Calor e mancha de água fria do degelo invadem o Atlântico
Sam Carana

Calor do Oceano Invade o Atlântico Norte

A extensão do gelo marinho do Ártico a 19 de Junho de 2016 estava num recorde mínimo para a época do ano, como a imagem abaixo mostra.

Comparação da extensão do gelo marinho ao longo dos anos mostra recorde mais baixo para a época do ano - Junho 2016

Extensão do gelo do mar no Ártico com o último valor de 9,7 milhões de quilómetros | Comparação das médias de 1980, 1990, 2000, 2012, 2007, 2015 e 2016.

Não só está a extensão do gelo do mar no Ártico num valor baixo recorde para a época do ano, o gelo do mar também está rapidamente a ficar mais fino, mais fragmentado, inferior em concentração e de cor mais escura.

Gelo a norte da Gronelândia com rachas a quebrar.

Rachas no gelo do mar a norte da Gronelândia a 19 de junho de 2016, criado com a imagem Arctic-io

Na manhã de 20 de Junho de 2016, fortes libertações de metano foram registadas sobre a água a norte da Gronelândia, bem como a leste da Gronelândia, como ilustrado pela imagem abaixo.

Níveis de metano libertado no mar do Ártico em Junho 2016

A imagem abaixo mostra que, na manhã de 20 de Junho de 2016, os níveis médios globais de metano aumentaram em várias partes por bilhão numa grande faixa de altitude, em comparação com os dois dias anteriores. Os níveis de metano nas altitudes selecionadas para os dias de Julho de 2015 e Dezembro de 2015, foram adicionados para referência.

Comparação dos níveis de metano médios globais de 2015 e 2016

Clique na imagem para ampliar | Níveis médios de Metano para os dias selecionados comparando Dezembro e Julho de 2015 e Junho de 2016, com dados da NOAA

As temperaturas no Ártico estão a aumentar, como ilustrado pela imagem abaixo, mostrando que a 19 de Junho de 2016 as temperaturas estavam tão elevadas quanto 31.4°C ou 88.4°F sobre o rio Mackenzie (círculo verde), que termina
no Oceano Ártico (e, assim, aquece o Oceano Ártico ali).

Temperatura elevada no Ártico, no rio McKenzie, aquece o oceano

Temperaturas tão elevadas quanto 41.4°C no rio McKenzie (círculo verde) que vai dar ao Oceano Ártico e contribui para o seu aquecimento.

A 20 de Junho de 2016, o Sol irá atingir o seu ponto mais alto (Solstício), e o Árctico terá 24 horas de luz solar, ou seja, no Círculo Ártico (latitude 66,56° norte) ou superior. O Ártico tem cerca de 20 milhões (20.000.000) de quilómetros quadrados (7.700.000 milhas quadradas) de área e abrange cerca de 4% da superfície da Terra. A insolação durante os meses de Junho e Julho é maior no Ártico do que em qualquer outro lugar na Terra, como ilustra a imagem abaixo, por Pidwirny (2006).

Exposição do Ártico à luz solar ao longo do ano e no solstício

A temperatura da superfície do mar perto de Svalbard estava tão elevada quanto 55°F (12,8°C, no círculo verde) a 14 de Junho de 2016, uma anomalia de 19,6°F (10,9°C) em relação a 1981-2011, conforme ilustrado pela imagem abaixo.

Temperaturas elevadas do mar no Ártico

12.5°C de temperatura registados no mar de Svalbard no Ártico, uma diferença de 10.9°C em relação à média de 1981-2011.

Mancha / Tampa de água fria sobre o Atlântico e Pacífico

Manchas de água fria no Atlântico e Pacífico reveladas pela imagem da NASA com as anomalias da temperatura em relação a 1951-1980

A imagem acima, criada com nullschool.net, mostra ainda que a tampa de água fria que vinha crescendo de forma tão proeminente em extensão sobre o Atlântico Norte ao longo dos últimos anos, tem diminuído substancialmente. Em comparação, a área fria sobre o Pacífico Norte tem ficado maior. Isto é ainda confirmado pela imagem à direita, criado com mapas da NASA que mostram anomalias de temperatura do oceano para Maio de 2016.

A água do degelo fluiu em abundância da Gronelândia em 2016, como ilustrado pela imagem da NSIDC.gov abaixo. O escorrimento a partir do Alasca e da Sibéria para o Pacífico parece menor, em comparação, do que o escorrimento para o Atlântico Norte. Então, como pode ser que a área fria no Pacífico Norte tem ficado maior do que a área fria no Atlântico Norte?

Extensão do degelo / derretimento na Gronelândia em 2016, comparado a 1981-2010

Poderia haver outro factor que influencia o tamanho dessas áreas frias no Atlântico Norte e no Pacífico Norte?

A imagem abaixo, criada com imagens da NOAA, dá uma comparação entre a situação a 1 de Junho de 2015 (em cima) e 1 de Junho de 2016 (em baixo), mostrando anomalias em relação a 1961-1990.

Mancha de água fria do degelo sobre Atlântico e Pacífico

A diferença é surpreendente, especialmente quando considerando a força das anomalias mais frias (em relação a 1961-1990). Para além de água do degelo, algo mais deve estar a influenciar o tamanho e a força dessas anomalias no Atlântico Norte e no Pacífico Norte de maneiras diferentes. Muito provavelmente, a diferença é causada pela Correia Transportadora Oceânica (ou circulação termoalina), que está a levar água quente para o Atlântico Norte, enquanto leva água fria para fora do Atlântico Norte. No Pacífico Norte, está a fazer o oposto, ou seja, a trazer água fria, enquanto transporta água quente para fora do Pacífico Norte.

circulação termoalina aquece o Atlântico e arrefece o Pacífico alterando as manchas de água fria do degelo

A Correia Transportadora Oceânica ou circulação termoalina, aquece o Oceano Atlântico enquanto arrefece o Pacífico, revelando alterações nas manchas de água fria do degelo.

[Esta animação é um arquivo de 2,3 MB, que pode demorar algum tempo para carregar totalmente]

Em conclusão, existem vários fatores que estão a influenciar a situação, incluindo a influência que tem o El Niño e o impacto que a La Niña vai ter, e as mudanças nas correntes oceânicas. Mesmo que a correia transportadora possa ficar mais lenta, mais importante do que a sua velocidade é a quantidade de calor que vai levar para o Oceano Ártico. A imagem abaixo mostra uma tendência a apontar para a água no Hemisfério Norte a ficar 2 graus Celsius mais quente bem antes do ano 2030, em comparação com a média do século 20.

Temperaturas no Hemisfério Norte em 2016 e previsão futura

Se essas tendências continuarem ou mesmo se reforçarem, água cada vez mais quente será transportada do Atlântico Norte para o Oceano Ártico, contrariando o possível arrefecimento devido ao escorrimento resultante do degelo. Como o afluxo no Atlântico é cerca de 10 vezes maior em volume do que o afluxo no Pacífico, o resultado será ainda mais aceleração no aquecimento do Oceano Ártico.

Um Oceano Ártico mais quente irá acelerar o declínio do gelo do mar, fazendo com que mais luz solar seja absorvida pelo Oceano Ártico, sendo um dos mecanismos de auto-reforço (feedbacks) que estão a acelerar ainda mais o aquecimento do Oceano Ártico. O feedback # 14 refere-se ao calor (latente), que anteriormente foi para a fusão. Com o desaparecimento do gelo do mar, uma proporção crescente do calor do oceano é absorvida pelo Oceano Ártico.

Energia na fusão do gelo e aquecimento da águaÀ medida que o gelo do mar aquece, 2,06 J/g de calor vão para cada grau Celsius de aumento da temperatura do gelo. Enquanto o gelo está a derreter, toda a energia (em 334J/g) vai para transformar o gelo em água e a temperatura mantém-se a 0°C (273.15K, 32°F).

