Temperaturas anómalas na Sibéria em Junho 2016
Sam Carana

Temperaturas Altas no Ártico

Aquecimento dos Oceanos ou Calor Oceânico Global

Conteúdo de Calor Oceânico Global (Aquecimento Oceânico) – Média dos 3 meses de Janeiro a Março de 2016 – Média anual de 2015 – Média pentadal (5 anos) durante 2011-2015

O conteúdo de calor do oceano está a aumentar, como ilustrado pela imagem à direita. Onde o gelo do mar está a diminuir, está a causar elevadas temperaturas do ar no Ártico.

Este ano (de Janeiro a Abril de 2016) no Hemisfério Norte, os oceanos estiveram 0,85°C ou 1,53°F mais quentes do que a média do século 20.

A imagem abaixo mostra como as temperaturas parecem prestes a ser elevadas na Sibéria na próxima semana. O painel à direita mostra anomalias na extremidade superior da escala na Sibéria Oriental a 5 de Junho de 2016, enquanto que o painel da direita mostra uma previsão para 12 de Junho de 2016.

Temperaturas anómalas na Sibéria em Junho 2016

Estas temperaturas do ar elevadas estão a causar feedbacks que estão, por sua vez, a acelerar ainda mais o aquecimento no Ártico.

Rios Mais Quentes

Temperaturas tão elevadas quanto 28.9°C ou 83.9°F foram registadas ao longo do rio Mackenzie perto do Oceano Ártico, a 13 de Junho de 2016, no local marcado pelo círculo verde.

Temperaturas elevadas no Ártico, no rio McKenzie

Abaixo está uma imagem de satélite do delta do rio Mackenzie, a 11 de Junho de 2016.

Imagem satélite do rio Mckenzie e Oceano Ártico sem gelo

A imagem abaixo mostra que temperaturas tão elevadas quanto 36.6°C ou 97.8°F estavam previstas para 13 de junho de 2016 sobre o rio Yenisei na Sibéria, que termina no Oceano Ártico.

temperaturas elevadas na Sibéria nas áuas do rio Yenisei que desagua no Oceano Ártico

Incêndios Florestais

No início deste mês, as temperaturas na Sibéria Oriental estavam tão elevadas quanto 29,5°C (85°F). Isto foi a 5 de Junho de 2016, num local perto da costa no Oceano Ártico (círculo verde).

Sibéria com temperaturas elevadas na costa do Oceano Ártico

Temperaturas do ar elevadas trazem um aumento do risco de incêndios florestais, como ilustrado pela imagem abaixo que mostra níveis de monóxido de carbono tão elevados quanto 2944 ppb a 4 de Junho de 2016 (no círculo verde).

Fumo e níveis de monóxido de carbono sobre Kamchatka resultam dos incêndios causados pelo aquecimento global

A imagem de satélite abaixo faz um zoom sobre a área com estas leituras de monóxido de carbono, mostrando incêndios na Península de Kamchatka a 3 de Junho de 2016.

Imagem de satélite mostra fumo dos incêndios florestais sobre Kamchatka

Perda de Albedo

A imagem à direita mostra que, este ano, a cobertura de neve de Abril no Hemisfério Norte foi a mais baixa do registo. A linha de tendência adicionada aponta para uma total ausência de neve até ao ano de 2036.A mais baixa cobertura de neve de Abril do registo com uma tendência a mostrar Abril sem cobertura de neve em 2036

O professor Peter Wadhams, chefe do Grupo de Física do Oceano Polar da Universidade de Cambridge, diz : “A minha previsão é que o gelo do Ártico pode muito bem desaparecer, ou seja, ter uma área de menos de um milhão de quilómetros quadrados, em Setembro deste ano.”

O aquecimento devido à perda de gelo e neve do Ártico pode muito bem ultrapassar os 2 W por metro quadrado, ou seja, pode mais do que duplicar o aquecimento líquido causado agora por todas as emissões de todas as pessoas do mundo, Peter Wadhams calculou em 2012.

Metano no Leito Marinho

Peter Wadhams foi ainda co-autor num estudo que calculou que a libertação de metano do fundo do mar no Oceano Ártico poderia contribuir com 0,6°C de aquecimento do planeta em 5 anos (vejam o vídeo com a entrevista de Thom Hartmann a Peter Wadhams, em baixo).

