Pico nos niveis de metano a 25 fevereiro 2016
Sam Carana

Três Tipos de Aquecimento no Ártico

Sugerimos a leitura de “3 Tipos de Aquecimento no Ártico” no site Aquecimento Global: A Mais Recente Ciência Climática
 
O Ártico é propenso a sofrer de três tipos de aquecimento. Em primeiro lugar, o Ártico é atingido de forma particularmente forte pelas emissões, como discutido em posts anteriores como este e este.

Segundo, o aquecimento no Ártico está a acelerar devido aos feedbacks, como discutido na página sobre os feedbacks. Muitos desses feedbacks estão relacionados com a diminuição da cobertura de neve e gelo no Ártico, que por sua vez é agravada pelas emissões tais como fuligem.

Em terceiro lugar, o feedback mais perigoso é a libertação de metano a partir do fundo do mar do Oceano Ártico, devido aos hidratos serem desestabilizados à medida que o calor atinge os sedimentos.

Extensão de gelo no Ártico a 25 fevereiro 2016

No ano passado, o gelo do Ártico atingiu a sua extensão máxima a 25 de Fevereiro de 2015. Este ano, há muito menos gelo marinho no Ártico do que no ano passado. A diferença é de cerca de 300.000 km quadrados, mais do que o tamanho do Reino Unido.

Tipos de aquecimento no Ártico - feedbacks

O gelo do mar pode refletir até 90% da luz solar de volta ao espaço. Uma vez que o gelo derrete, contudo, a água do oceano reflete apenas 6% da radiação solar que entra e absorve o resto. Isto é representado na imagem acima como feedback # 1.

albedo

Como o professor Peter Wadhams, uma vez calculou, o aquecimento devido à perda de neve e de gelo do Ártico poderia mais que duplicar o aquecimento líquido causado agora por todas as emissões de todos os povos do mundo.

Peter Wadhams, mudança no Albedo e Aquecimento Global

O gelo do mar age como um atenuador que absorve o calor. Quando o gelo está a derreter, cada grama de gelo precisará de 334 Joules de calor para passar a água, enquanto a temperatura se mantém a 0° Celsius ou 32° Fahrenheit.

Uma vez que todo o gelo se transformou em água, todo o calor extra vai para o aquecimento da água. Para elevar a temperatura de um grama de água em um grau Celsius, então, serão necessários apenas 4,18 Joule de calor. Por outras palavras, a fusão do gelo absorve 8 vezes mais calor do que o necessário para aquecer a mesma massa de água de zero a 10°C. Isto é representado na imagem acima como feedback # 14.

O vídeo em cima, criado por Stuart Trupp, mostra como o calor adicionado ao início (A) vai principalmente aquecer a água que contém os cubos de gelo. A partir de cerca dos 38 segundos no filme, todo o calor começa a ir para a transformação dos cubos de gelo em água, enquanto que a temperatura da água não sobe (B). Mais de um minuto mais tarde, quando os cubos de gelo tiverem derretido (C), a temperatura da água começa a aumentar rapidamente outra vez.

O metano é um feedback adicional, descrito como feedback # 2 na imagem mais acima. Como a água do Oceano Ártico está a ficar cada vez mais quente, o perigo aumenta de que o calor irá chegar ao fundo do mar, onde pode desencadear a libertação de quantidades enormes de metano, num ciclo de feedback adicional que fará o aquecimento no Ártico acelerar e escalar num aquecimento descontrolado.

Os sedimentos debaixo do Oceano Ártico contém vastas quantidades de metano. Apenas uma parte do Oceano Ártico por si só, a Plataforma Continental da Sibéria (ESAS, veja o mapa abaixo), contém até 1.700 Gt de metano. A libertação repentina de menos de 3% dessa quantidade poderia adicionar 50 Gt de metano à atmosfera, e os especialistas têm alertado por muitos anos que eles consideram que uma tal quantidade está prestes a ser liberta a qualquer momento.

Niveis de metano atmosférico e em sedimentos

A figura acima dá-nos uma imagem simplificada da ameaça, mostrando que de uma carga total de metano na atmosfera de 5 Gt (entretanto é mais elevada), 3 Gt têm sido adicionadas desde a década de 1750, e esta adição é responsável por quase metade de todo o aquecimento global antropogénico. A quantidade de carbono armazenado em hidratos, globalmente, foi estimada em 1992 como sendo de 10.000 GT (USGS), enquanto que uma estimativa mais recente dá uma figura de 63.400 GT (Klauda & Sandler, 2005). Mais uma vez, a conclusão assustadora é que a Plataforma Continental da Sibéria (ESAS), sozinha, contém até 1700 Gt de metano sob a forma de hidratos de metano e gás livre contidos nos sedimentos, dos quais 50 Gt estão prestes a ser libertados abruptamente a qualquer momento.