Uma vez que todo o gelo se transforme em água, todo o calor subsequente vai para o aquecimento da água, a 4,18 J/g para cada grau Celsius que a temperatura da água aumente.

A quantidade de energia absorvida pela fusão do gelo é tanta quanto a necessária para aquecer uma massa equivalente de água de zero a 80°C.

Comparação da espessura / concentração do gelo marinho entre 2012 e 2016

O gelo do mar está em má forma, como também ilustrado pela comparação da concentração acima, entre 24 de Junho de 2012 e uma previsão para 24 de Junho de 2016.

Comparação da espessura do gelo marinho no Ártico entre 2012-2016

Como a comparação acima mostra, o gelo do mar está agora também muito mais fino do que estava em 2012. O gelo marinho espesso costumava se estender metros abaixo da superfície do mar no Ártico, onde poderia consumir enormes quantidades de calor do oceano através do derretimento deste gelo em água. Como tal, o gelo marinho espesso agia como um tampão. Ao longo dos anos, a espessura do gelo do mar no Ártico diminuiu da forma mais dramática. Isto significa que o tampão que é utilizado para consumir grandes quantidades de calor do oceano levado pelas correntes marinhas para o Oceano Ártico, tem desaparecido agora em grande parte.

Calor do oceano vai destabilizar os hidratos de metano no fundo do mar (leito marinho) no Ártico

Espessura do gelo antes de 2012 | Gelo pouco espesso após 2012 | Calor do Oceano | Hidratos de Metano | Efeito Tampão desaparece

O perigo é que o calor vai chegar ao leito marinho (fundo do mar) e vai desestabilizar os hidratos de metano contidos nos sedimentos no fundo do mar do Oceano Ártico.

A situação é calamitosa e apela a uma acção abrangente e eficaz, conforme descrito no Plano Climático.

Traduzido do original Ocean Heat Overwhelming North Atlantic de Sam Carana, publicado no blogue Arctic News, a 17 de Junho de 2016.

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Anomalia da temperatura de Abril em comparação com anos anteriores
Robertscribbler

Sete Meses Consecutivos de Calor Global de Quebrar Recordes

Não é apenas o facto de estarmos a ver um calor global recorde. É que o salto nas temperaturas globais em 2016 poderá ser o maior pico já registado num único ano. É que o mundo poderá nunca mais voltar a ver temperaturas anuais abaixo de 1 C acima das médias pré-industriais. E é que, este nível elevado de calor, e uma pico relacionado de gases de efeito estufa na atmosfera devido às emissões de combustíveis fósseis, agora é suficiente para começar a infligir danos graves sobre tanto o mundo natural como a civilização humana.

Sete Meses Consecutivos de Recorde de Calor

O mês passado foi o Abril mais quente do registo climático global. Não só foi o mais quente de tais meses já registado – quebrou o recorde anterior com a maior margem alguma vez registada. E este mês de Abril tornou-se agora o sétimo mês consecutivo de uma cadeia ininterrupta de calor global recorde.

Anomalia da temperatura de Abril em comparação com anos anteriores

(Quando em gráfico, é isto o que o Abril mais quente já registado parece quando comparado a outros Abris. Reparem no ponto ascendente e estreito no final da progressão de aquecimento longo. Sim, isso é para Abril de 2016. Fonte da imagem: Dr. Stephan Rahmstorf. Fonte dos dados: NASA GISS).

De acordo com a NASA GISS, as temperaturas globais em Abril estiveram 1,11 graus Celsius (C) mais quentes do que a sua média da linha de base para o século. Quando comparado com leituras pré-industriais (década de 1880 pela NASA), as temperaturas aqueceram globalmente por um total de 1,33 C. E isso é realmente um grande salto no aquecimento global, especialmente quando se considera o contexto dos últimos sete meses. Quando se olha para isso, parece que as temperaturas globais estão a subir numa corrida com uma velocidade de meter medo.

Sobre este ritmo furioso de aquecimento, Andy Pitman, diretor do Centro ARC de Excelência para a Ciência do Sistema Climático da Universidade de New South Wales na Austrália, observou recentemente no The Guardian:

“O que é interessante é a escala em que estamos a quebrar recordes. Está claramente tudo a ir na direção errada. Os cientistas do clima têm vindo a alertar quanto a isto desde pelo menos a década de 1980. E tem sido estupidamente óbvio desde a década de 2000.”

dióxido de carbono atmosférico em Maio

(Níveis recorde de dióxido de carbono atmosférico, como visto neste gráfico de Domingo 15 de Maio pelo Copernicus Observatory, são a principal força motriz de um pico incrível nas temperaturas globais durante 2016. Fonte da imagem: Observatório Copernicus).

Apesar de ser provável que 2016 seja um ano quente recorde, as leituras globais têm registado uma ligeira moderação desde o início deste ano assim que o El Nino começou a desvanecer-se. Mas isso não significa que estejamos fora da zona de perigo. Muito pelo contrário, estamos a correr em direção a limiares climáticos a um ritmo nunca antes visto. E isso é realmente preocupante. As leituras mensais de pico este ano atingiram uns ridículos 1,55 C acima da média da década de 1880 na altura do El Nino durante Fevereiro. E o recorde mensal atual de Abril está empatado com Janeiro de 2016 na medida da NASA. No total, os primeiros quatro meses de 2016 têm agora uma média 1,43 C acima das linhas de base da década de 1880 ou desconfortavelmente perto da marca de 1,5 C estabelecida pelos cientistas como sendo o primeiro de muitos limites climáticos cada vez mais perigosos.

De acordo com Pitman:

“O alvo de 1.5C é pensamento desejoso. Não sei se se obteria 1.5C se se parasse com as emissões hoje. Há inércia no sistema. Está [agora] a colocar pressão intensa sobre os 2C.”

E quando cientistas ortodoxos começam a dizer coisas assim, é mesmo tempo de o resto de nós começar a tomar atenção.

Um Mundo Quente Recorde Feito pela Queima de Combustíveis Fósseis e Consistente com as Previsões Científicas

Olhando para onde o mundo tem aquecido mais, descobrimos que as maiores diferenças extremas de temperatura durante Abril foram novamente centradas sobre o climatologicamente vulnerável Ártico. Alaska, Noroeste do Canadá, o Mar de Beaufort, uma grande parte da Sibéria Central, a costa oeste da Groenlândia, os Mares de Laptev e Kara, e uma secção do Norte de África, todos experienciaram temperaturas mensais na ordem de 4 a 6,5 ​​graus Celsius acima da média. Valores mensais que são gritantes de tão quente. Uma região notavelmente maior experimentou um calor significativo com temperaturas a variarem entre 2 e 4 C acima da linha de base do século 20 da NASA. No geral, quase todas as regiões do mundo experimentaram leituras acima da média – com as exceções notáveis ​​associadas a zonas de depressão extremas relacionadas a padrões climáticos alterados pela mudança climática e manchas frias do oceano induzidas pelo derretimento glacial relacionado com o aquecimento.

O mês de Abril foi o mais quente com temperaturas recordes

(Foto da NASA de um mundo com uma febre alta e a piorar durante um Abril de 2016 quente recorde. Fonte da imagem: NASA GISS).

Estas regiões contra-tendência incluem a mancha fria do Atlântico Norte resultante da zona de derretimento da Gronelândia, a zona de depressão sobre a Baía de Hudson, a zona de depressão sobre o Noroeste do Pacífico, e a zona oceânica de absorção de calor que é o tempestuoso Oceano Antártico. A amplificação de aquecimento observada na região polar Norte, juntamente com a formação da mancha fria do Atlântico Norte e a ativação da zona dissipadora de calor no Oceano Antártico, são todos consistentes com os padrões de aquecimento global relacionados previstos por modelos climáticos e resultantes da queima de combustível de fóssil pelos humanos que empurra os níveis atmosféricos de CO2 bem acima das 400 partes por milhão nos últimos anos.

