Paul Beckwith

Acordo de Paris Não Consegue Evitar Alterações Climáticas Devastadoras, Académicos Avisam

Acordo da COP21 não evita devastação da mudança climática
Um grave e contundente artigo do The Independent, no qual estou materialmente mencionado: COP21: Acordo de Paris é fraco demais para evitar a mudança climática devastadora, académicos advertem. Começa assim (aqui está uma parte; clique no link para o artigo completo. A nossa carta ao jornal, contudo, encontra-se na íntegra, mais abaixo na página):
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“Os festejos ocos de sucesso no final do Acordo de Paris provaram mais uma vez que as pessoas vão ouvir o que elas querem ouvir e ignorar o resto”.

O Acordo de Paris para travar o aquecimento global tem, na verdade, constituído um grande revés para a luta contra as alterações climáticas, académicos especialistas avisam.

O acordo pode ter sido apregoado por líderes mundiais mas é demasiado fraco para ajudar a impedir o dano devastador para a Terra, alegam.

Numa carta conjunta ao The Independent, alguns dos principais cientistas do clima do mundo lançaram um duro ataque ao acordo, alertando que oferece “falsa esperança”, que poderia, em última instância, provar ser contraproducente na batalha para travar o aquecimento global.

A carta, que carrega onze assinaturas incluindo os professores Peter Wadhams e Stephen Salter, das universidades de Cambridge e Edimburgo, adverte que o Acordo de Paris é perigosamente inadequado.

Por causa do fracasso de Paris, os académicos dizem que a única chance do mundo de se salvar do aquecimento global desenfreado é um impulso gigante em direção a tecnologias de geo-engenharia controversas e amplamente não testadas que procuram esfriar o planeta através da manipulação do sistema climático da Terra. …

“Os festejos ocos de sucesso no final do Acordo de Paris provaram mais uma vez que as pessoas vão ouvir o que eles querem ouvir e ignorar o resto . O que eles desconsideraram foram as falhas mortais que se encontravam logo abaixo do seu verniz de sucesso,” os académicos escreveram na carta, …assinada por … Professor Paul Beckwith, da Universidade de Ottawa, no Canadá.

“O que as pessoas queriam ouvir era que um acordo havia sido alcançado quanto às alterações climáticas que iria salvar o mundo enquanto deixando os estilos de vida e aspirações inalterados. A solução que propõe não é chegar a acordo sobre um mecanismo urgente que garanta cortes imediatos nas emissões, mas chutar a lata pela estrada abaixo.”

… Mas eles dizem que as ações acordadas são demasiado fracas para se chegar nem próximo desse alvo. Além disso, os compromissos que os países fizeram para cortarem nas suas emissões de carbono não são suficientemente vinculativos para garantir que sejam cumpridos, enquanto que o Acordo de Paris não vai forçá-los a se “ajustarem” tão frequentemente quanto for necessário.

Mais preocupante ainda, dizem eles, é a falta de ação dramática imediata que se acordou para combater o aquecimento global. O Acordo de Paris só entra em vigor em 2020 – ponto no qual enormes quantidades de CO2 adicional terão sido bombeadas para a atmosfera. Os signatários afirmam que isto torna quase impossível limitar o aquecimento global a 2C, muito menos 1.5C.

“O coração do Acordo de Paris estava no lugar certo, mas o conteúdo é pior do que inepto. Foi um verdadeiro triunfo para a diplomacia internacional e envia uma forte mensagem de que os céticos perderam o caso e que a ciência está correta quanto às alterações climáticas. O resto é pouco mais do que paródia e arrisca limitar-se ao fracasso “, disse o professor Kevin Anderson, da Universidade de Manchester, que não assinou a carta mas concorda com o seu argumento.

Peter Wadhams, professor de física do oceano na Universidade de Cambridge e um dos signatários da carta, disse que as perspectivas para conter o aquecimento global consequentes ao Acordo de Paris, são agora tão calamitosas que ele defende uma investida em geo-engenharia – o que não é algo que ele recomenda de ânimo leve. “Pesando com tudo o mais, não sou um grande fã de geo-engenharia, mas acho absolutamente necessário, dada a situação em que estamos. É um adesivo pestilento, como solução. Mas você precisa dela porque, olhando para o mundo, ninguém está a mudar instantaneamente o seu padrão de vida”, disse o professor Wadhams.

