Recuo glacial da Antártica Ocidental
The Guardian

Mundo a caminho dos 3ºC de aquecimento sob as atuais promessas climáticas globais, adverte a ONU

Os compromissos climáticos atuais são insuficientes para reduzir as emissões pelos montantes necessários para evitar níveis perigosos de aquecimento global, diz o relatório da Unep

Recuo glacial da Antártica Ocidental

Recuo glacial da Antártica Ocidental Fotografia: Mario Tama/Getty Images

Os compromissos assumidos pelos governos sobre as alterações climáticas vão levar a níveis perigosos de aquecimento global porque são desproporcionais com o crescimento das emissões de gases de efeito estufa, de acordo com um novo relatório.

O Programa Ambiental das Nações Unidas (Unep – United Nations Environment Programme) disse que as promessas apresentadas para reduzir as emissões veriam as temperaturas subirem 3ºC acima dos níveis pré-industriais, muito acima dos 2ºC do acordo climático de Paris, que entra em vigor na sexta-feira.

Pelo menos um quarto das emissões devem ser cortadas até ao final da próxima década, face às tendências atuais, disse a ONU.

O relatório constatou que as emissões em 2030 eram susceptíveis de atingir cerca de 54 a 56 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente por ano, um grande desvio das 42 gigatoneladas por ano prováveis de representarem o nível em que o aquecimento supera os 2ºC.

Erik Solheim, chefe do Unep, disse que o mundo estava “a mover-se na direção certa” na redução das emissões de gases de efeito estufa e no combate às alterações climáticas, mas que devem ser tomadas medidas urgentemente para se evitar a necessidade de reduções de emissões muito mais drásticas no futuro. “Se não começarmos a tomar medidas adicionais agora, vamos lamentar-nos acerca da tragédia humana evitável.”

Ele advertiu, em particular, que as pessoas iriam começar a ser deslocados das suas casas pelos efeitos das alterações climáticas, sofrendo com secas, fome, doenças e conflitos oriundos destas aflições. A migração em massa resultante da mudança climática é difícil de separar de outras causas de migração, mas está previsto tornar-se um problema muito maior.

Este ano está garantido para ser o mais quente jamais registado, segundo a Nasa, eclipsando o calor recorde do ano passado, e poderá mostrar o caminho para futuros aumentos de temperatura e os seus problemas acompanhantes.

Sob o acordo de Paris, alcançado em dezembro passado, todos os governos em funcionamento do mundo acordaram em reduzir os gases de efeito estufa em linha com a necessidade de manter o aquecimento a não mais do que 2ºC, o que os cientistas consideram o limite de segurança. Esse acordo foi ratificado pelos EUA, a China e a União Europeia, e vários outros governos.

No entanto, apesar de todos os governos envolvidos no acordo de Paris terem acordado as suas próprias metas nacionais para conter os gases de efeito estufa, estas não são juridicamente vinculativas. Além disso, poucos países estabeleceram planos concretos acerca de como irão implementar as contenções.

Na próxima semana, os signatários do acordo de Paris irão reunir-se em Marraquexe para cimentarem alguns aspectos do pacto alcançado no ano passado. Os defensores esperam que alguns países possam chegar a planos mais concretos de como pretendem alcançar as reduções de emissões futuras necessárias, e que os países que ainda não ratificaram o acordo sejam persuadidos a fazê-lo.

Não é esperado que nenhum país anuncie novas metas para emissões concordantes com as reduções que o relatório da Unep sugere que são necessárias. As nações têm atualmente metas domésticas para contenção ou redução das emissões até 2020, estabelecidas em 2009 na reunião da ONU em Copenhaga, bem como os seus compromissos de Paris, aplicáveis entre 2025 e 2030.

Asad Rehman, ativista internacional do clima da Friends of the Earth, disse: “Esta é uma advertência severa que não pode ser ignorada – é urgentemente necessária uma ação mais forte face às alterações climáticas para evitar que o mundo acelere rumo à catástrofe. Os governos estão a beber copos no “bar da última hipótese” se os objetivos elevados do acordo climático de Paris forem atingidos”.