Calor Recorde Impulsiona Desastres Climáticos sem Precedentes

Este padrão de calor global recorde tem gerado numerosos desastres relacionados à mudança climática. Nas regiões equatoriais do mundo, têm surgido crises de seca e fome. Estas têm se tornado particularmente intensas em África e na Ásia. Em África, dezenas de milhões de pessoas estão agora à beira da fome. Na Índia, 330 milhões de pessoas estão sob estresse hídrico devido ao que é provavelmente a pior seca que aquela nação já experimentou. A Austrália viu 93 por cento da sua Grande Barreira de Coral sucumbir a um branqueamento de coral resultante do calor. E uma vez que o calor do oceano naquela região do mundo ultrapassou uma fasquia que vai forçar eventos de branqueamento mais e mais frequentes, é questionável se o grande recife de coral irá até sobreviver nas próximas décadas.

Pittman no Guardian, novamente:

“A coisa que está a causar esse aquecimento, está a aumentar e aumentar e aumentar. Logo, as temperaturas frias do oceano que vamos obter com uma La Niña são mais quentes do que alguma vez teríamos visto mais do que algumas décadas atrás … Esta é uma tareia em grande escala no sistema de recife de coral numa base contínua, com alguns pontapés ocasionais muito desagradáveis ​​e dos quais não se vai recuperar.”

Na Flórida, a acidificação dos oceanos devido às emissões de combustíveis fósseis está a fornecer os seus próprios socos e pontapés no maior recife de coral na costa daquele estado. Num efeito diferente do aquecimento, a acidificação é uma alteração química causada por águas do oceano que se tornam sobrecarregadas com carbono. Como uma espécie de chuva ácida constante sobre o recife que faz com que o calcário do qual é feito se dissolva.

E se os impactos acima não forem suficientes para manter-nos acordados durante a noite, incêndios florestais sem precedentes em Maio também forçaram o abandono de uma cidade inteira no Canadá. Ilhas por todo o mundo estão a ser engolidas pelo aumento do nível dos oceanos devido ao derretimento do manto de gelo e expansão térmica. Cidades ao longo das costas do Atlântico e do Golfo nos Estados Unidos estão a enfrentar eventos de inundação de maré cada vez piores. O derretimento glacial na Gronelândia e na Antártida está a acelerar. E o gelo do mar do Ártico é tão fino e derrete tão rápido que alguns estão a questionar se algum sobreviverá até Setembro.

A La Nina está a Chegar, Mas Isso Não Vai Ajudar Muito

É importante notar que as temperaturas atmosféricas globais irão resfriar temporariamente dos picos de 2016 já que a La Nina está previsto instalar-se por este Outono. Contudo, os gases de efeito estufa estão tão elevados e o balanço energético da Terra está tão intenso que o oceano global, o gelo e o sistema atmosférico ainda estão a acumular calor a uma taxa sem precedentes. Enquanto a La Nina entra em ação, esse calor extra irá, na sua maior parte, para os oceanos e o gelo enquanto a atmosfera esfria um pouco – preparando-se para o próximo grande impulso já que o El Nino se prepara mais uma vez.

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(O aquecimento global está numa espiral em direção a limiares climáticos perigosos. Gráfico pelo cientista climático Ed Hawkins.)

Esta mudança baseada na variabilidade natural em direção a uma La Nina não devia realmente ser encarada como uma boa notícia. Uma pluma maciça de humidade levantou dos oceanos globais durante o presente pico de calor e, enquanto as temperaturas globais arrefecem, há um risco aumentado de grandes eventos de inundações de uma espécie a que realmente não estamos acostumados. A La Nina também produz zonas de seca — em particular sobre uma Califórnia já em sofrimento — e o aquecimento adicionado a partir do aumento das temperaturas globais vai adicionar à intensidade da seca nessas regiões também.

Com as temperaturas globais previstas para atingirem cerca de 1,3 C acima das médias pré-industriais para o conjunto de 2016, é duvidoso que o mundo vá sequer ver novamente um ano em que as temperaturas caiam abaixo do limiar climático de 1 C. E isso significa derretimento mais rápido do gelo glacial, agravamento dos incêndios, mais perturbação para as estações e colheitas, tempestades e eventos de chuva mais extremos, taxas mais rápidas de aumento do nível do mar, zonas de seca em expansão, mais ondas de calor indutoras de baixas em massa, expansão dos alcances das doenças tropicais, aumento do alcance das espécies invasoras nocivas, e uma infinidade de outros problemas. Nos últimos anos, passámos os limiares para alterações climáticas perigosas. E com as temperaturas globais a aumentarem tão rapidamente, estamos a entrar num problema mais e mais profundo.

No final, a nossa melhor esperança para diminuir essas condições que se agravam é reduzir rapidamente as emissões globais de carbono a zero ou valores de balanço negativos. Até fazermos isso, vai ser uma escalada em rampa de agravamento dos impactos que vêm pelo tubo abaixo.

Traduzido do original NASA — World Just Had Seven Months Straight of Record-Shattering Global Heat, publicado por Robertscribbler em http://robertscribbler.com/ a 16 de Maio de 2016.

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Estudar climatologia com Earth Nullschool
Paul Beckwith

Torna-te um Cientista do Clima em 15 Minutos

Quais os mecanismos envolvidos nas alterações climáticas e como funcionam, da corrente de jato às secas e inundações, do El Niño às anomalias de temperatura…Apertem o cinto; Paul Beckwith é quem conduz.

Conteúdo traduzido do original Become a Climate Scientist in 15 minutes (1/2).
A segunda parte está a ser transcrita e legendada em Português no Amara.org, onde é muito fácil para qualquer pessoa ajudar com um empurrãozinho de modo a que fique disponível o quanto antes.

O Cientista em Ciência Climática Paul Beckwith é professor a tempo parcial com o laboratório de paleoclimatologia e climatologia, Departamento de Geografia, Universidade de Ottawa. Paul ensina climatologia / meteorologia e faz pesquisa de doutorado em “Mudança Climática Abrupta no Passado e Presente”. Paul possui um Mestrado em física de laser e um Bacharel em física de engenharia e alcançou o ranking de mestre de xadrez numa vida anterior.

[expand title=”Transcrição:” swaptitle=”Recolher Transcrição” trigclass=”noarrow” tag=”div” id=”com-cient15t”]