Bombear grandes quantidades de água pulverizada para as nuvens para torná-las maiores e mais brilhantes para que reflitam a luz solar de volta para a atmosfera – conhecida como Abrilhantamento da Nuvem Marinha – oferece a melhor perspectiva de geo-engenharia, disse ele.

Tecnologias de geo-engenharia – que também consideram colocar espelhos gigantes no espaço ou o branqueamento da superfície do oceano para desviar a radiação solar de volta para o espaço – são controversos por causa dos receios de que sejam tecnicamente exigentes, seriam extremamente caros, para além de que interferir com o sistema climático poderia ter consequências inesperadas prejudiciais para o planeta.

A carta

Os festejos ocos de sucesso no final do Acordo de Paris provaram mais uma vez que as pessoas vão ouvir o que eles querem ouvir e ignorar o resto. O que as pessoas queriam ouvir era que um acordo havia sido alcançado quanto às alterações climáticas que iria salvar o mundo, deixando os estilos de vida e aspirações inalterados.

O que eles desconsideraram foram as falhas mortais que se encontram mesmo por abaixo do seu verniz de sucesso. Logo na terceira página do projecto de acordo está o reconhecimento de que a sua meta de CO2 não vai manter o aumento da temperatura global abaixo dos 2 graus Celsius, o nível que já havia sido definido como o limite seguro crítico. A solução que se propõe não é chegar a acordo quanto a um mecanismo de urgência que garanta cortes imediatos nas emissões, mas chutar a lata pela estrada abaixo, ao comprometerem-se a calcular um novo orçamento de carbono para um aumento da temperatura de 1,5 graus, que poderá ser falado em 2020.

Dado que não podemos concordar quanto aos modelos climáticos ou o orçamento de CO2 para manter o aumento da temperatura a 2°C, então somos ingénuos ao pensar que vamos concordar quanto a uma meta muito mais difícil em cinco anos, quando, com toda a probabilidade, o aumento exponencialmente dos níveis atmosféricos de CO2 dizem-nos que vai ser tarde demais.

Mais preocupante, essas metas inadequadas exigem que a humanidade faça muito mais do que cortar nas emissões com um programa de tecnologia renovável glorioso que ultrapassará qualquer outro esforço humano do passado. Elas também requerem que o carbono seja sugado do ar. O método preferido é eliminar a indústria de combustíveis fósseis pela competição através do fornecimento de biomassa às centrais térmicas. Isso envolve um crescimento rápido das árvores e plantas, mais rápido do que a natureza alguma fez em solo que não temos, depois queimá-la em estações de energia que irão capturar e comprimir o CO2 usando uma infra-estrutura que não temos e com tecnologia que não irá funcionar na escala que precisamos e, finalmente, armazená-lo em lugares que não podemos encontrar. Para se manter a agenda com boas notícias, tudo isto foi omitido do acordo.

O rugido das tempestades globais devastadoras já afogou os falsos festejos de Paris e colocou brutalmente em foco a extensão da nossa incapacidade para lidar com a mudança climática. A triste verdade é que as coisas vão ficar muito piores. O excesso de calor do planeta está agora a derreter a capa de gelo do Ártico como uma faca quente na manteiga e está a fazê-lo a meio do Inverno. A menos que seja travado, este aquecimento do Ártico vai levar a uma rápida libertação dos hidratos de metano do fundo do mar do Ártico e anunciar a próxima fase de mudança climática catastrófica intensa à qual a nossa civilização não vai sobreviver.

O tempo para a opinião esperançosa e otimismo cego que tem caracterizado o debate sobre as alterações climáticas acabou. O tempo para factos duros e decisões é agora. As nossas costas estão contra a parede e agora temos que iniciar o processo de preparação para geo-engenharia. Temos que fazer isso no conhecimento de que as suas chances de sucesso são pequenas e os riscos de implementação são grandes.

