Comparação das anomalias das temperaturas de 2016, 2015, 2014 e 2010
Peter Sinclair

O Pico de Temperatura deste Mês Significa o Quê?

Steve Sherwood e Stefan Rahmstorf em The Conversation:

As temperaturas globais para fevereiro revelaram um pico preocupante e sem precedentes. Esteve 1,35℃ mais quente do que a média de fevereiro para o período de linha de base usual de 1951-1980, de acordo com dados da NASA.

Esta é a maior anomalia quente de qualquer mês desde que os registos começaram em 1880. Excede em muito os recordes batidos em 2014 e novamente em 2015 (o primeiro ano em que a marca de 1℃ foi ultrapassada).

No mesmo mês, a cobertura de gelo marinho do Ártico atingiu o seu valor mais baixo para fevereiro jamais registado. E a concentração de dióxido de carbono na atmosfera no ano passado aumentou mais de 3 partes por milhão, outro recorde.

O que é que se passa? Estamos diante de uma emergência climática?

Toca a acordar
Toca a acordar! Situação de emergência de aquecimento global com pico de temperatura de fevereiro

Desvio da média de 1951-1980 das temperaturas para fevereiro entre 1880 e 2016

Temperaturas de fevereiro de 1880 a 2016, a partir de dados da NASA GISS. Os valores são desvios do período base de 1951-1980. Stefan Rahmstorf

O El Niño e a Mudança Climática

Duas coisas que se estão a combinar para produzir o calor recorde: a tendência de aquecimento global que nos é bem conhecida causada pelas nossas emissões de gases de efeito estufa, e um El Niño no Pacífico tropical.

O registo mostra que o aquecimento da superfície global foi sempre sobreposto pela variabilidade climática natural. A maior causa dessa variabilidade é o ciclo natural entre as condições de El Niño e La Niña. O El Niño em 1998 bateu os recordes, mas agora temos um que parece ser ainda maior em algumas medidas.

O padrão de calor em fevereiro mostra assinaturas típicas tanto do aquecimento global a longo prazo como do El Niño. Este último é muito evidente nos trópicos.

Mais ao norte, o padrão é semelhante a outros fevereiros desde o ano 2000: um aquecimento particularmente forte no Ártico, Alasca, Canadá e no norte do continente Euro-Asiático. Outra característica notável é uma bolha fria no Atlântico Norte, que tem sido atribuída a um abrandamento na Corrente do Golfo.

O pico de aquecimento de Fevereiro trouxe-nos pelo menos 1,6℃ acima dos níveis pré-industriais das temperaturas médias globais. Isto significa que, pela primeira vez, ultrapassámos a meta aspiracional internacional de 1,5℃ acordada em dezembro, em Paris. Estamos a chegar desconfortavelmente perto de 2℃.

Felizmente, isto é temporário: o El Niño está a começar a diminuir.

Infelizmente, fizemos pouco quanto ao aquecimento subjacente. Se não for controlado, isso fará com que esses picos aconteçam mais e mais vezes, com um pico maior que 2℃ a estar talvez apenas a um par de décadas de distância.

Os gases de efeito estufa que aquecem lentamente a Terra continuam a aumentar em concentração. A média de 12 meses ultrapassou as 400 partes por milhão mais ou menos há um ano – o nível mais alto em pelo menos um milhão de anos. A média subiu ainda mais rápido em 2015 do que nos anos anteriores (provavelmente também devido ao El Niño, pois isso tende a trazer seca para muitas partes do mundo, o que significa que menos carbono é armazenado no crescimento de plantas).

Um lampejo de esperança é que as nossas emissões de dióxido de carbono dos combustíveis fósseis, pela primeira vez em décadas, pararam de aumentar. Esta tendência tem sido evidente ao longo dos dois últimos anos, principalmente devido a um declínio do uso do carvão na China, que anunciou recentemente o encerramento de cerca de 1.000 minas de carvão.

Temos subestimado o aquecimento global?

Será que o “pico” muda a nossa compreensão do aquecimento global? Ao pensar sobre a mudança climática, é importante adotar uma visão de longo prazo. Uma situação tipo La Niña predominante nos últimos anos não significou que o aquecimento global tinha “parado”, como algumas figuras públicas estavam (e provavelmente ainda estão) a reivindicar.

Da mesma forma, um pico quente devido a um grande evento El Niño – mesmo que surpreendentemente quente – não significa que o aquecimento global tenha sido subestimado. No longo prazo, a tendência de aquecimento global está muito bem de acordo com as previsões de longa data. Mas essas previsões, no entanto, pintam um retrato de um futuro muito quente se as emissões não forem reduzidas em breve.

A situação é semelhante à de uma doença grave como cancro: o paciente normalmente não fica ligeiramente pior a cada dia, mas tem semanas em que a família pensa que ele pode estar a recuperar, seguidas de dia terríveis de recaídas. Os médicos não mudam o seu diagnóstico de cada vez que isso acontece, porque eles sabem que isto faz tudo parte da doença.

Embora o corrente pico derivado do El-Niño seja temporário, vai durar tempo suficiente para ter algumas consequências graves. Por exemplo, um evento maciço de branqueamento de coral parece provável na Grande Barreira de Corais.

