015 e 2016 – devíamos ter muito claro que tais leituras elevadas continuam a ser motivo de séria preocupação. Preocupação com a potencialidade de que 2016 possa também ver a continuação de novos recordes de temperaturas anuais quentes em cima de recordes dos anos quentes anteriores de 2014 e 2015. E a preocupação de que podemos muito bem estar apenas à distância de mais um forte El Nino de ultrapassar ou chegar perigosamente perto do limiar de temperatura média anual de 1,5 C.

Há aqui razão para preocupação e há certamente algum motivo para alarme. Alarme no sentido de que o mundo precisa realmente de ser ainda mais sério quanto a reduzir as emissões globais de combustíveis fósseis para perto de zero, tão rápido quanto possível. Caso contrário, podemos muito bem passar os 2 C – não antes de 2100, mas antes de 2050.

Links:

Agência Meteorológica do Japão – Análise da Temperatura Global

(Análises da NASA e NOAA em breve)

Traduzido do original A Terrifying Jump in Global Temperatures — December of 2015 at 1.4 C Above 1890, publicado por Robertscribbler em http://robertscribbler.com/ a 14 de Janeiro de 2016.

Outros blogues com publicações recentes sobre Alterações Climáticas em Português:

Os Níveis de Gases de Efeito Estufa e as Temperaturas Continuam a Aumentar

em https://alteracoesclimat…

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Anomalias de temperatura e desaparecimento do gelo polar Ártico
Sam Carana

Os Níveis de Gases de Efeito Estufa e as Temperaturas Continuam a Aumentar

Sugerimos a leitura de “Os Níveis de Gases de Efeito Estufa e as Temperaturas Continuam a Aumentar” no site Aquecimento Global: A Mais Recente Ciência Climática
 
No Acordo de Paris, as nações comprometeram-se em reduzir as emissões e evitar subidas de temperatura perigosas. No entanto, o aumento dos níveis de gases de efeito estufa e das temperaturas parecem estar a acelerar.

Crescimento recorde dos níveis de dióxido de carbono em Mauna Loa

A média anual do nível de dióxido de carbono medido em Mauna Loa, no Havaí, cresceu 3,17 ppm (partes por milhão) em 2015, uma taxa de crescimento mais alta do que em qualquer ano desde que o registo começou em 1959.

Média anual de aumento de Dióxido de Carbono, CO2

Como a imagem acima mostra, uma linha de tendência polinomial adicionada aos dados aponta para uma taxa de crescimento do dióxido de carbono de 4 ppm pelo ano 2024 e 5 ppm por volta de 2028.

Níveis de CO2 Janeiro 2016

Níveis de CO2 atuais – Janeiro 2016

No início da Revolução Industrial, o nível de dióxido de carbono na atmosfera era de cerca de 280 ppm. Em 11 de janeiro de 2016 como a imagem acima mostra, o nível de dióxido de carbono em Mauna Loa, no Havaí, era 402,1 ppm. Isso é cerca de 143% daquilo que era o nível superior de dióxido de carbono em tempos pré-industriais durante pelo menos os últimos 400.000 anos, como a imagem mais abaixo ilustra.

Níveis de CO2 em diferentes latitudes, Ártico e Equador

A latitudes norte mais elevadas, os níveis de dióxido de carbono são mais elevados do que noutros lugares na Terra, como ilustrado pela imagem acima. Estes gases de efeito estufa elevados contribuem para o aquecimento acelerado do Ártico.

Níveis de metano aumentam ainda mais rápido do que os níveis de CO2, especialmente por cima do Oceano Ártico.

Historicamente, os níveis de metano foram se movendo para cima e para baixo entre uma janela de 300 e 700 ppb [NT: partes por bilião]. Nos tempos modernos, os níveis de metano têm vindo a aumentar ainda mais rapidamente do que os níveis de dióxido de carbono, como ilustrado pela imagem abaixo, proveniente de uma publicação anterior.

Temperatura, dióxido de carbono e metano históricos

Histórico de temperaturas, níveis de dióxido de carbono e níveis de metano, desde há 400 mil anos até 2014

Como a imagem acima ilustra, o nível médio de 1.839 ppb que foi alcançado a 7 de Setembro de 2014, são alguns 263% dos ~ 700 ppb que historicamente eram os níveis superiores de metano.

A imagem abaixo, a partir de um post anterior, mostra as médias anuais disponíveis da Organização Meteorológica Mundial (OMM), ou seja, de 1984 até 2013, com a linha de tendência polinomial adicionada com base nesses dados. Dados selecionados da NOAA para 2014 e 2015, também foram adicionados para referência.