Impacto Combinado de Múltiplos Feebacks

Em conclusão, as altas temperaturas do ar no Ártico são muito preocupantes, uma vez que podem desencadear uma série de feedbacks importantes, como aqueles discutidos acima e outros feedbacks, tais como:

  • Mudanças na Corrente de Jato (Jet Stream). À medida que o Ártico aquece mais rapidamente do que o resto da Terra, ocorrem mudanças na corrente de jato. Como resultado, os ventos podem trazer cada vez mais ar quente bem para norte, resultando na perda da cobertura de neve e gelo do Ártico, que por sua vez resulta em ainda mais aquecimento do Ártico.
  • Rios Mais Quentes. As temperaturas de ar elevadas causam o aquecimento da água dos rios que desembocam no Oceano Ártico, resultando assim em declínio adicional do gelo do mar e em aquecimento do Oceano Ártico desde a superfície até ao leito marinho.
  • Incêndios Florestais. Elevadas temperaturas atmosféricas definem o cenário para os incêndios que emitem não apenas gases de efeito estufa como o dióxido de carbono e metano, mas também poluentes como o monóxido de carbono que depleta as hidroxilas que caso contrário poderiam degradar o metano, e o carbono negro que, ao cair sobre o gelo faz com que ele absorva mais luz solar (veja abaixo de perda de albedo), além de ser um forçador de clima quando na atmosfera.
  • Desestabilização do Solo. Ondas de calor e secas desestabilizam o solo. Solo que era anteriormente conhecido como permafrost e estava até agora segurado pelo gelo. Há medida que o gelo derrete, material orgânico no solo entra em decomposição, resultando em emissões de metano e dióxido de carbono, enquanto o solo se torna cada vez mais vulnerável a incêndios.
  • Perda de Efeito Tampão. A cobertura de neve e gelo do Ártico funciona como um tampão, absorvendo o calor que, na ausência deste tampão terá que ser absorvido pelo Oceano Ártico, como discutido em posts anteriores, como este.
  • Perda de Albedo. A cobertura de gelo e neve no Ártico faz com que a luz solar seja refletida de volta para o espaço. Na ausência dessa cobertura, o Ártico terá que absorver mais calor.
  • Metano no Leito Marinho. Há medida que os sedimentos no fundo do mar do Oceano Ártico aquecem, os hidratos contidos nesses sedimentos podem ser desestabilizados e libertar enormes quantidades de metano.
Quão mais quente poderia ficar dentro de uma década?

Os dois feedbacks mencionados por Peter Wadham (albedo e metano do fundo do mar) são retratados na imagem abaixo.

Albedo e Metano do fundo do mar, dois Feedbacks de auto-reforço e influência no aquecimento do Ártico

Ciclo de auto-reforço (feedback) 1: Aquecimento Acelerado no Ártico => Perda de gelo marinho => Mudança no Albedo => Aquecimento Acelerado no Ártico. Ciclo de auto-reforço positivo 2: Aquecimento Acelerado no Ártico => Enfraquecimento das reservas de metano => libertação de metano => Aquecimento Acelerado no Ártico.

O aumento combinado da temperatura global durante a próxima década devido a estes dois feedbacks (albedo e metano do fundo do mar), por si só, pode ser de 0,4°C ou 0,72°F para um cenário de baixo crescimento e pode ser de 2,7°C ou 4,9°F para um cenário de elevado crescimento.

Além disso, à medida que a temperatura sobe, mais feedbacks irão contribuir mais fortemente, acelerando ainda mais o aumento da temperatura, como também discutido em posts anteriores, como este.

Quando também incluindo mais feedbacks, o aquecimento pode exceder 10°C (18°F) dentro de uma década, assumindo que nenhum geoengenharia terá lugar dentro de uma década, como discutido em posts anteriores, como este.

A situação é terrível e apela a uma acção abrangente e eficaz, conforme descrito no Plano Climático.

Traduzido do original High Temperatures In Arctic de Sam Carana, publicado no blogue Arctic News, a 5 de Junho de 2016.