Temos de olhar para o espectro completo de geoengenharia. Isto irá cobrir iniciativas que aumentem o sequestro de carbono por restauração de florestas tropicais até à fertilização dos oceanos. Irá estender-se a técnicas de gestão de radiação solar, como o branqueamento artificial de nuvens e, in extremis, replicar os aerossóis de atividade vulcânica. Vai ter que ter em conta para quais áreas nos focamos seletivamente, como as regiões do Ártico que emitem metano, e quais áreas devemos evitar.

Os elevados riscos políticos e ambientais associados a isto têm que ser esclarecidos para que nunca seja usado como alternativa a fazer-se os cortes de carbono que são urgentemente necessários. O reconhecimento destes riscos deve ser usado ​​para desafiar a narrativa de opinião esperançosa que infestou as conversações sobre as alterações climáticas ao longo dos últimos vinte e um anos, e que atingiu o seu apogeu com o acordo COP21. No vácuo internacional presente quanto a esta questão, é imperativo que o nosso governo toma uma iniciativa.

Assinado por

Professor Paul Beckwith, Universidade de Ottawa
Professor Stephen Salter – Universidade de Edimburgo
Professor Peter Wadhams – Universidade de Cambridge
Professor James Kennett, da Universidade da Califórnia.
Dr Hugh Hunt – Universidade de Cambridge
Dr. Alan Gadian – Cientista Sénior, Centro da Nação para as Ciências Atmosféricas da Universidade de Leeds
Dr. Mayer Hillman – Membro Sénior Emérito do Instituto de Estudos Políticos
Dr. John Latham – Universidade de Manchester
Aubrey Meyer – Diretor, Global Commons Institute.
John Nissen – Presidente do Grupo de Emergência para o Metano no Ártico
Kevin Lister – Autor de “O Vortex da Violência e por que estamos a perder a guerra contra as alterações climáticas

Traduzido do original COP21 Deal Cannot Prevent Devastating Climate Change, Academics warn, publicado por Paul Beckwith em http://paulbeckwith.net/.

Outros blogues com publicações recentes sobre Alterações Climáticas em Português:

Como a Mudança Climática Pode Conectar a Humanidade

em http://focoempatico.net

Gelo do Mar do Ártico no Recorde Mais Baixo para Janeiro

em https://alteracoesclimaticas…


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Mudança Climática em aceleração, Anomalias de temperatura
Sam Carana

Mudança Climática em Aceleração

Sugerimos a leitura de “Mudança Climática em Aceleração” no site Aquecimento Global: A Mais Recente Ciência Climática
 
Níveis de metano tão elevados quanto 2562 ppb foram registados a 9 de Outubro de 2014, como ilustrado pela imagem abaixo.

Níveis de Metano a 9 de Outubro 2014
Muitas áreas cinzentas aparecem na imagem onde o QC (controle de qualidade) falhou, por ter sido muito difícil ler os níveis de metano na respectiva área, aparentemente devido a níveis de humidade elevados (ou seja, neve, chuva ou vapor de água) na atmosfera.

Clima sobre o Ártico dificulta leituras de metano.
Como a imagem acima ilustra, a cobertura de nuvens é elevada sobre o Ártico, ao mesmo tempo que há precipitação em forma de neve.

Anomalias da temperatura do mar de superfície tão elevadas quanto + 1,89°C atingiram o Atlântico Norte (a 8 de Outubro de 2014.

Anomalias da temperatura do mar de superfície tão elevadas quanto + 1,89°C atingiram o Atlântico Norte (a 8 de Outubro de 2014.

Noutras palavras, níveis elevados de metano (acima de 1.950 ppb, de cor amarela) podiam estar presentes sobre uma parte muito maior do Oceano Ártico, enquanto o metano nessas áreas cinzentas podia ter sido ainda maior do que o nível de pico medido de 2456 ppb.

Isto parece confirmar-se pela persistência de níveis elevados de metano sobre vastas áreas em todo o Oceano Ártico, tanto na parte da manhã (parte superior da imagem mais acima) e à tarde (parte inferior da imagem) a 9 de Outubro de 2014.