Torna-te um Cientista Climático em 15 Minutos

Olá! O meu nome é Paul Beckwith, da Universidade de Ottawa, do Laboratório de Paleoclimatologia. Hoje, nos próximos 15 minutos, Vou ensinar-vos, basicamente, a como se tornarem num cientista do clima, usando um ótimo software. Se procurarem no Google “earth nullschooll” http://earth.nullschool.net/ poderão trazer aí o que vêm na tela aqui e irei guiar-vos através dela, e deixar-vos determinar vós mesmos o que está acontecendo com o nosso planeta. OK, então, esta é a tela principal, earth.nullschool.net, se apenas clicares em “terra” isso abre os menus. Primeiro de tudo, para que é que estamos a olhar? Se quiser descobrir para o que está a olhar, basta clicar em “earth” e isso dá-lhe a latitude e a longitude, e neste caso temos os ventos, a 60 km por hora, e dá-lhe a direção dos ventos. Então, o que se pode fazer? Pode-se arrastar a Terra à volta e olhar em diferentes pontos de vista. Portanto, isto está a olhar para uma vista do Ártico, por exemplo, e em seguida, irá atualizar após alguns segundos, pode-se usar o roda do rato para fazer zoom-in e zoom-out e quando se aumenta o zoom aumenta a resolução, assim pode-se olhar para regiões específicas e continuar a arrastar e ver-se o que acontece. Estas áreas vermelhas, o que está a acontecer lá, perto da Gronelândia? Basta clicar sobre elas e pode-se ver que os ventos são mais fortes lá, no verde mais claro os ventos são mais fracos, nesta cor verde-amarelada os ventos são mais fortes. Então, é assim que se navega, basicamente, à volta do planeta, olhando para qualquer ponto de vista que se deseje. Agora, como é que se vai mudar o menu? Clica-se em “earth”, que controla tudo. Agora, se quiser obter mais informações sobre o que está a medir pode-se clicar em “about” e obtém-se esta imagem aqui, e pode-se fazer scroll para baixo e diz-lhe que esta é uma visualização das condições meteorológicas globais, projetada por supercomputadores, atualizada a cada três horas, aah, correntes de superfície do oceano são atualizadas a cada cinco dias, etc … Pode-se ir para baixo e dá-lhe informações sobre quem está a fazer … quem criou o software, as fontes de dados de onde vêm, o computador hospedeiro das informações, informações sobre os níveis de pressão, 1000 hectopascais (hPa), isto é a cerca de 100 metros (m), condições próximas do nível do mar … O importante são os 250hPa, é muito importante; é onde as correntes de jato estão, sobe-se para a estratosfera e assim por diante; à medida que se sobe a pressão diminui. Também se pode obter informações sobre todos os outros parâmetros, como a forma como as ondas são medidas, a concentração de CO2, etc, aerossóis … Toda a informação está nesta página. Para voltar, clicar em “earth” outra vez o que nos traz de volta ao globo. Agora, vamos passar por alguns dos menus e ver o que existe, primeiro que tudo. Também informa que estamos a olhar para o vento na superfície, diz-nos a data dos dados … … em que os dados são recolhidos, então, é basicamente em tempo real. Hoje são 7 de Abril, diz-lhe 20:00 hora local … São dados da GFS, dados da Global Forecast System, do US National Weather Service, do National Center for Environmental Prediction… O que você pode fazer é … Além disso, o controle. Estamos a olhar para os dados de agora e pode-se ir para trás ou para a frente, Então, se formos aqui, que é o dia antes, vêm, ele faz scroll para o dia antes, e pode-se continuar a rolar para voltar um dia inteiro … Se se clicar na seta menor volta-se atrás uma hora, e pode-se desligar a animação, a qual é a animação da … desculpem-me, pode-se desligar aqui e isso tira a animação do vento e apenas vemos esta imagem, ou pode-se ligar a animação. Assim, as cores, os níveis, sobressaem mais quando se tem a animação desligada. Pode-se ver o ar, o oceano, a química e partículas, e estas são as altitudes na atmosfera, logo, se queremos olhar para a corrente de jato, por exemplo, vamos para os 250hPa, que são 250milibars, e é essa a altitude das correntes de jato. Se simplesmente clicarmos em “earth”, outra vez, desligamos o menu, e podemos ver o que está a acontecer com o jet-stream. Assim, se formos … Se formos para a América do Norte, por exemplo, e olharmos para o que os jatos estão a fazer, podemos ver a imagem da América do Norte por baixo e podemos ver o que está a acontecer com a ondulação dos jatos. As correntes de jato movem-se de uma forma zonal de Oeste para Este e isso é por causa da rotação da Terra. As coisas desviam-se para a direita no Hemisfério Norte, então, o ar que se move para cima desde o Equador desvia para a direita, concentra-se a uma altitude de 11 km, em média, e obtemos o jetstream. Podemos ver o jato a dividir-se em duas passagens aqui, e isto é uma grande calha aqui, esta é uma grande crista aqui, então o ar seco e quente sobe para a crista aqui ar mais estável, de alta pressão, quente, e obtém-se ar frio e baixas pressões tempestuosas nas calhas da corrente de jato. Assim, a corrente de jato é como uma barreira entre o ar frio do Ártico e o ar mais quente e húmido mais a sul. Pode-se ver que o … se se diminuir o zoom aqui, pode-se ver o que o jato está a fazer, está muito ondulada e distorcida e fragmentada. Estamos agora na estação de transição, entre o inverno e o verão no Hemisfério Norte. O Ártico é extremamente quente. Como vemos a temperatura? Podemos ver a temperatura, clicando em “earth”, indo a “ar”, olhando para a superfície, olhando para a temperatura aqui. OK, então isto está a mostrar a temperatura, e pode-se verificar isso, pode-se clicar sobre estas áreas … É muito frio nas áreas roxas, mas vejam este ar quente vindo aqui para cima, então, isto são 6,2 grau Celsius (°C) … acima de zero, indo para cima direitinho para o Ártico, e pode-se relacionar isso com a corrente de jato. Se se voltar a superfície, vento, pode-se ver… não se pode ver muita coisa a acontecer ali, os jatos estão a fazer reviravoltas aqui. Mas geralmente pode-se relacionar essas excursões com onde o jato está, talvez por isso o ar quente … pode-se ver ar quente a ser arrastado aqui para cima, atravessando aqui. Isto é o que está a acontecer agora, poderia ter sido arrastado até lá um pouco mais cedo e é por isso que está particularmente quente naqueles lados. Há muitos outros fatores aqui, pode-se ir para cima meio caminho através da atmosfera, cerca de 500 milibares. Então, pode-se fazer muitas coisas com o ar. Pode-se também ter diferentes pontos de vista, e então, se formos aqui … podemos ver a Terra nesta visão expandida aqui. Assim consegue-se ver os jatos claramente aqui, pedaços que saem do jato, e pode-se ver como estão muito fraturados e divididos, que está a tornar-se mais e mais … normal, se quiserem, no nosso período de mudança climática brusca para um planeta muito mais quente. Há muita luta de puxões a acontecer entre o ar quente e o frio. Há também outros pontos de vista por onde podem olhar que são muito estranhos e esquisitos, não são usados com muita frequência, mas apenas para saberem que estão lá, projeções diferentes, por exemplo, e … são usadas dependendo do que se está a analisar, mas, principalmente, vamos apenas usar este aqui, que é muito útil, e a projeção sobre um plano 2D, e aqui é o globo, que eu prefiro. Estas sobreposições: vento, temperatura, humidade relativa … se não estiverem seguros do que são, mantenham o rato sobre eles. Densidades instantâneas de energia eólica — quanta energia existe nos ventos. Água Precipitável Total; basta passar com o rato para obter a leitura. Água Condensável Total … Desculpem, Água Total nas Nuvens, pressão média ao nível do mar. Isto é algo chamado de Índice de Miséria, que combina temperatura e humidade. Portanto, se o Índice de Miséria for alto, obviamente, não vão quer ficar lá fora muito tempo. Vamos dar uma olhada no que está a acontecer no oceano. Então, se eu clicar em “Ocean” aqui, … e olharmos para as correntes, e olharmos para a temperatura da superfície do mar, isso dá-nos a temperatura dos oceanos, Então, o que se pode fazer é … pode-se ver que o El Niño ainda está a acontecer aqui no Pacífico, a água quente está aqui mas está a espalhar-se; este costumava estar tudo roxo. Como sabemos? Podemos voltar atrás no tempo … Ao irmos aqui e apenas clicando aqui atrás e voltamos no tempo; então, são 5 dias mais cedo, 5 dias antes disso, 5 dias antes disso, vamos continuar a voltar um pouco atrás e pode-se ver como a temperatura da superfície do mar está a mudar. Na realidade, é muito mais claro se se olhar para a anomalia da temperatura de superfície do mar. Esta é a temperatura do oceano neste dia e hora em particular, e é a anomalia em relação ao que seria normalmente, a média a longo prazo. Consegue-se ver esta área, é 2,6°C mais quente do que o normal. E se se voltar atrás um pouco mais pode-se ver … a água quente, de modo que o El Niño estava muito mais forte no início do ano, pode-se ver que há muito mais amarelo, estava muito mais quente e voltamos atrás … e tem enfraquecimento em força, e tem vindo a espalhar-se … sim, aqui vamos nós, então, está muito, muito forte, OK? Estamos apenas a voltar aos dias anteriores, e por isso estamos a ver um El Niño muito poderoso aqui. Toda esta área até 3,5 graus mais quente do que o normal … O que é interessante é que pode-se ver também aqui no Pacífico Norte, pode-se ver que há alguma água fria aqui, isto é água quente, temos uma mancha de água quente aqui, a qual contribuiu para a seca da Califórnia. E se formos para a frente no tempo, podemos ver o que está a acontecer e, na verdade, esta água fria que está a sair do Estreito de Bering está a infiltrar-se no Pacífico, em grande medida, e está de facto a expandir-se em área e expandindo a região que ela abrange. Estou apenas a clicar; estamos no 23 de Fevereiro … Podemos ver isto a ficar maior … Então, podemos fazer um monte de, tipo, fazer perguntas e tentar respondê-las para vermos o que está a acontecer ao longo do tempo na Terra. OK? E então, assim que encontrarem alguma coisa interessante … olhem para esta água fria aqui. Isto está quase 3 graus mais frio do que o normal e ainda há água muito quente aqui em cima ao longo da costa e ainda temos este forte El Niño em curso. E vamos continuar aqui … em Março … lembrem-se, a cada 5 dias é atualizado, e pode-se ver a extensão desta … Aqui vamos nós, os dados mais recentes. Então, temos água muito fria a sair e temos a água muito quente do El Niño que se está se espalhar para latitudes mais altas e mais baixas à medida que o ciclo do El Niño se aproxima do final. Vamos olhar para outra região do planeta. Vamos olhar para o … Vamos olhar para esta mancha fria no Oceano Atlântico, a sul da Gronelândia, e vamos ver como isso evolui ao longo do tempo. Então, isto é onde estamos agora … Se tentarem ir para a frente no tempo, ele diz que “não há dados”, então não há dados para esse dia, então … O último dia que temos dados é há alguns dias atrás. Então, vemos a Corrente do Golfo muito quente a atravessar-se aqui, 7 graus mais quente do que o normal, existem algumas áreas aqui que estão 10 graus, podem expandir e encontrá-las, mas também vemos esta colisão da água quente da Corrente do Golfo e temos a água fria proveniente de … descendo através do Estreito de Nares, deste lado da Gronelândia; também temos água fria chegando aqui, e temos alguma água quente aqui, que creio ser proveniente de rios … parece estar a atravessar, na verdade consegue-se voltar atrás e ver de onde está a vir. Então, vamos dar uma olhada, vamos começar a recuar um pouco. Então, se voltar no tempo … Olhem para esta água aqui. Há um choque … Olhem para esta água aqui; este é um segmento muito frio aqui, 7,2°C mais frio que o normal, e aqui temos água que está 8 graus mais quente que o normal, praticamente, e 7 graus. Então, de facto encontrei uma área onde estava 10 graus mais quente do que o normal, de modo que é uma diferença de 17 graus. Há esta mancha de água fria, e de onde é que isso veio? Bem, é água que está a descer daqui e depois foi cortada pela corrente do golfo. – continua –Recolher Transcrição[/expand]