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Pico nos niveis de metano a 25 fevereiro 2016
Sam Carana

Três Tipos de Aquecimento no Ártico

Sugerimos a leitura de “3 Tipos de Aquecimento no Ártico” no site Aquecimento Global: A Mais Recente Ciência Climática
 
O Ártico é propenso a sofrer de três tipos de aquecimento. Em primeiro lugar, o Ártico é atingido de forma particularmente forte pelas emissões, como discutido em posts anteriores como este e este.

Segundo, o aquecimento no Ártico está a acelerar devido aos feedbacks, como discutido na página sobre os feedbacks. Muitos desses feedbacks estão relacionados com a diminuição da cobertura de neve e gelo no Ártico, que por sua vez é agravada pelas emissões tais como fuligem.

Em terceiro lugar, o feedback mais perigoso é a libertação de metano a partir do fundo do mar do Oceano Ártico, devido aos hidratos serem desestabilizados à medida que o calor atinge os sedimentos.

Extensão de gelo no Ártico a 25 fevereiro 2016

No ano passado, o gelo do Ártico atingiu a sua extensão máxima a 25 de Fevereiro de 2015. Este ano, há muito menos gelo marinho no Ártico do que no ano passado. A diferença é de cerca de 300.000 km quadrados, mais do que o tamanho do Reino Unido.

Tipos de aquecimento no Ártico - feedbacks

O gelo do mar pode refletir até 90% da luz solar de volta ao espaço. Uma vez que o gelo derrete, contudo, a água do oceano reflete apenas 6% da radiação solar que entra e absorve o resto. Isto é representado na imagem acima como feedback # 1.

albedo

Como o professor Peter Wadhams, uma vez calculou, o aquecimento devido à perda de neve e de gelo do Ártico poderia mais que duplicar o aquecimento líquido causado agora por todas as emissões de todos os povos do mundo.

Peter Wadhams, mudança no Albedo e Aquecimento Global

O gelo do mar age como um atenuador que absorve o calor. Quando o gelo está a derreter, cada grama de gelo precisará de 334 Joules de calor para passar a água, enquanto a temperatura se mantém a 0° Celsius ou 32° Fahrenheit.

Uma vez que todo o gelo se transformou em água, todo o calor extra vai para o aquecimento da água. Para elevar a temperatura de um grama de água em um grau Celsius, então, serão necessários apenas 4,18 Joule de calor. Por outras palavras, a fusão do gelo absorve 8 vezes mais calor do que o necessário para aquecer a mesma massa de água de zero a 10°C. Isto é representado na imagem acima como feedback # 14.

O vídeo em cima, criado por Stuart Trupp, mostra como o calor adicionado ao início (A) vai principalmente aquecer a água que contém os cubos de gelo. A partir de cerca dos 38 segundos no filme, todo o calor começa a ir para a transformação dos cubos de gelo em água, enquanto que a temperatura da água não sobe (B). Mais de um minuto mais tarde, quando os cubos de gelo tiverem derretido (C), a temperatura da água começa a aumentar rapidamente outra vez.

O metano é um feedback adicional, descrito como feedback # 2 na imagem mais acima. Como a água do Oceano Ártico está a ficar cada vez mais quente, o perigo aumenta de que o calor irá chegar ao fundo do mar, onde pode desencadear a libertação de quantidades enormes de metano, num ciclo de feedback adicional que fará o aquecimento no Ártico acelerar e escalar num aquecimento descontrolado.

Os sedimentos debaixo do Oceano Ártico contém vastas quantidades de metano. Apenas uma parte do Oceano Ártico por si só, a Plataforma Continental da Sibéria (ESAS, veja o mapa abaixo), contém até 1.700 Gt de metano. A libertação repentina de menos de 3% dessa quantidade poderia adicionar 50 Gt de metano à atmosfera, e os especialistas têm alertado por muitos anos que eles consideram que uma tal quantidade está prestes a ser liberta a qualquer momento.

Niveis de metano atmosférico e em sedimentos

A figura acima dá-nos uma imagem simplificada da ameaça, mostrando que de uma carga total de metano na atmosfera de 5 Gt (entretanto é mais elevada), 3 Gt têm sido adicionadas desde a década de 1750, e esta adição é responsável por quase metade de todo o aquecimento global antropogénico. A quantidade de carbono armazenado em hidratos, globalmente, foi estimada em 1992 como sendo de 10.000 GT (USGS), enquanto que uma estimativa mais recente dá uma figura de 63.400 GT (Klauda & Sandler, 2005). Mais uma vez, a conclusão assustadora é que a Plataforma Continental da Sibéria (ESAS), sozinha, contém até 1700 Gt de metano sob a forma de hidratos de metano e gás livre contidos nos sedimentos, dos quais 50 Gt estão prestes a ser libertados abruptamente a qualquer momento.