Os sinais de aviso continuam a ficar mais fortes. Na sequência de uma leitura de um pico de metano de 3096 ppb [artigo em link em português] a 20 de Fevereiro de 2016, uma leitura de 3010 ppb foi registada na manhã de 25 de fevereiro de 2016, nos 586 mb (veja imagem abaixo).

Pico nos niveis de metano a 25 fevereiro 2016

Mais uma vez, este nível muito elevado foi provavelmente causado por metano proveniente do leito marinho do Oceano Ártico, numa localização na Cordilheira de Gakkel logo ao largo da Plataforma Continental Siberiana (ESAS – East Siberian Arctic Shelf), conforme discutido no post anterior. Esta conclusão é apoiada pelos níveis de metano em diferentes altitudes sobre a ESAS, como registado por ambos os satélites MetOp-1 e MetOp-2 no período da tarde, conforme ilustrado pela combinação de imagens abaixo mostrando os níveis de metano nos 469 mb.

Niveis de metano por satelite a 25 fevereiro 2016

A situação é calamitosa e apela a uma ação abrangente e eficaz, conforme descrito no Plano Climático.

Links:

Mecanismos de Reforço Positivo (Feedbacks) no Ártico

Mudanças no Albedo no Ártico

Chegou a hora de espalhar a mensagem

Os níveis de gases de efeito estufa e as temperaturas continuam a aumentar

Área de gelo marinho no Ártico em recorde mínimo para a época do ano

A Máxima Extensão do Gelo Marinho Já Foi Atingida Este Ano?

Plano Climático

Traduzido do original Three kinds of warming in the Arctic de Sam Carana, publicado no blogue Arctic News, a 26 de Fevereiro de 2016.

Outros blogues com publicações recentes sobre Alterações Climáticas em Português:

Como um Titanic o El Nino Começa a Esmorecer, Que Problemas Frescos Trará um Mundo Quente Recorde?

em https://aquecimentoglobalde…

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Mudança Climática em aceleração, Anomalias de temperatura
Sam Carana

Mudança Climática em Aceleração

Sugerimos a leitura de “Mudança Climática em Aceleração” no site Aquecimento Global: A Mais Recente Ciência Climática
 
Níveis de metano tão elevados quanto 2562 ppb foram registados a 9 de Outubro de 2014, como ilustrado pela imagem abaixo.

Níveis de Metano a 9 de Outubro 2014
Muitas áreas cinzentas aparecem na imagem onde o QC (controle de qualidade) falhou, por ter sido muito difícil ler os níveis de metano na respectiva área, aparentemente devido a níveis de humidade elevados (ou seja, neve, chuva ou vapor de água) na atmosfera.

Clima sobre o Ártico dificulta leituras de metano.
Como a imagem acima ilustra, a cobertura de nuvens é elevada sobre o Ártico, ao mesmo tempo que há precipitação em forma de neve.

Anomalias da temperatura do mar de superfície tão elevadas quanto + 1,89°C atingiram o Atlântico Norte (a 8 de Outubro de 2014.

Anomalias da temperatura do mar de superfície tão elevadas quanto + 1,89°C atingiram o Atlântico Norte (a 8 de Outubro de 2014.

Noutras palavras, níveis elevados de metano (acima de 1.950 ppb, de cor amarela) podiam estar presentes sobre uma parte muito maior do Oceano Ártico, enquanto o metano nessas áreas cinzentas podia ter sido ainda maior do que o nível de pico medido de 2456 ppb.

Isto parece confirmar-se pela persistência de níveis elevados de metano sobre vastas áreas em todo o Oceano Ártico, tanto na parte da manhã (parte superior da imagem mais acima) e à tarde (parte inferior da imagem) a 9 de Outubro de 2014.

Os níveis de metano estão assim elevados sobre o Oceano Ártico por um número de razões, incluindo:

  • A Corrente do Golfo continua a empurrar água quente para Oceano Ártico.
  • As erupções de metano resultantes vindas do fundo do mar no Oceano Ártico constituem um feedback (mecanismo de retroacção) que acelera o aquecimento no Ártico.
  • À medida que o Ártico aquece mais rapidamente do que o resto da Terra, as coberturas de gelo e neve do Ártico vão diminuir, acelerando ainda mais o aquecimento no Ártico.
  • À medida que o Ártico aquece mais rapidamente do que o resto da Terra, a velocidade com que as correntes de jato circundam o Hemisfério Norte vai enfraquecer, tornando-o mais meandro [fazendo-o serpentear], resultando numa maior frequência e intensidade de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas e incêndios florestais.