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James Hansen

James Hansen: Derretimento do Gelo, Aumento do Nível do Mar e Supertempestades

Vídeo legendado de James Hansen resumindo o seu estudo mais recente sobre o degelo, a subida do nível do mar e super-tempestades no Atlântico.

Conteúdo traduzido do original Ice Melt, Sea Level Rise and Superstorms Video Abstract.

[expand title=”Transcrição:” swaptitle=”Recolher Transcrição” trigclass=”noarrow” tag=”div” id=”com-hansenestudo”]

James Hansen: Derretimento do Gelo, Aumento do Nível do Mar e Supertempestades

Olá! Sou Jim Hansen, diretor do Programa de Consciencialização para a Ciência Climática e Soluções pelo Instituto da Terra da Universidade de Columbia. Quero discutir algumas implicações do artigo Derretimento do Gelo, Elevação do Nível do Mar & Supertempestades que foi publicado no Atmospheric Chemistry and Physics um artigo no qual tenho 18 excepcionais co-autores americanos e internacionais. Descobrimos informações num entendimento parcial dos feedbacks no sistema climático, especificamente interações entre o oceano e os mantos de gelo. Estes feedbacks levantaram questões sobre daqui a quanto tempo vamos passar pontos de não retorno nos quais trancamos consequências que não podem ser revertidas em nenhuma escala de tempo que as pessoas se preocupem. As consequências incluem aumento do nível do mar em vários metros o qual estimamos que possa ocorrer este século, ou, o mais tardar, no próximo século, se as emissões de combustíveis fósseis continuarem a um nível elevado. Isso significaria a perda de todas as cidades costeiras, a maioria das grandes cidades do mundo e toda a sua história. Uma ameaça mais imediata é a probabilidade de paralisação das circulações de reversão dos oceanos no Atlântico Norte e Oceanos do Sul. É aí que as supertempestades entram. Deixe-me explicar. Nós usamos modelagem climática, dados do paleoclima – que é a antiga história do clima – e observações modernas do oceano e das camadas de gelo para estudar os efeitos do derretimento do gelo nas camadas de gelo na Groenlândia e da Antártida. Toneladas de gelo que se estendem desde a Antártida ao Oceano Antártico. A Gronelândia e a Antártida estão a começar a derreter devido ao aquecimento global. Até agora, é apenas uma pequena fração minúscula das camadas de gelo que derreteu. Contudo, esta água fresca do derretimento que corre para o Atlântico Norte e para o Oceano Antártico, já está a ter efeitos importantes. Concluímos que a água fresca e leve adicionada às camadas superiores do oceano já está a começar a desligar a formação de águas profundas no Atlântico Norte e a formação de águas de fundo na Antártida. Isto terá consequências enormes em décadas futuras se se permitir que ocorra uma paralisação completa. O IPCC das Nações Unidas, o Painel Intergovernamental para a Mudança do Clima, não relata esses efeitos, por duas razões: Em primeiro lugar, a maioria dos modelos utilizados pelo IPCC simplesmente excluem o derretimento do gelo. Em segundo lugar, concluímos que a maioria dos modelos, incluindo o nosso, são menos sensíveis do que o mundo real à água fresca adicionada. Porque a maioria dos modelos têm mistura oceânica de pequena escala excessiva, o que reduz o efeito. A manifestação à superfície do abrandamento das circulações profundas é o arrefecimento no Atlântico Norte a sudeste da Gronelândia e no Oceano Antártico. Estes arrefecimentos são proeminentes no nosso modelo até meados do século 21. Contudo, por múltiplas razões, concluímos que o mundo real responde mais rápido a água fresca do que os modelos o fazem. Primeiro, vamos observar que o arrefecimento do Atlântico Norte se a circulação de reversão se desligar por completo, vai ter grandes efeitos. Os trópicos continuam a aquecer com o aumento de CO2. Se a água fresca da Gronelândia desligar a formação de águas profundas e esfriar o Atlântico Norte em vários graus, o aumento do gradiente horizontal de temperatura irá conduzir super-tempestades, mais fortes do que qualquer uma nos tempos modernos. O inferno vai cair no Atlântico Norte e terras vizinhas. Tal situação ocorreu no último período interglacial 118 mil anos atrás. Os trópicos estavam cerca de um grau mais quentes do que hoje, porque o eixo de rotação da Terra estava inclinado menos do que hoje. Dados oceânicos dos núcleos de gelo mostram que a formação de águas profundas se desligou, o Atlântico Norte esfriou, e há evidência de super-tempestades poderosas durante esse tempo. Poderosas o suficiente para ondas gigantes lançarem mega pedregulhos de mil toneladas para a costa nas Bahamas. Alguns cientistas acreditam que essas pedras podem ter sido arremessadas por um tsunami mas apresentamos várias linhas de evidência de que as pedras e outras características geológicas são melhor explicadas como o resultado de supertempestades. Um ponto importante é que se nós deixarmos que o derretimento do gelo da Gronelândia se torne grande o suficiente para desligar completamente o AMOC, a circulação de revolvimento do Atlântico, será permanente, tanto quanto ao público diz respeito. Leva vários séculos para o AMOC se mover novamente. Contudo, as super-tempestades não serão a consequência mais importante do aquecimento global, se continuar a crescer. O efeito mais importante será a subida do nível do mar. Também aqui, a análise mais completa deve ter em conta os dados do paleoclima, que mostra que os mantos de gelo, quando se desintegram, podem ir rapidamente, de forma não linear, produzindo uma elevação do nível do mar de vários metros num século. Mesmo quando o forçamento natural do clima é mais fraco do que o forçamento humano. Mostramos a partir de dados paleoclimáticos que a maioria dos modelos são mais letárgicos que o mundo real, nos quais há conhecimento de que o nível do mar aumentou rapidamente muitas vezes. Assim, ao invés de usar um modelo de camadas de gelo, simplesmente assumimos que quando o aquecimento ocorre accionado por um forçamento climático crescente, a taxa de fusão do gelo vai crescer de forma não linear. Testamos várias taxas alternativas de crescimento. O que encontramos são feedbacks amplificadores, justamente o que é necessário para alimentar o aumento não-linear do derretimento do gelo. A água do derretimento na Gronelândia reduz a densidade da água de superfície. Consequentemente, reduz o afundamento de água para o oceano profundo. À medida que a água do derretimento aumenta, ela desliga o transportador oceânico, como Wally Broecker lhe chama. Mais importante para o nível do mar é o que está a acontecer ao redor da Antártida. O afundar da água fria salgada pesada perto da costa da Antártida normalmente forma a água de fundo da Antártida, portanto, trazendo também água relativamente quente à superfície onde liberta calor para a atmosfera no espaço. Agora, à medida que a água fresca derretida do gelo das camadas de gelo da Antártida aumenta, ela tende a colocar uma tampa fria de baixa densidade sobre o Oceano Antártico. Isso reduz a troca com a superfície de modo que o calor permanece no oceano, aumentando a temperatura da água do mar à profundidade das plataformas de gelo um feedback amplificador. Na perspectiva global, as lentes de água doce fria ao redor da Antártida aumentam desequilíbrio energético do planeta. A energia adicional vai para o oceano, onde está disponível para derreter as plataformas de gelo. Estes feedbacks apoiam a nossa conclusão de que