Os sinais de aviso continuam a ficar mais fortes. Na sequência de uma leitura de um pico de metano de 3096 ppb [artigo em link em português] a 20 de Fevereiro de 2016, uma leitura de 3010 ppb foi registada na manhã de 25 de fevereiro de 2016, nos 586 mb (veja imagem abaixo).

Pico nos niveis de metano a 25 fevereiro 2016

Mais uma vez, este nível muito elevado foi provavelmente causado por metano proveniente do leito marinho do Oceano Ártico, numa localização na Cordilheira de Gakkel logo ao largo da Plataforma Continental Siberiana (ESAS – East Siberian Arctic Shelf), conforme discutido no post anterior. Esta conclusão é apoiada pelos níveis de metano em diferentes altitudes sobre a ESAS, como registado por ambos os satélites MetOp-1 e MetOp-2 no período da tarde, conforme ilustrado pela combinação de imagens abaixo mostrando os níveis de metano nos 469 mb.

Niveis de metano por satelite a 25 fevereiro 2016

A situação é calamitosa e apela a uma ação abrangente e eficaz, conforme descrito no Plano Climático.

Links:

Mecanismos de Reforço Positivo (Feedbacks) no Ártico

Mudanças no Albedo no Ártico

Chegou a hora de espalhar a mensagem

Os níveis de gases de efeito estufa e as temperaturas continuam a aumentar

Área de gelo marinho no Ártico em recorde mínimo para a época do ano

A Máxima Extensão do Gelo Marinho Já Foi Atingida Este Ano?

Plano Climático

Traduzido do original Three kinds of warming in the Arctic de Sam Carana, publicado no blogue Arctic News, a 26 de Fevereiro de 2016.

Outros blogues com publicações recentes sobre Alterações Climáticas em Português:

Como um Titanic o El Nino Começa a Esmorecer, Que Problemas Frescos Trará um Mundo Quente Recorde?

em https://aquecimentoglobalde…

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Paul Beckwith

Acordo de Paris Não Consegue Evitar Alterações Climáticas Devastadoras, Académicos Avisam

Acordo da COP21 não evita devastação da mudança climática
Um grave e contundente artigo do The Independent, no qual estou materialmente mencionado: COP21: Acordo de Paris é fraco demais para evitar a mudança climática devastadora, académicos advertem. Começa assim (aqui está uma parte; clique no link para o artigo completo. A nossa carta ao jornal, contudo, encontra-se na íntegra, mais abaixo na página):
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“Os festejos ocos de sucesso no final do Acordo de Paris provaram mais uma vez que as pessoas vão ouvir o que elas querem ouvir e ignorar o resto”.

O Acordo de Paris para travar o aquecimento global tem, na verdade, constituído um grande revés para a luta contra as alterações climáticas, académicos especialistas avisam.

O acordo pode ter sido apregoado por líderes mundiais mas é demasiado fraco para ajudar a impedir o dano devastador para a Terra, alegam.

Numa carta conjunta ao The Independent, alguns dos principais cientistas do clima do mundo lançaram um duro ataque ao acordo, alertando que oferece “falsa esperança”, que poderia, em última instância, provar ser contraproducente na batalha para travar o aquecimento global.

A carta, que carrega onze assinaturas incluindo os professores Peter Wadhams e Stephen Salter, das universidades de Cambridge e Edimburgo, adverte que o Acordo de Paris é perigosamente inadequado.

Por causa do fracasso de Paris, os académicos dizem que a única chance do mundo de se salvar do aquecimento global desenfreado é um impulso gigante em direção a tecnologias de geo-engenharia controversas e amplamente não testadas que procuram esfriar o planeta através da manipulação do sistema climático da Terra. …

“Os festejos ocos de sucesso no final do Acordo de Paris provaram mais uma vez que as pessoas vão ouvir o que eles querem ouvir e ignorar o resto . O que eles desconsideraram foram as falhas mortais que se encontravam logo abaixo do seu verniz de sucesso,” os académicos escreveram na carta, …assinada por … Professor Paul Beckwith, da Universidade de Ottawa, no Canadá.