Richard Black, diretor do grupo de reflexão Energy and Climate Intelligence Unit, disse: “O relatório da Unep confirma que tem havido uma notável aceleração no sentido rumo a uma economia de baixo carbono global em relação ao ano passado, mas é necessária substancialmente mais ação se os governos quiserem cumprir a meta por eles fixada no acordo de Paris”.

Outro acordo climático significativo foi assinado nas últimas semanas. Ao abrigo do Protocolo de Montreal de 1987, os países concordaram em eliminar progressivamente os gases que se sabe serem prejudiciais à camada de ozono. Alguns dos substitutos, no entanto, revelaram-se muito mais potentes do que o dióxido de carbono para o aquecimento do planeta.

Sob uma nova adição a esse acordo, países por todo o mundo concordaram em remover os HFCs prejudiciais usados em alguns sistemas de ar condicionado e refrigeração. Se totalmente implementado, isto poderia resultar numa redução de 0,5°C no aquecimento futuro. Dada a meta estabelecida em Paris para limitar o aumento da temperatura global em 2ºC, isto faria uma diferença significativa para as ações do mundo face às alterações climáticas, se for respeitado na íntegra. A eliminação progressiva das substâncias químicas relevantes pode demorar grande parte do resto da década, contudo, e pode enfrentar resistência em algumas indústrias.

Solheim urgiu aos países para embarcarem em programas mais ambiciosos para melhorarem a eficiência energética, aumentarem a quantidade de energia proveniente de fontes renováveis, e procurarem alcançar os objetivos nacionais que estabeleceram em Paris.

Traduzido do original World on track for 3C of warming under current global climate pledges, warns UN publicado por Fiona Harvey no theguardian, a 3 de Novembro de 2016

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Metano

Marcha do Povo Pelo Clima: Não Importa Quantos Foram Mas Sim a Mensagem

“Este é o maior problema da história da humanidade. Nunca a humanidade na sua história pôs em causa a possibilidade das futuras gerações poderem deixar de existir”

– Paulo Magalhães, da associação ambientalista Quercus.

Isto sim, é o mínimo que se pode pedir como critério de sucesso quanto ao focos da mensagem numa manifestação sobre alterações climáticas. Porquê o sucesso estar dependente da relevância da mensagem e não do número de manifestantes? Porque se tivermos digamos metade da humanidade, 3.5 biliões, nas ruas, a levantarem a voz de que precisamos mudar de combustíveis fósseis para alternativas energéticas que não poluam o ar nem emitam gases de efeito-de-estufa de modo a reduzir o risco de catástrofes naturais e das mortes por asma,… estaremos condenados à extinção neste planeta. Um grande número de gente inconsciente e focada na questão errada perpetuará o problema. Caso o leitor não saiba, as catástrofes naturais e doenças como a asma são fontes de lucro exorbitantes e meios de colocar outros países em dívida através da Organização Mundial de Saúde e indústria farmacêutica, do Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI). O sistema económico é baseado no lucro e essa é a sua força impulsionadora. Para pesquisar melhor este ponto, procure “John Perkins, mercenário económico”.

Adorei também esta, do mesmo manifestante:

o mundo está “refém de meia dúzia de empresas que manda nos políticos” e “hoje o político é um boneco das grandes empresas de petróleo”

Se procurarmos a causa de raiz do aquecimento global, se seguirmos essa cadeia de relações causais e variáveis que originaram, perpetuam e pioram seriamente este problema, ao ponto de muitos cientistas falarem na possibilidade de extinção da humanidade dentro do tempo de uma vida humana (mais sobre isto será publicado em breve neste blog), o nosso problema não é o CO2, nem a falta de tecnologia para reduzir as emissões e até remover esse excesso da atmosfera. Se assim fosse, já o teríamos feito. A causa fundamental do problema das alterações climáticas, conhecido como aquecimento global e a começar a ser referido como aquecimento global fugidio ou descontrolado (significando que talvez já não o consigamos ‘agarrar’ e assim impedir a sua evolução exponencial para temperaturas cada vez mais altas), a causa de raiz é a distorção social da “economia” baseada na dívida e no lucro. Na dívida para que uns controlem os outros, e no lucro para que esses outros nunca tenham possibilidade sequer de apanhar os primeiros. Ou seja, não é economia nenhuma, mas sim um jogo competitivo em que quem dá as cartas faz basicamente aquilo que quer. E é por isso que convém escrevê-la entre aspas. É antes uma anti-economia. Os economistas não economizam de todo; o que eles fazem é propaganda ao valor do dinheiro, para parafrasear John McMurtry.