Níveis de metano, médias globais

Médias globais dos níveis de metano pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) de 1984 a 2013; dados de 2014 e 2015 pela NOAA. Linha de tendência polinomial adicionada com base nos dados da OMM.

Recentemente, alguns níveis muito elevados de pico foram registados, incluindo uma leitura de 2745 ppb a 02 de Janeiro de 2016, e uma leitura de 2963 ppb a 8 de janeiro de 2016, mostrado abaixo.

Níveis de metano em Janeiro 2016 em ppb

Estas leituras elevadas ilustram o perigo de que, à medida que água mais quente atinge o fundo do mar do Oceano Ártico, vai desestabilizar cada vez mais os sedimentos que podem conter enormes quantidades de metano na forma de gás livre e hidratos. Imagens associadas a essas leituras elevadas mostram a presença de níveis elevados de metano sobre o Oceano Ártico, indicando que esses picos elevados têm origem no oceano Ártico e que os sedimentos do fundo do mar no Oceano Ártico estão a a ser desestabilizados. O perigo é que esses picos irão ser acompanhados por erupções abruptas ainda mais fortes do fundo do mar do Oceano Ártico, à medida que as temperaturas da água continuarem a subir.

O aumento das temperaturas

Como discutido num post anterior sobre o acordo de Paris, [traduzido para português neste blogue] já está, agora, acima de 1,5°C mais quente do que nos tempos pré-industriais. Esse post mostra uma linha de tendência a avisar que sem uma ação abrangente e eficaz, poderá ficar 2°C mais quente antes do ano de 2030.

Aquecimento global acelerado no Ártico e mecanisos de reforço positivo

Aquecimento global acelerado no Ártico resultante dos mecanismos de reforço positivo.
1- Aquecimento global
2- Aquecimento Acelerado no Ártico
3- Aquecimento Global Fugidio.

Grandes erupções de metano ameaçam aquecer ainda mais a atmosfera, primeiro em lugares críticos sobre o Árctico e, eventualmente, ao redor do mundo, ao mesmo tempo causando enormes oscilações de temperatura e eventos climáticos extremos, contribuindo para o aumento da depleção de água doce e do abastecimento de alimentos, como ilustrado pela imagem abaixo a partir de um post anterior [imagem encontra-se no post original].

A situação é calamitosa e apela a uma acção abrangente e eficaz, conforme descrito no Plano Climático.

Abaixo está uma imagem de Malcolm Light, que atualiza uma imagem que apareceu em numa publicação anterior.

Anomalias de temperatura e desaparecimento do gelo polar Ártico

Nota do Tradutor: O ponto de intersecção dos envelopes que convergem as variações de amplitude das médias mensais móveis em 11 anos das anomalias da temperatura máxima de superfície do Giss [Goddard Institute of Space Studies da NASA] representa um tempo após o qual o efeito variável causado pelo calor latente do derretimento e congelamento do gelo do mar nas calotes polares irá ser eliminado, ou seja, o tempo em quea calote flutuante de gelo no Ártico vai derreter completamente.

Traduzido do original Greenhouse gas levels and temperatures keep rising de Sam Carana, no blogue onde contribuem vários cientistas do clima: Arctic News, a 14 de Janeiro de 2016.

Outros blogues com publicações recentes sobre Alterações Climáticas em Português:

Um Salto Aterrorizante nas Temperaturas Globais – Dezembro de 2015 1,4 C Acima de 1890

em https://aquecimentoglobaldesc…

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Temperatura

Recorde de Temperatura de Superfície do Mar Global para Junho-Agosto

[Estes dados mostram toda a sua relevância para a humanidade quando colocados em contexto, ou seja, assim que lemos os comentários de John Davies, mais abaixo neste mesmo post]

Agosto 2014 bateu o recorde de temperatura em terra e do oceano

A temperatura média combinada das superfícies terrestres e oceânicas globais para Agosto de 2014 foi o recorde mais alto para o mês, em 0,75°C (1,35°F) acima da média para o século XX de 15,6°C (60,1°F).

Junho-Agosto de 2014 com o recorde máximo de temperatura em terra e no oceano

O período de Junho a Agosto de 2014, com 0,71°C (1,28°F) acima da média do século XX, teve o registo mais quente desse período do ano em superfícies terrestres e oceânicas globais, desde que a regularidade de registos começou em 1880.