“O que as pessoas queriam ouvir era que um acordo havia sido alcançado quanto às alterações climáticas que iria salvar o mundo enquanto deixando os estilos de vida e aspirações inalterados. A solução que propõe não é chegar a acordo sobre um mecanismo urgente que garanta cortes imediatos nas emissões, mas chutar a lata pela estrada abaixo.”

… Mas eles dizem que as ações acordadas são demasiado fracas para se chegar nem próximo desse alvo. Além disso, os compromissos que os países fizeram para cortarem nas suas emissões de carbono não são suficientemente vinculativos para garantir que sejam cumpridos, enquanto que o Acordo de Paris não vai forçá-los a se “ajustarem” tão frequentemente quanto for necessário.

Mais preocupante ainda, dizem eles, é a falta de ação dramática imediata que se acordou para combater o aquecimento global. O Acordo de Paris só entra em vigor em 2020 – ponto no qual enormes quantidades de CO2 adicional terão sido bombeadas para a atmosfera. Os signatários afirmam que isto torna quase impossível limitar o aquecimento global a 2C, muito menos 1.5C.

“O coração do Acordo de Paris estava no lugar certo, mas o conteúdo é pior do que inepto. Foi um verdadeiro triunfo para a diplomacia internacional e envia uma forte mensagem de que os céticos perderam o caso e que a ciência está correta quanto às alterações climáticas. O resto é pouco mais do que paródia e arrisca limitar-se ao fracasso “, disse o professor Kevin Anderson, da Universidade de Manchester, que não assinou a carta mas concorda com o seu argumento.

Peter Wadhams, professor de física do oceano na Universidade de Cambridge e um dos signatários da carta, disse que as perspectivas para conter o aquecimento global consequentes ao Acordo de Paris, são agora tão calamitosas que ele defende uma investida em geo-engenharia – o que não é algo que ele recomenda de ânimo leve. “Pesando com tudo o mais, não sou um grande fã de geo-engenharia, mas acho absolutamente necessário, dada a situação em que estamos. É um adesivo pestilento, como solução. Mas você precisa dela porque, olhando para o mundo, ninguém está a mudar instantaneamente o seu padrão de vida”, disse o professor Wadhams.

Bombear grandes quantidades de água pulverizada para as nuvens para torná-las maiores e mais brilhantes para que reflitam a luz solar de volta para a atmosfera – conhecida como Abrilhantamento da Nuvem Marinha – oferece a melhor perspectiva de geo-engenharia, disse ele.

Tecnologias de geo-engenharia – que também consideram colocar espelhos gigantes no espaço ou o branqueamento da superfície do oceano para desviar a radiação solar de volta para o espaço – são controversos por causa dos receios de que sejam tecnicamente exigentes, seriam extremamente caros, para além de que interferir com o sistema climático poderia ter consequências inesperadas prejudiciais para o planeta.

A carta

Os festejos ocos de sucesso no final do Acordo de Paris provaram mais uma vez que as pessoas vão ouvir o que eles querem ouvir e ignorar o resto. O que as pessoas queriam ouvir era que um acordo havia sido alcançado quanto às alterações climáticas que iria salvar o mundo, deixando os estilos de vida e aspirações inalterados.

O que eles desconsideraram foram as falhas mortais que se encontram mesmo por abaixo do seu verniz de sucesso. Logo na terceira página do projecto de acordo está o reconhecimento de que a sua meta de CO2 não vai manter o aumento da temperatura global abaixo dos 2 graus Celsius, o nível que já havia sido definido como o limite seguro crítico. A solução que se propõe não é chegar a acordo quanto a um mecanismo de urgência que garanta cortes imediatos nas emissões, mas chutar a lata pela estrada abaixo, ao comprometerem-se a calcular um novo orçamento de carbono para um aumento da temperatura de 1,5 graus, que poderá ser falado em 2020.

Dado que não podemos concordar quanto aos modelos climáticos ou o orçamento de CO2 para manter o aumento da temperatura a 2°C, então somos ingénuos ao pensar que vamos concordar quanto a uma meta muito mais difícil em cinco anos, quando, com toda a probabilidade, o aumento exponencialmente dos níveis atmosféricos de CO2 dizem-nos que vai ser tarde demais.