Os níveis de metano estão assim elevados sobre o Oceano Ártico por um número de razões, incluindo:

  • A Corrente do Golfo continua a empurrar água quente para Oceano Ártico.
  • As erupções de metano resultantes vindas do fundo do mar no Oceano Ártico constituem um feedback (mecanismo de retroacção) que acelera o aquecimento no Ártico.
  • À medida que o Ártico aquece mais rapidamente do que o resto da Terra, as coberturas de gelo e neve do Ártico vão diminuir, acelerando ainda mais o aquecimento no Ártico.
  • À medida que o Ártico aquece mais rapidamente do que o resto da Terra, a velocidade com que as correntes de jato circundam o Hemisfério Norte vai enfraquecer, tornando-o mais meandro [fazendo-o serpentear], resultando numa maior frequência e intensidade de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas e incêndios florestais.

Aqui está um exemplo de aquecimento intenso. Olhe o que está a acontecer atualmente na Gronelândia.

As anomalias de temperatura alta sobre a Groenlândia e partes do Oceano Ártico a 11 de Outubro de 2014. Note-se que as anomalias são a média ao longo do dia (e da noite).

Como a imagem acima à direita mostra, anomalias da temperatura do mar de superfície tão elevadas quanto + 1,89°C atingiram o Atlântico Norte (a 8 de Outubro de 2014).

Além disso, a cobertura elevada de nuvens sobre o Ártico (imagem mais acima) torna-o difícil para o calor irradiar para o espaço, contribuindo ainda mais para as anomalias de alta temperatura.

A imagem à direita mostra as anomalias de temperatura alta sobre a Gronelândia e partes do Oceano Ártico a 11 de Outubro de 2014. Note-se que as anomalias são a média ao longo do dia (e da noite).

A imagem abaixo (à direita) mostra anomalias correspondentes à extremidade superior da escala atingindo grande parte da Gronelândia num momento específico durante o dia de hoje. A parte esquerda da imagem abaixo mostra como isso pode acontecer, ou seja, correntes de jato enrolando em torno da Gronelândia que apanham o fluxo de entrada de ar quente vindo do Atlântico Norte.

Temperaturas muito altas na gronelândia, Outubro 2014
Tal como dito, à medida que o Ártico aquece mais rapidamente do que o resto da Terra, a velocidade com que as correntes de jato circunavegam o Hemisfério Norte vai enfraquecer, fazendo com que os jatos meandrem mais e criem padrões que podem reter o calor (ou frio), durante um número de dias sobre uma determinada área. Devido à altura das suas montanhas, a Gronelândia é particularmente propensa a ser cada vez mais atingida por ondas de calor resultantes de tais padrões de bloqueio. O aquecimento altera a textura da neve e do gelo, tornando-o mais lamacento e escuro, o que também faz com que absorva mais calor da luz solar, acelerando ainda mais o degelo.

Como Paul Beckwith adverte num post anterior, as taxas de derretimento na Gronelândia duplicaram nos últimos 4 a 5 anos, e as taxas de degelo sobre a Península Antárctica aumentaram ainda mais rápido. Com base nas últimas décadas, as taxas de derretimento tiveram um período de duplicação de cerca de 7 anos. Se esta tendência continuar, podemos esperar um aumento do nível do mar próximo de 7 metros por volta de 2070.

Aumento da média global do nível do mar, prevista em 2,5 metros até 2040. Dados da NASA / GSFC com referência a 7/7/2014 e curva exponencial polinomial adicionada por Sam Carana para o Arctic-news.blogspot.com

Aumento da média global do nível do mar, prevista em 2,5 metros até 2040. Dados da NASA / GSFC com referência a 7/7/2014 e curva exponencial polinomial adicionada por Sam Carana para o Arctic-news.blogspot.com Imagem tirada de http://arctic-news.blogspot.com/2014/07/more-than-25m-sea-level-rise-by-2040.html

Isto são tudo indicações de que o ritmo da mudança climática está a acelerar em muitos aspectos, o mais perigoso sendo as cada vez maiores erupções de metano do fundo do mar do Oceano Ártico. Como a imagem abaixo mostra, as anomalias da temperatura do mar de superfície são muito elevadas no Oceano Ártico, indicando temperaturas muito elevadas sob a superfície.