Recorde de Temperaturas máximas em terra e no mar para o período de Junho a Agosto

Tradução do esquema de cores: Recorde de mais frio; Muito mais frio que a média; Mais frio que a média; Cerca da média; Mais quente que a média; Muito mais quente que a média; Recorde do mais quente.

Agosto 2014, recorde máximo de temperatura da superfície do mar

A temperatura de superfície do mar (TSM) global para Agosto foi de 0,65°C (1,17°F) acima da média do século XX de 16,4°C (61,4°F). Este recorde máximo em comparação à temperatura média não só bate o recorde anterior de Agosto estabelecido em 2005 por 0,08°C (0,14°F), como também bate o recorde de todos os tempos, estabelecido há apenas dois meses em Junho de 2014, em 0,03°C (0,05°F).

Recorde máximo da temperatura de superfície do mar para o período de Junho a Agosto de 2014

A temperatura de superfície dos oceanos global para o período de Junho a Agosto foi 0,63°C (1,13°F) acima da média do século XX, o maior já registado para o período Junho-Agosto. Isto bate o recorde anterior estabelecido em 2009 em 0,04°C (0,07°F).

Comentários de John Davies:

Este foi o Agosto mais quente já registado, primeiramente devido a Temperaturas de Superfície do Mar muito elevadas no Hemisfério Norte.

Não há eventos El Niño neste período, mas algum tipo de evento – esperemos que um evento e não uma mudança de clima – esteja a ocorrer. Se este é um evento, a situação ficará mais normal quando terminar, que será em menos de um ano na pior das hipóteses. Se é uma mudança climática, estamos em apuros desesperantes, embora eu acho que é um evento.

É interessante notar que estas Temperaturas de Superfície do Mar muito elevadas são susceptíveis de conduzir a altas temperaturas terrestres em breve, já que normalmente pode-se esperar que as temperaturas terrestres no hemisfério norte ultrapassem as Temperaturas da Superfície do Mar.

A seca que afeta a Califórnia e todo o oeste da América do Norte, América Central, e grandes partes da floresta tropical brasileira, embora anterior a este evento foi quase certamente devida a mudanças que se iniciaram antes deste evento mas em última análise a causaram.

Apesar do recorde de alta temperatura média global combinada em ambas as superfícies terrestres e oceânicas para Agosto, a economia global continuará como normalmente e nenhuma ação específica se pode esperar que seja tomada para reduzir as emissões. Isso vai mudar, se as temperaturas globais continuarem a subir. As temperaturas são altas o suficiente para causar preocupação global, contudo. Mais em breve.
Nota: A previsão mais recente da NOAA [Administração Oceânica e Atmosférica Nacional; EUA] coloca a chance de El Niño a 60-65% durante o Outono e Inverno do Hemisfério Norte.

Temperaturas de Superfície do Mar 4 Out. e previsão de temperaturas para o Ártico (11 Out.) (Anomalias)
Pode-se esperar que as Temperaturas da Superfície do Mar (TSM) permaneçam altas no Oceano Ártico, já que as anomalias de TSM estão altas no Atlântico Norte (+ 1,65°C, a imagem à esquerda) e altas temperaturas estão previstas sobre o Ártico pelo menos nos próximos sete dias (anomalias tão altas quanto + 2,87°C, imagem à direita). Para uma comparação com as temperaturas de 3 de Outubro, veja este post anterior (em inglês no blog original).

Além disso, uma quantidade crescente de calor tem ido para as partes mais profundas do oceano, e a Corrente do Golfo vai, nos meses que virão, continuar a transportar água para Oceano Ártico, e esta água vai estar mais quente do que a água que já lá está, ameaçando desencadear cada vez maiores erupções de metano do fundo do mar do Oceano Ártico, como discutido neste post anterior (traduzido em Português).

Em conclusão, a situação é calamitosa e exige uma ação abrangente e eficaz, como discutido no blogue Climate Plan.
Referências

– NOAA National Climatic Data Center, State of the Climate: Global Analysis for August 2014.
http://www.ncdc.noaa.gov/sotc/global/2014/8

– EL NIÑO/SOUTHERN OSCILLATION (ENSO) DIAGNOSTIC DISCUSSION, issued by:
Climate Prediction Center/NCEP/NWS and the International Research Institute for Climate and Society, 4 September 2014
http://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso_advisory/ensodisc.pdf

– ClimateReanalyzer.org
http://climatereanalyzer.org

Traduzido do original que foi publicado por Sam Carana em Arctic-news.blogspot.pt.
http://arctic-news.blogspot.pt/2014/10/record-june-august-global-ocean-surface-temperature.html

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