Mais preocupante, essas metas inadequadas exigem que a humanidade faça muito mais do que cortar nas emissões com um programa de tecnologia renovável glorioso que ultrapassará qualquer outro esforço humano do passado. Elas também requerem que o carbono seja sugado do ar. O método preferido é eliminar a indústria de combustíveis fósseis pela competição através do fornecimento de biomassa às centrais térmicas. Isso envolve um crescimento rápido das árvores e plantas, mais rápido do que a natureza alguma fez em solo que não temos, depois queimá-la em estações de energia que irão capturar e comprimir o CO2 usando uma infra-estrutura que não temos e com tecnologia que não irá funcionar na escala que precisamos e, finalmente, armazená-lo em lugares que não podemos encontrar. Para se manter a agenda com boas notícias, tudo isto foi omitido do acordo.

O rugido das tempestades globais devastadoras já afogou os falsos festejos de Paris e colocou brutalmente em foco a extensão da nossa incapacidade para lidar com a mudança climática. A triste verdade é que as coisas vão ficar muito piores. O excesso de calor do planeta está agora a derreter a capa de gelo do Ártico como uma faca quente na manteiga e está a fazê-lo a meio do Inverno. A menos que seja travado, este aquecimento do Ártico vai levar a uma rápida libertação dos hidratos de metano do fundo do mar do Ártico e anunciar a próxima fase de mudança climática catastrófica intensa à qual a nossa civilização não vai sobreviver.

O tempo para a opinião esperançosa e otimismo cego que tem caracterizado o debate sobre as alterações climáticas acabou. O tempo para factos duros e decisões é agora. As nossas costas estão contra a parede e agora temos que iniciar o processo de preparação para geo-engenharia. Temos que fazer isso no conhecimento de que as suas chances de sucesso são pequenas e os riscos de implementação são grandes.

Temos de olhar para o espectro completo de geoengenharia. Isto irá cobrir iniciativas que aumentem o sequestro de carbono por restauração de florestas tropicais até à fertilização dos oceanos. Irá estender-se a técnicas de gestão de radiação solar, como o branqueamento artificial de nuvens e, in extremis, replicar os aerossóis de atividade vulcânica. Vai ter que ter em conta para quais áreas nos focamos seletivamente, como as regiões do Ártico que emitem metano, e quais áreas devemos evitar.

Os elevados riscos políticos e ambientais associados a isto têm que ser esclarecidos para que nunca seja usado como alternativa a fazer-se os cortes de carbono que são urgentemente necessários. O reconhecimento destes riscos deve ser usado ​​para desafiar a narrativa de opinião esperançosa que infestou as conversações sobre as alterações climáticas ao longo dos últimos vinte e um anos, e que atingiu o seu apogeu com o acordo COP21. No vácuo internacional presente quanto a esta questão, é imperativo que o nosso governo toma uma iniciativa.

Assinado por

Professor Paul Beckwith, Universidade de Ottawa
Professor Stephen Salter – Universidade de Edimburgo
Professor Peter Wadhams – Universidade de Cambridge
Professor James Kennett, da Universidade da Califórnia.
Dr Hugh Hunt – Universidade de Cambridge
Dr. Alan Gadian – Cientista Sénior, Centro da Nação para as Ciências Atmosféricas da Universidade de Leeds
Dr. Mayer Hillman – Membro Sénior Emérito do Instituto de Estudos Políticos
Dr. John Latham – Universidade de Manchester
Aubrey Meyer – Diretor, Global Commons Institute.
John Nissen – Presidente do Grupo de Emergência para o Metano no Ártico
Kevin Lister – Autor de “O Vortex da Violência e por que estamos a perder a guerra contra as alterações climáticas

Traduzido do original COP21 Deal Cannot Prevent Devastating Climate Change, Academics warn, publicado por Paul Beckwith em http://paulbeckwith.net/.

Outros blogues com publicações recentes sobre Alterações Climáticas em Português:

Como a Mudança Climática Pode Conectar a Humanidade

em http://focoempatico.net

Gelo do Mar do Ártico no Recorde Mais Baixo para Janeiro

em https://alteracoesclimaticas…


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