Aqui está um exemplo de aquecimento intenso. Olhe o que está a acontecer atualmente na Gronelândia.

As anomalias de temperatura alta sobre a Groenlândia e partes do Oceano Ártico a 11 de Outubro de 2014. Note-se que as anomalias são a média ao longo do dia (e da noite).

Como a imagem acima à direita mostra, anomalias da temperatura do mar de superfície tão elevadas quanto + 1,89°C atingiram o Atlântico Norte (a 8 de Outubro de 2014).

Além disso, a cobertura elevada de nuvens sobre o Ártico (imagem mais acima) torna-o difícil para o calor irradiar para o espaço, contribuindo ainda mais para as anomalias de alta temperatura.

A imagem à direita mostra as anomalias de temperatura alta sobre a Gronelândia e partes do Oceano Ártico a 11 de Outubro de 2014. Note-se que as anomalias são a média ao longo do dia (e da noite).

A imagem abaixo (à direita) mostra anomalias correspondentes à extremidade superior da escala atingindo grande parte da Gronelândia num momento específico durante o dia de hoje. A parte esquerda da imagem abaixo mostra como isso pode acontecer, ou seja, correntes de jato enrolando em torno da Gronelândia que apanham o fluxo de entrada de ar quente vindo do Atlântico Norte.

Temperaturas muito altas na gronelândia, Outubro 2014
Tal como dito, à medida que o Ártico aquece mais rapidamente do que o resto da Terra, a velocidade com que as correntes de jato circunavegam o Hemisfério Norte vai enfraquecer, fazendo com que os jatos meandrem mais e criem padrões que podem reter o calor (ou frio), durante um número de dias sobre uma determinada área. Devido à altura das suas montanhas, a Gronelândia é particularmente propensa a ser cada vez mais atingida por ondas de calor resultantes de tais padrões de bloqueio. O aquecimento altera a textura da neve e do gelo, tornando-o mais lamacento e escuro, o que também faz com que absorva mais calor da luz solar, acelerando ainda mais o degelo.

Como Paul Beckwith adverte num post anterior, as taxas de derretimento na Gronelândia duplicaram nos últimos 4 a 5 anos, e as taxas de degelo sobre a Península Antárctica aumentaram ainda mais rápido. Com base nas últimas décadas, as taxas de derretimento tiveram um período de duplicação de cerca de 7 anos. Se esta tendência continuar, podemos esperar um aumento do nível do mar próximo de 7 metros por volta de 2070.

Aumento da média global do nível do mar, prevista em 2,5 metros até 2040. Dados da NASA / GSFC com referência a 7/7/2014 e curva exponencial polinomial adicionada por Sam Carana para o Arctic-news.blogspot.com

Aumento da média global do nível do mar, prevista em 2,5 metros até 2040. Dados da NASA / GSFC com referência a 7/7/2014 e curva exponencial polinomial adicionada por Sam Carana para o Arctic-news.blogspot.com Imagem tirada de http://arctic-news.blogspot.com/2014/07/more-than-25m-sea-level-rise-by-2040.html

Isto são tudo indicações de que o ritmo da mudança climática está a acelerar em muitos aspectos, o mais perigoso sendo as cada vez maiores erupções de metano do fundo do mar do Oceano Ártico. Como a imagem abaixo mostra, as anomalias da temperatura do mar de superfície são muito elevadas no Oceano Ártico, indicando temperaturas muito elevadas sob a superfície.

Variação da Temperatura do Mar em +4 a +8 graus C no Ártico

Variação da Temperatura do Mar em +4 a +8 graus C no Ártico

O Secretário de Estado dos EUA John Kerry disse recentemente: “Há agora – agora mesmo – défices alimentares graves que ocorrem em lugares como a América Central porque as regiões estão a lutar contra as piores secas em décadas, não são eventos [de periodicidade] de 100 anos em termos de inundações, em termos de incêndios, em termos de seca -.são eventos de 500 anos, algo inédito na nossa medição do tempo.” Avisando sobre catástrofe iminente, Kerry acrescenta: “A vida como você a conhece na Terra termina. Um aumento em sete graus Fahrenheit (3,9°C), e não podemos sustentar as culturas, a água, a vida nessas circunstâncias.”

A situação é grave e exige uma ação abrangente e eficaz, como discutido no blogue Climate Plan.

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