Neste sistema económico onde o lucro, e assim também a corrupção, são a sua base fundamental, enquanto a resolução de um problema não der lucro, ou até colocar em risco a posição das instituições estabelecidas ou do monopólio oligarca, o problema nunca será resolvido.

“Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou.”

– Albert Einstein

E é nesta altura que alguém remata que são os poderes financeiros e políticos, as corporações, o 1% mais rico do mundo que têm tamanha distorção de valores, doentia, desligada da natureza e vidrada na próxima acção mais lucrativa, os verdadeiros responsáveis pela situação do planeta. Sinto muito dizer-lhe, mas essa é também a minha e a tua cultura. Quando ignoramos um pobre a pedir esmola não estamos a ignorar um problema e orientarmo-nos para a próxima atitude mais lucrativa? Quando compramos algo e mais tarde o vendemos por um preço maior para fazermos algum dinheiro, não estamos a colocar um peso, tal como um aumento na inflação, sobre toda a população? Estas atitudes, tanto a nível de corporações como a nível individual, estão embutidas na organização social através deste sistema retrógrado milenar, perpetuador da escassez fictícia e alienado das leis da natureza, que é o dinheiro. E se queremos começar a enfrentar esta realidade do aquecimento global com mais sucesso do que os últimos 20 anos, em que votámos e esperámos que a política o resolvesse por nós, comecemos por aqui:

“Você define-se como uma vítima do mundo ou como o próprio mundo?” – Alan Watts

Alan Watts tem audios interessantíssimos sobre esta confusão entre símbolo e realidade que tantos problemas perpetuou ao longo a história. Pois é melhor começarmos a ignorar a política e agarrarmo-nos à ciência. A realidade actual e as previsões científicas para o futuro próximo são… Deixo-vos com a uma tradução de um artigo por um manifestante de Manhattan, Nova Yorque. Ele é bem mais sensível e cuidadoso nas palavras ao expôr aquilo que não sei como vos dizer aqui.


por Nathan Currier

Quão grande foi a marcha em Manhattan ontem? Um dos organizadores era a 350.org, um grupo que começou por Bill McKibben com base num estudo do cientista climático James Hansen, que afirmou que devíamos apontar para cerca de 350 partes por milhão (ppm) de CO2. Estamos atualmente em cerca de 400 ppm, por isso precisamos de mover “apenas” cerca de 50 ppm na direção oposta ao nosso rápido crescimento, que levou um empurrão de uns assustadores 3ppm no ano passado.

Vai ser necessário um grande esforço, e poucos de nós vivos hoje irão viver para vê-lo (em falta de engenharia de larga escala), mas é interessante ponderar a mudança minúscula que isso representa no ar – uma mudança de apenas 5 milésimos de um por cento (0,005 por cento) da atmosfera! Essa é uma das coisas fascinantes da ciência do clima, como tal mudança minúscula na nossa atmosfera poderia ter um impacto tão grande sobre o balanço de energia de todo o nosso planeta.

Mantenha isso em mente se está a tentar contemplar a relevância de cerca de 350.000 pessoas saírem para as ruas de Manhattan, a capital do capitalismo, o coração cultural da nação, onde a negação manufacturada tem tido maior acção de entrave. Isso porque de facto esta é exatamente a mesma proporção dos 7 bilhões de membros da humanidade, 5 milésimos de um por cento, tal como essas 50 ppm (partes por milhão) serem uma mudança na composição do ar. Além disso, alguns estimam o número real de manifestantes em 400.000, e se as estimativas globais expandem igualmente, então a nível global, estavam a marchar cerca da mesma proporção quanto o crescimento de CO2 desde a industrialização representa uma mudança na composição da atmosfera. De certa forma, todos aqueles em marcha eram apenas um vestígio, e logo que nos dissipámos em ruas e estações de metro depois, rapidamente fomos superados em número pelas pessoas que seguiam nas suas vidas quotidianas, que parecia óbvio, mas de outra forma, o quão monumental o pequeno vestígio se pode tornar!