Variação da Temperatura do Mar em +4 a +8 graus C no Ártico

Variação da Temperatura do Mar em +4 a +8 graus C no Ártico

O Secretário de Estado dos EUA John Kerry disse recentemente: “Há agora – agora mesmo – défices alimentares graves que ocorrem em lugares como a América Central porque as regiões estão a lutar contra as piores secas em décadas, não são eventos [de periodicidade] de 100 anos em termos de inundações, em termos de incêndios, em termos de seca -.são eventos de 500 anos, algo inédito na nossa medição do tempo.” Avisando sobre catástrofe iminente, Kerry acrescenta: “A vida como você a conhece na Terra termina. Um aumento em sete graus Fahrenheit (3,9°C), e não podemos sustentar as culturas, a água, a vida nessas circunstâncias.”

A situação é grave e exige uma ação abrangente e eficaz, como discutido no blogue Climate Plan.

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Paul Beckwith

Onde Estamos – Um Resumo do Sistema Climático, por Paul Beckwith

Sugerimos a leitura de “Onde Estamos – Um Resumo do Sistema Climático, por Paul Beckwith” no site Aquecimento Global: A Mais Recente Ciência Climática
 

Ar

A presença de GEE (gases de efeito estufa) na atmosfera é vital para sustentar a vida no nosso planeta. Estes gases de efeito estufa prendem o calor e mantêm a temperatura média de superfície global do planeta em cerca de 15°C, em comparação com uns gélidos -18°C, o que seria a nossa temperatura sem os gases de efeito estufa.

Nós alterámos a composição química da atmosfera, especificamente das concentrações dos gases de efeito estufa. As concentrações de dióxido de carbono aumentaram cerca de 40% desde o início da revolução industrial (de uma variação curta entre 180 e 280 ppm durante pelo menos os últimos milhão de anos) para 400 ppm. As concentrações de metano aumentaram em mais de 2,5 vezes desde o início da revolução industrial (de uma variação curta de 350-700 ppb) para mais de 1.800 ppb. O calor adicional detido tem aquecido o nosso planeta em mais de 0,8°C ao longo do século passado, com a maior parte desse aquecimento (0,6°C) a ocorrer nas últimas 3 a 4 décadas.

Oceanos

Mais de 90% do calor detido na superfície do planeta está a aumentar a temperatura da água no oceano. O aumento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera acidificam a precipitação, e aumentaram a acidez dos oceanos em cerca de 40% nas últimas 3 a 4 décadas (o PH do oceano aberto caiu de 8,2 para 8,05 na escala logarítmica). Uma queda acentuada para um PH de 7,8 impedirá que conchas com base em cálcio se formem e ameaçará toda a cadeia alimentar do oceano. Mudanças nas correntes oceânicas e os perfis verticais de temperatura estão a levar a uma maior estratificação e menos revolvimento, o que é necessário para o transporte de nutrientes para a superfície para que o fitoplâncton prospere.

Os níveis do mar globais estão atualmente a aumentar a uma taxa de 3,4 mm por ano, em comparação com uma taxa de cerca de 2 mm por ano algumas décadas atrás. As taxas de derretimento na Gronenlândia duplicaram nos últimos 4 a 5 anos, e as taxas de derretimento na Península Antárctica aumentaram ainda mais rápido. Com base nas últimas décadas, as taxas de derretimento tiveram um período de duplicação de cerca de 7 anos. Se esta tendência continuar, podemos esperar um aumento do nível do mar próximo de 7 metros em 2070.