o degelo em resposta ao forte forçamento será não-linear. Estes feedbacks com a água do degelo a conduzir o aquecimento abaixo da superfície também nos ajudam a entender e ganhar uma imagem consistente das rápidas oscilações climáticas não-lineares no registo paleoclimático. Os dados do paleoclima deixam claro que quando as camadas de gelo derretem, elas podem ir rápido. Contudo, não sabemos o tempo característico para a resposta não linear da camada de gelo aos forçamentos climáticos crescentes. Eventualmente, modelos das camadas de gelo poderão dar-nos uma resposta, mas, por agora, o nosso melhor guia são observações. Infelizmente, os registros da crescente perda de massa anual pelas camadas de gelo são curtos. Os dados da Groenlândia podem caber tanto em tempos de duplicação de 10 anos como 20 anos, mas a Gronelândia já está a perder várias centenas de quilómetros cúbicos de gelo por ano. Feedbacks para a Gronelândia, com o seu derretimento de superfície, são diferentes dos da Antártida, mas existem vários feedbacks amplificadores. A resposta da Gronelândia para o aquecimento global será não-linear, mas provavelmente com um tempo de duplicação característico diferente. A perda de massa na Antártida é menor. A maioria do derretimento, até agora, é nas plataformas de gelo, As quais não aparecem na variação da massa em medições da gravidade por satélite. Contudo, à medida que as plataformas de gelo desaparecem, a descarga do gelo não flutuante vai acelerar. Se a perda de massa da camada de gelo tem um tempo de duplicação de dez anos, o aumento do nível do mar numa escala de metro seria alcançado em cerca de 50 anos, e o aumento do nível do mar em vários metros uma década mais tarde. Vinte anos de tempo de duplicação exigiria cerca de uma centena de anos. Os registos de dados são muito curtos, mas se esperarmos até que o mundo real se revele de forma clara, poderá ser tarde demais para evitar o aumento do nível do mar de vários metros e a perda de todas as cidades costeiras. Duvido que tenhamos passado um ponto de não retorno, mas, francamente, não temos certeza disso. Há um situação análoga, mas eu acredito mais iminente com a paralisação das circulações oceânicas de revolvimento. As regiões frias do sudeste da Gronelândia e em torno da Antártida são sinais do início do desligar da AMOC no Atlântico Norte e do SMOC no Oceano Antártico. Sabemos que os efeitos do degelo parecem estar a ocorrer uma ou duas décadas mais cedo no mundo real do que no nosso modelo. Por que é que os modelos são menos sensíveis às quantidades de hoje de água derretida nos oceanos? Nós apresentamos evidência de excessiva mistura do oceano de pequena escala em muitos modelos, incluindo no nosso. Um diagnóstico chave é o tempo de resposta do clima. Em 100 anos, o nosso modelo atinge apenas 60% da sua resposta de equilíbrio. Fui verificar outros três modelos climáticos principais, dois americanos e um britânico, encontrando uma resposta lenta similar. Contudo, temos mostrado que o grande desequilíbrio energético da Terra requer a resposta do clima de 100 anos para ficar em cerca de 75%, se a sensibilidade climática de equilíbrio for cerca de 3 graus Celsius como sugerem os dados paleoclimáticos. A explicação para o porquê da resposta de superfície ser tão lenta no modelo é que o oceano no modelo mistura o calor demasiado rapidamente para o oceano profundo. Esta mesma mistura excessiva faz com que os modelos sejam menos sensíveis aos membros de água doce na superfície do oceano, que também tendem a misturar rápido demais. Há outros dados além do desequilíbrio energético da Terra que apoiam esta interpretação, incluindo a sensibilidade do paleoclima ao forçamento da água fresca. Contudo, há um artigo recente que é especialmente importante, por Winton e co-autores em 2014, que mostrou que um modelo com uma resolução espacial de um décimo de grau, sensível o suficiente para resolver os movimentos do oceano em pequena escala e evitar a mistura parametrizada, produz uma resposta da temperatura de superfície cerca de um quarto maior após cinquenta a cem anos, o que é consistente com a nossa interpretação. Seria valioso se todos os modelos relatassem a sua função de resposta do clima de superfície bem como a sua sensibilidade ao equilíbrio climático, e examinassem a sensibilidade do modelo a uma taxa padrão rapidamente crescente de ejeção de água do degelo. A relevância é que eu acredito que já estamos a testemunhar o início deste arrefecimento no sudeste da Gronelândia e do arrefecimento ao redor da Antártida, em resposta à água fresca do derretimento do gelo. Nesse caso, o arrefecimento observado no sudeste da Gronelândia e o aquecimento adicional ao longo da costa leste dos Estados Unidos não são flutuações naturais. Quando o AMOC desacelera, causa ambos. Esta interpretação implica que a a água de derretimento da Gronelândia já está a ter efeitos significativos. A água quente ao longo da costa leste é a razão de o Sandy ter mantido ventos com força de furacão durante todo o caminho até à área de Nova Yorque. O Atlântico, nas proximidades, estava cerca de 3 graus Celsius mais quente do que o normal. Esta água do oceano invulgarmente quente também tem sido capaz de fornecer a humidade para as tempestades de neve recordes recentes. Estes são pequenos efeitos, em comparação com o que acontece se o AMOC se desliga completamente. Então a pergunta novamente: passámos um ponto de não retorno? É certo que o derreter do gelo aumente de modo que o desligamento do AMOC seja uma conclusão passada? Eu duvido, mas é concebível dependendo de quão rápido podemos abrandar o forçamento climático provocado pelo homem. Acho que a conclusão é clara. Estamos numa posição de potencialmente causar danos irreparáveis ​​aos nossos filhos, netos e gerações futuras. Esta é uma situação trágica, por ser desnecessária. Já podíamos ter suprimido gradualmente as emissões de combustíveis fósseis se apenas parássemos de permitir à indústria de combustíveis fósseis usar a atmosfera como uma lixeira livre para os seus resíduos. Se recolhêssemos uma taxa das empresas de combustíveis fósseis que aumentasse gradualmente, poderíamos passar progressivamente para a fase das energias limpas. Se bem feito, estimularia a economia e criaria empregos. Mas isso é uma história para outro dia, mas eu quero fazer um ponto final. Esta é uma história complexa, mas uma com implicações práticas importantes. Descubro que o público às vezes interpreta mal as nossas discussões da ciência, o como a pesquisa é feita. Ceticismo é a força vital da Ciência. Você pode ter certeza que muitos cientistas, na verdade a maioria dos cientistas, vai encontrar alguns aspectos no nosso longo estudo que iriam interpretar de forma diferente. Isso é perfeitamente normal. Leva tempo para que as conclusões sejam acordadas e os detalhes resolvidos. Então, depois de ter falado com um cientista sobre este tópico, pergunte-lhe a ele, ou a ela, uma pergunta final: “Você concorda que chegámos a uma situação perigosa?” “Você acha que podemos estar a aproximar-nos de um ponto de não retorno, uma situação em que nossos filhos herdarão um sistema climático passando por mudanças que estão fora do seu controlo, mudanças que irão causar-lhes danos irreparáveis? Essa é a linha de fundo. Muito obrigado pela atenção. O mais recente estudo do Dr. James E. Hansen, Derretimento do Gelo, Aumento do Nível do Mar e Supertempestades.Recolher Transcrição[/expand]