E por falar em poderosos pequenos vestígios, o metano é ainda muito menos concentrado no ar do que o CO2, cerca de 220 vezes menos, mas houve realmente algum metano flutuando ao redor do ar de Manhattan ontem! Não, não me refiro a todos os canos com fugas na cidade que têm levado por vezes testes locais a registar leituras ambientais incrivelmente altas deste gás de efeito-de-estufa. Quero dizer que, entre os manifestantes, os sinais anti-fracking frequentemente pareciam superar todos os outros cartazes de “sub-tema”. Este é um fenómeno fascinante, já que alguns de nós sentimos que – uma vez que todos nós em última instância temos que viver no aqui e agora, e uma vez que não se pode afetar o clima que temos aqui e agora de forma muito eficaz através da mitigação de CO2 e só se pode ganhar apenas tração política prática ao lidar com isso aqui e agora – então uma das melhores maneiras de avaliar a seriedade e de se conseguir movimento à volta do clima seria focar-se em ação significativa sobre o metano. Em certo sentido, se você quer que as pessoas comecem a subir uma escada muito íngreme, precisa dar-lhes um agradavelmente baixo primeiro degrau, e esse primeiro degrau do clima seria o metano. Como Robert Watson, o presidente anterior do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas das Nações Unidas colocou de forma sucinta, cortando o metano rapidamente “demonstraria ao mundo que nós podemos fazer algo para rapidamente abrandar a mudança climática. Precisamos de nos mexer para arrefecer a temperatura do planeta. O metano é o lugar mais eficaz para começarmos “.

A marcha de Manhattan pelo clima também forneceu um exemplo bem à medida do quão frustrante pode ser conseguir que a grande marcha lenta da mudança role: para aqueles na parte de trás, levou duas horas para iniciarem qualquer movimento de todo, e depois mais duas horas para chegar a Columbus Circle, o seu ponto de partida ostensivo. Da mesma forma, arrastamentos inevitáveis ​​sobre mitigação das alterações climáticas estão a tornar a ação rápida em torno do metano ainda mais importante. E as incertezas quanto às mudanças climáticas de curto prazo, com um potencial crescente de eventos de alto impacto e de menor probabilidade que possam causar aquecimento abrupto (como as emissões de metano não-humanas no Ártico a iniciarem-se mais rapidamente do que os modelos prevêem), significa que ignorar o as mudanças climáticas a curto prazo durante tempo demasiado pode revelar-se fatal para todas as nossas melhores intenções. Logo, é fascinante ver um interesse em metano crescer a partir dos movimentos grassroots, mesmo que ainda seja em grande parte (e erroneamente) limitada à questão fracking (fracturação hidráulica por gás natural) neste momento. Vamos torcer para que o interesse por este mero vestígio de gás no nosso ar (desde a industrialização que tem aumentado em cerca de 1,1 ppm, uma alteração de cerca de 1,1 décimo de milésimo de 1 por cento da atmosfera! – despolete faísca em breve. O grupo de 1250 foi inicialmente concebido para fornecer uma espécie de desdobramento autónomo para o grupo 350 de McKibben, a fim de ajudar a despoletar essa faísca, mas o próprio McKibben disse logo que ele “tinha as mãos cheias com o CO2” e no momento não enviou aos seus seguidores a petição de abaixo-assinado inicial do grupo 1250, a qual rapidamente definhou. Mas se o interesse em metano chegar a essa concentração crítica, e essa faísca for providenciada, você sabe o que acontece a seguir: é aí que a ação climática vai explodir.

O texto acima foi anteriormente publicado por Nathan Currier no HuffingtonPost


A imagem na publicação mostra manifestantes cujos cartazes (ou será melhor dizer trajes) partilham uma relação interessante. Para cada libra (~450 gramas) gasta-se em água o equivalente a tomar 180 duches. Este tema será igualmente explorado neste blogue. Para já, para aqueles que dominam o inglês, aqui está o último documentário, super elucidante e mesmo estonteante, sobre o assunto: Cowspiracy, o qual poderá ser visto AQUI!

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