Aumento da média global do nível do mar, prevista em 2,5 metros até 2040. Dados da NASA / GSFC com referência a 7/7/2014 e curva exponencial polinomial adicionada por Sam Carana para o Arctic-news.blogspot.com

Aumento da média global do nível do mar, prevista em 2,5 metros até 2040. Dados da NASA / GSFC com referência a 7/7/2014 e curva exponencial polinomial adicionada por Sam Carana para o Arctic-news.blogspot.com

Terra

As temperaturas médias globais mais elevadas aumentaram a quantidade de vapor de água na atmosfera em cerca de 4% ao longo das últimas décadas, e cerca de 6% desde o início da revolução industrial. Mudanças na distribuição de calor em latitude, resultantes do aquecimento desigual em latitude, desaceleraram as correntes de jato o que causou que se tornassem mais onduladas e fraturadas, e alteraram as estatísticas do tempo. Agora temos eventos climáticos extremos com maior frequência, intensidade e tempo de duração e também uma mudança nos locais onde ocorrem esses eventos.

Ciclos de Feedback

A sensibilidade do sistema climático ao aumento dos níveis de gases de efeito estufa parece ser muito maior do que o anteriormente esperado, devido a muitos feedbacks [mecanismos de retroacção] de reforço poderosos.

O Albedo é o efeito de reflexão da luz solar. Com o derretimento do gelo e da neve, diminui o efeito de Albedo e a quantidade de superfície escura e absorvente de calor é maior. 90% da radiação solar é reflectida pela superfície da água quando coberta de gelo e neve, mas apenas 6% é reflectido após o gelo derreter e a água encontrar-se a descoberto.

O Albedo é o efeito de reflexão da luz solar. Com o derretimento do gelo e da neve, diminui o efeito de Albedo e a quantidade de superfície escura e absorvente de calor é maior. 90% da radiação solar é reflectida pela superfície da água quando coberta de gelo e neve, mas apenas 6% é reflectido após o gelo derreter e a água encontrar-se a descoberto.

A amplificação da temperatura do Ártico pelo declínio exponencial do gelo do mar e da cobertura de neve primaveril são os feedbacks mais fortes no nosso sistema climático hoje. O albedo (refletividade) médio da região do Ártico diminuiu de 52% para um valor atual de 48% ao longo de 3 ou 4 décadas. O aumento da absorção de energia no Ártico tem aumentado a temperatura nas latitudes altas em taxas de até 6 a 8 vezes a da mudança da temperatura média global. A diferença de temperatura reduzida entre o Ártico e o Equador reduziu a velocidade na direcção oeste-leste das correntes de jato, tornando-as mais lentas, onduladas e fraturadas, e causando diretamente uma grande mudança nas estatísticas das nossas condições meteorológicas globais.

As emissões de gás metano têm vindo a aumentar rapidamente na região do Ártico a partir do permafrost terrestre e dos sedimentos marinhos da plataforma continental, principalmente na ESAS (Eastern Siberian Arctic Shelf) [Placa Continental do Ártico a Este da Sibéria]. A capacidade extremamente potente do metano para aquecer o planeta (o potencial de aquecimento global, GWP, é de 150, 86, e 34 vezes maior para o metano em relação ao dióxido de carbono numa escala de alguns anos, várias décadas, e um século, respectivamente) torna o aumento das emissões um risco extremamente perigoso para o nosso bem-estar no planeta.

A Minha Avaliação Geral

O nosso sistema climático está atualmente a passar por estágios preliminares de uma mudança climática abrupta. Se permitido continuar, o sistema climático do planeta é bem capaz de passar por um aumento da temperatura média global de 5°C a 6°C numa década ou duas. Precedência de mudanças numa taxa tão elevada podem ser encontradas inúmeras vezes nos paleo-registos. Da minha cadeira, concluo que é vital que cortemos as emissões de gases de efeito estufa e passemos por um programa intensivo de engenharia climática [ geoengenharia ] para resfriar a região do Ártico e manter o metano no seu lugar na permafrost e nos sedimentos oceânicos.

Paul Beckwith

Paul Beckwith

Artigo original em Arctic-news.blogspot.com por…
Paul Beckwith é professor a tempo parcial com o laboratório de paleoclimatologia e climatologia, Departamento de Geografia, Universidade de Ottawa. Paul ensina climatologia / meteorologia e faz pesquisa de doutorado em “Mudança Climática Abrupta no Passado e Presente”. Paul possui um Mestrado em física de laser e um Bacharel. em física de engenharia e alcançou o ranking de mestre de xadrez numa vida anterior. 