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James Hansen, Peter Sinclair

Painel All Star da Ciência Climática Deixa Cair uma Bomba de Estudo

O artigo bombástico cuja pré-publicação James Hansen lançou no verão passado passou agora a revisão para publicação, na revista Journal Atmospheric Chemistry and Physics. (grátis on-line)

O artigo é significante para os leitores deste blog porque, há um ano atrás, eu produzi um vídeo descrevendo observações no Atlântico Norte que são consistentes com uma das principais premissas do artigo, um abrandamento da Circulação de Revolvimento do Atlântico [também conhecida por circulação termoalina do Atlântico ou AMOC – Atlantic Meridional Overturning Circulation, em inglês] – com os cientistas Stefan Rahmstorf, Michael Mann, e Jason Box. Publiquei esse vídeo no fundo desta publicação.
O Dr. Mann é citado no Washingon Post, (abaixo) expressando algumas reservas quanto ao novo estudo, logo, há lá um espaço para acompanhamento.

Acima, na minha entrevista de dezembro, Hansen deu-nos uma rápida amostra. Em baixo, o seu novo vídeo [Legendado em Português] representa uma descrição mais detalhada e ilustrada.

PBS Nova:

Os oceanos do mundo poderiam subir catastroficamente tão cedo quanto em 50 anos a partir de agora, de acordo com um novo estudo publicado esta manhã em Atmospheric Chemistry and Physics.

Os pesquisadores por trás do papel – o Dr. James Hansen e 18 co-autores – olharam para o passado de há 120.000 anos atrás, a última vez que a Terra aqueceu aproximadamente na mesma medida que o aquecimento presente. (As temperaturas globais estão agora 1˚C, ou 1.8˚F, acima dos níveis pré-industriais.) Naquela época, o aquecimento natural libertou quase toda a água que estava trancada em camadas de gelo polares, aumentando os níveis do mar rapidamente em 20 a 30 pés.

Washington Post:

Um grupo de cientistas influente liderado por James Hansen, o ex-cientista da NASA muitas vezes creditado por ter chamado a primeira grande atenção para as alterações climáticas em 1988 num depoimento ao Congresso, publicou um estudo climático calamitoso que sugere que o impacto do aquecimento global será mais rápido e mais catastrófico do que geralmente previsto.

A pesquisa invoca colapso das camadas de gelo, mega-tempestades violentas e até mesmo o arremesso de pedregulhos por ondas gigantes, na sua procura por sugerir que até mesmo 2 graus Celsius de aquecimento global acima dos níveis pré-industriais seria demais. Hansen chamou-lhe o trabalho mais importante que ele alguma vez fez.

O artigo abrangente, com 52 páginas de comprimento e 19 autores, baseia-se em evidências da mudança climática antiga ou “paleo-climatologia,” assim como em experiências climáticas usando modelos de computador e algumas observações modernas. Chamar-lhe de “estudo” realmente não está bem correto. É, na verdade, uma síntese de uma ampla gama de evidências antigas e novas.

“Acho que quase toda a gente que está realmente familiarizada com ambas [evidências] paleo e modernas está agora muito preocupada por estarmos a aproximar-nos, se já não ultrapassámos, dos pontos em que teremos trancado mudanças realmente grandes para os jovens e as gerações futuras”, disse Hansen numa entrevista.

A pesquisa, aparecendo na terça-feira na revista de acesso aberto Atmospheric Chemistry and Physics, teve um caminho longo e controverso, tendo aparecido pela primeira vez como um “documento de discussão” na mesma revista, sujeito a revisão por pares on-line e ao vivo – uma nova mas cada vez mais influente forma de publicação científica. Hansen falou pela primeira vez à imprensa sobre a pesquisa no verão passado, antes deste processo estar concluído, levando a críticas por parte de alguns jornalistas e também de colegas cientistas de que ele poderia estar a saltar antes do tempo.

O que se seguiu foi um debate de alto nível, tanto por causa das reivindicações dramáticas como da formidável reputação de Hansen. E os seus numerosos co-autores, incluindo especialistas de gelo da Gronelândia e da Antártida e um líder do Painel Intergovernamental das Nações Unidas para a Mudança do Clima, não eram nada a desprezar.

Após downloads recordes do estudo e um intenso processo de revisão pública, uma versão revista do artigo foi agora aceite, de acordo com Hansen e Barbara Ferreira, gerente de mídia e comunicações para a União Geofísica Europeia [European Geophysical Union], a qual publica a Atmospheric Chemistry and Physics. De facto, o artigo está agora livremente disponível para leitura no site da Atmospheric Chemistry and Physics.

O artigo, de acordo com Ferreira, foi sujeito a “grandes revisões em termos de organização, título e conclusões.” Aquelas vieram em resposta a críticas que podem ser lidas publicamente no site da revista. O artigo também tem agora dois autores adicionais.

Mais notavelmente, talvez, o processo editorial levou à remoção do uso da frase “altamente perigoso”, no título do trabalho, para descrever o aquecimento do planeta em 2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais.

O título do artigo original era “Derretimento do gelo, elevação do nível do mar e supertempestades: evidência a partir de dados paleoclimáticos, modelagem climática, e observações modernas de que um aquecimento global de 2 °C é altamente perigoso.” O último título é “derreter o gelo, mar elevação do nível e supertempestades: evidência a partir de dados paleoclimáticos, modelagem climática, e as observações modernas que 2 ° C o aquecimento global poderia ser perigoso.”

Mas, mesmo assim, o cenário de catástrofe climática de James Hansen toma agora o seu lugar na literatura científica oficial, relativamente intacto. Logo, vamos ensaiar esse cenário, mais uma vez, para o registo.

Hansen e os seus colegas pensam que o derretimento de grande parte da Gronelândia e da Antártida pode não só acontecer bastante rápido – levando a tanto quanto vários metros de elevação do nível do mar no espaço de um século, dependendo da rapidez com que as taxas de derretimento duplicam -, como este derretimento irá ter consequências de mudanças climáticas dramáticas, além de simplesmente elevação dos níveis do mar.

Isso porque, postulam eles, a fusão irá causar uma “estratificação” dos oceanos polares. O que isto significa é que ela irá encurralar uma bolha de água doce fria do degelo no topo da superfície do oceano, com uma camada do oceano mais quente por baixo. Temos, realmente, visto uma possível pista para isto com a bolha anomalamente fria de água do oceano ao largo da costa sul da Gronelândia, a qual alguns atribuem ao derretimento da Gronelândia.

De fato, pouco antes da publicação do novo estudo, a National Oceanic and Atmospheric Administration [NOAA] lançou novos dados recentes sobre a temperatura do globo que, certamente, tem uma semelhança com aquilo de que Hansen está a falar. Pois não só esteve o globo com um calor recorde global durante os últimos três meses, como também mostrou manchas frias anómalas em regiões, as quais Hansen suspeita estarem a ser causadas ​​pelo derreter do gelo – abaixo da Gronelândia, e também ao largo da ponta da península Antártica.

Manchas de água doce fria ​pelo derreter do gelo abaixo da Gronelândia

Estratificação, a ideia-chave no novo estudo, significa que a água quente do mar chegaria potencialmente à base das camadas de gelo que assentam abaixo do nível do mar, derretendo-as a partir de baixo (e causando mais derretimento de gelo e, portanto, estratificação). Significa também, no artigo de Hansen, um abrandamento ou mesmo uma eventual paralisação da circulação de reversão no oceano Atlântico, devido a muito refrescar no Atlântico Norte ao largo e em torno da Gronelândia, e também a um enfraquecimento da outra circulação de reversão no Oceano Antártico.

Isto, por sua vez, causa arrefecimento na região do Atlântico Norte, para além de o aquecimento global criar uma região equatorial mais quente. Esse crescente diferencial de temperatura norte-sul, no estudo, impulsiona ciclones de latitude média, ou tempestades, mais intensos. O estudo sugere que tais tempestades podem disparar ondas oceânicas gigantescas, as quais podem até ser capazes de feitos como atirar pedregulhos em alguns locais, não muito diferente das rochas enormes vistas na ilha das Bahamas de Eleuthera, a qual visitei com Hansen e o seu co-autor, o geólogo Paul Hearty, em novembro.

Estas rochas desempenham um papel fundamental no novo estudo, tal como desempenharam no rascunho original do estudo. De facto, muito antes do artigo atual, Hearty havia documentado, em publicações revisadas por pares, que as rochas de Eleuthera parecem ter vindo do oceano e terem sido erguidas para cima de um cume costeiro. Isso parece ter acontecido durante um período de aquecimento passado, o Eemiano, cerca de 120.000 anos atrás, quando o planeta era apenas ligeiramente mais quente do que hoje, mas os mares eram muito mais elevados – mas a ideia é que algo assim poderia acontecer novamente.

Depósito de pedras em Eleuthera poderá estar relacionado com ondas oceânicas gigantescas

GREGORY TOWN, BAHAMAS – 21 DE NOVEMBRO: Os pedregulhos gigantes de Eleuthera que provocaram um grande debate entre os cientistas quanto à sua origem, tirado a 21 de Novembro de 2015, em Eleuthera, Bahamas. À esquerda está ‘The Bull’ (2000 toneladas) e à direita está ‘The Cow “(1000 toneladas). Medindo mais de 20 pés de altura, a teoria partilhada por Paul Hearty, um geólogo costeiro na Universidade da Carolina do Norte em Wilmington, é que as pedras enormes foram catapultadas para terra por uma série de tempestades intensas. Elas agora assentam delicadamente empoleiradas no cume costeiro em Eleuthera do Norte. (Fotos por Charles Ommanney / The Washington Post)

O artigo contém muitas ideias e pontos de partida, mas o ponto chave é a sua sugestão da possibilidade de uma maior elevação do nível do mar neste século do que o previsto pelo Painel Intergovernamental das Nações Unidas para as Alterações Climáticas.

“Os modelos que foram executados para o relatório do IPCC não incluíram o derretimento do gelo”, disse Hansen numa conferência de imprensa sobre o novo estudo, na segunda-feira. “E nós também concluímos que a maioria dos modelos, incluindo os nossos, têm uma mistura excessiva de pequena escala, e isso tende a limitar o efeito desta lente de água doce à superfície do oceano sobre degelo da Groenlândia e da Antártida.”

Michael Mann, um cientista climático da universidade Penn State familiarizado com o estudo original, comentou: “Tanto quanto posso dizer, as questões que me causaram preocupação originalmente ainda permanecem no manuscrito revisto. Nomeadamente, as quantidades projetadas de água do degelo parecem fisicamente grandes demais, e o componente oceânico do seu modelo não resolve sistemas atuais chave derivados do vento (por exemplo, a Corrente do Golfo) que ajuda a transportar calor em direção aos pólos. Isso torna as temperaturas do hemisfério norte no seu estudo muito sensíveis a mudanças na circulação de reversão meridional Atlântica”, o nome científico para a circulação oceânica no Atlântico que, o estudo sugere, pode parar.

New York Times:

O estudo identifica um mecanismo específico o qual os cientistas dizem que acreditam que poderia ajudar a causar uma mudança climática abrupta.

A sua ideia é que a fusão inicial das grandes camadas de gelo vai colocar uma tampa de água relativamente doce nas superfícies do oceano perto da Antártida e da Gronelândia. Isso, eles pensam, irá abrandar ou até mesmo desligar o sistema de correntes oceânicas que redistribui o calor em torno do planeta e permite que uma parte dele escape para o espaço.

O calor irá, então, acumular-se nas partes mais profundas do oceano, os cientistas pensam, acelerando o derretimento das partes das camadas de gelo que ficam abaixo do nível do mar. Além disso, uma diferença de temperatura mais ampla entre os trópicos e os pólos irá incentivar poderosas tempestades. O artigo cita evidências, em grande parte contestada, de que imensas tempestades aconteceram durante o período quente de há 120.000 anos atrás.

A ideia de uma paralisação na circulação dos oceanos devido ao aquecimento global foi considerada há mais do que uma década atrás, e foi rejeitada pela maioria dos cientistas como improvável. Isso não impediu uma versão distorcida da ideia de se tornar a premissa do filme catastrófico “O Dia Depois de Amanhã”, lançado em 2004.

O novo estudo pode reabrir esse debate, forçando os cientistas a reexaminarem a ideia com os modelos climáticos de computador mais sofisticados que estão disponíveis hoje.

Mesmo os cientistas cautelosos com as conclusões do novo estudo relembram que o Dr. Hansen tem uma longa história de estar à frente da curva na ciência do clima. Como o Dr. Mann disse, “Acho que nós ignoramos o James Hansen na nossa conta e risco.”

Nota: a parte do NYTimes fala da paralisação da AMOC como sendo improvável, mas não menciona o estudo de Stefan Rahmstorf de há um ano atrás, com Mann e Box.

Traduzido do original All Star Science Panel Drops Bombshell Climate Paper de Peter Sinclair, publicado no blogue Climate Denial Crock of the Week, a 22 de Março de 2016.

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