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Metano, Paleoclima, Temperatura

O Gelo no Mar do Ártico Vai Desaparecer Em 2018. E Depois?

Paul Beckwith, climatologista e professor a tempo parcial na Universidade de Ottawa, Físico (Master de Ciência em Laser Optics, Bacharelato em Física de Engenharias), interessado em energias renováveis e xadrez – tal como descrito no seu Twitter, dá uma entrevista a Reese Jones onde faz um resumo da situação no Ártico, onde o aquecimento global se manifesta com aumentos de temperatura bem mais acentuados que na temperatura média global, e das consequências a curto prazo para a humanidade. Aqui está a transcrição do audio traduzida para Português:

 “A grande emissão de metano na região do Ártico por causa deste aquecimento é a maior preocupação. Se considerarmos no modelo da Marinha dos Estados Unidos, quando é que o gelo do mar Ártico desaparecerá, em que estação de derretimento irá ocorrer, o modelo da Marinha dos EUA diz que aproximadamente em 2018. Se você olhar para o modelo do gelo do mar ao longo do tempo, é uma espécie de curva exponencial, a qual é zero á volta de 2018. Talvez o gelo marinho não estará lá e o oceano Ártico estará completamente aberto durante uma ou duas semanas em meados de Setembro. Há uma grande variabilidade de ano para ano, mas pode-se fazer uma previsão de que dentro de um ano ou dois ou três após esse primeiro desaparecimento, o gelo poderia desaparecer durante 2 ou 3 meses no verão, e no espaço de 5 ou 6 anos poderia desaparecer durante seis meses do ano, e podia-se conceber vê-lo desaparecer completamente dentro de uma década ou duas. E então estaremos num sistema climático completamente diferente e os níveis de metano têm aumentado tanto da permafrost terrestre como dos sedimentos marinhos, especialmente no leito do Ártico Siberiano Oriental. Se isto continua a acontecer, e temos visto sinais como essas crateras misteriosas em partes da Sibéria, por isso, se este tipo de coisas continua então a quantidade de metano que sobe pode muito rapidamente eclipsar as emissões humanas. Essa é a maior preocupação. E então estamos a falar de uma situação de mudanças climáticas bruscas, onde … quero dizer, nos registos paleolíticos a temperatura média global, pelo menos a temperatura registada na Gronelândia, aumentou algures entre 5 ou 6 graus numa década ou duas. Existem alguns casos (…) de oscilações nesses paleo-registos onde a temperatura na Gronelândia aumentou 16 graus em uma década ou duas. Podemos observar os registos de sedimentos do Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno (MTPE). Pelo menos um artigo sugere que a temperatura aumentou 5 graus celsius em 13 anos, por ser um registo muito claro de camadas, mas é claro que tem de ser confirmado por outros artigos. Há também evidências, algumas conchas do oceano, por exemplo da Nova Zelândia onde existem grandes crateras no fundo do oceano que parecem ser devidas a uma grande libertação de metano num período muito curto de tempo. À medida que o oceano aquece, se derrete por entre os sedimentos, pode aumentar as emissões. Estamos de facto a observar isso no Ártico na Plataforma da Sibéria Oriental. Então, isso é uma grande preocupação, porque isso é basicamente todo o sistema a mudar muito rapidamente. Então a questão de como é que respondemos a isso, como vamos continuar a produzir alimentos para alimentar toda a gente, como é que vamos proteger a nossa infraestrutura, está a ver, porque mesmo com a mudança de temperatura que tivemos e as mudanças no Ártico que tivemos, estamos a ver que a estatística do sistema climático está diferente; estamos a ver todos esses eventos climáticos extremos… Então imagine esses eventos a aumentarem em frequência, intensidade, talvez duração, localização, por um factor de 10 ou 20 vezes quando o gelo marinho tiver desaparecido, e pode-se ter uma ideia de podemos estar a chegar.”

Após esta actualização na ciência do clima focada no aspecto mais aterrorizante e determinante do quadro global e futuro da humanidade, fica aqui a sugestão para outro artigo igualmente relevante:

Será que a Humanidade Está a ‘Dar a Volta’ ao Aquecimento Global?

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