Aqui na Austrália temos vindo a bater recordes de calor nos últimos meses, incluindo 39 dias seguidos em Sydney acima de 26℃ (o dobro do recorde anterior). As notícias parecem estar centradas no papel do El Niño, mas o El Niño não explica por que os oceanos ao sul da Austrália, e no Ártico, estão em temperaturas altas recorde.

A outra metade da história é o aquecimento global. Isto está a impulsionar cada El Niño sucessivo, juntamente com todos os seus outros efeitos sobre as camadas de gelo e o nível do mar, o ecossistema global e eventos climáticos extremos.

Esta é a verdadeira emergência climática: está a ficar mais difícil, a cada ano que passa, para a humanidade evitar que as temperaturas subam acima de 2℃. Fevereiro devia lembrar-nos o quão urgente é a situação.

Traduzido do original What Does This Month’s Temp Spike Mean? de Peter Sinclair, publicado no blogue Climate Denial Crock of the Week, a 16 de Março de 2016.
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Ártico, Distorção Social, Metano

Royal Society Despreza Cientistas do Ártico e Suas Importantes Pesquisas

Há alguns dias, ocorreu uma importante reunião da Royal Society que apresentou pesquisas importantes sobre o estado atual do Ártico. Intitulado de “Redução do gelo do mar do Ártico: a evidência, os modelos e impactos globais”, o evento foi realizado em Londres, Inglaterra. Foi publicitado como um “encontro de discussão científica organizado pelo Dr. Daniel Feltham, Dr. Sheldon Bacon, Dr. Mark Brandon e o Professor (emérito) Julian Hunt FRS.”

Interesses poderosos parecem estar a colocar-se no caminho de importantes pesquisas sobre metano e um Ártico a minguar. "Dra. Shakhova Sobre o Ártico: 'Então tudo, tudo, parece anómalo. Até após a nossa experiência nestes 10 anos, tudo parece anómalo. E isso é que o (Dr. Semiletov) faz pensar que o pior poderá acontecer." "Resumindo, nós não gostamos do que estamos a ver lá, absolutamente Não Gostamos.'" - Natalia Shakhova

Interesses poderosos parecem estar a colocar-se no caminho de importantes pesquisas sobre metano e um Ártico a minguar.
“Dra. Shakhova Sobre o Ártico: ‘Então tudo, tudo, parece anómalo. Até após a nossa experiência nestes 10 anos, tudo parece anómalo. E isso é que o (Dr. Semiletov) faz pensar que o pior poderá acontecer.” “Resumindo, nós não gostamos do que estamos a ver lá, absolutamente Não Gostamos.'” – Natalia Shakhova

Os apresentadores e participantes incluíam uma lista de mais de 200 cientistas climáticos importantes de diferentes partes do mundo. Podia-se supor a partir da lista de workshops que esta conferência estava a ser realizada para falar e discutir a perda crítica de gelo que estamos a ver no Ártico, e que o propósito da reunião seria o de incluir todos e quaisquer dados relevantes para este evento nunca antes visto na história da humanidade. As pessoas que seguem a rápida perda de gelo do Ártico e todos esses dados podiam até ser perdoados por sentimentos de excitação e esperança que pelo menos alguém está “a trabalhar nisso.” Poderíamos ter assumido que a comunicação era um dos objetivos, especialmente já que a conferência foi twittada em largo, mesmo de dentro da conferência. Após os tweets poderíamos também ter assumido que as pessoas na conferência pretendiam partilhar informação que era importante não apenas sobre a mudança climática mas também a perda de gelo do mar Ártico.

Tal conferência soa como uma grande idéia, não é? Poderíamos ter um motivo de esperança e os organizadores pareciam transparentes, indo mesmo tão longe como twittar planos. Mas tais premissas e pressupostos teriam sido mal colocados. Em vez disso, o que aconteceu se transformou no que tem sido chamado de desprezo de cientistas pela Royal Society: desenvolveu-se um alvoroço tanto no meio científico como na Internet, e já levantou sérias questões. A questão principal foi que os cientistas de ponta Dra. Shakhova e Dr. Semiletov nem sequer foram convidados para apresentar ou discutir as suas descobertas muito recentes sobre o gelo do mar Ártico e libertações de metano.

Quem são eles e o que eles tinham a oferecer a esta conferência? Talvez tenha sido um “acidente” não terem sido convidados? Talvez eles apenas não estivessem na lista de convidados? Ou, se eles não foram deliberadamente convidados, qual poderia ser a razão?

Ao que parece, a Dra. Shakhova e o Dr. Semiletov tinham acabado de voltar de uma expedição crucial ao Ártico. A expedição Swerus C3 foi conduzida a bordo do navio quebra-gelo Oden. O objetivo era coletar dados sobre o Ártico, em particular no que concerne hidratos de metano e interação de sistemas.

A Expedição SWERUS-C3

Tripulação e Investigadores da Expedição Swerus C3

Tripulação e Investigadores da Expedição Swerus C3

SWERUS-C3 é uma cooperação Sueco-Russo-Norte-americana de duas etapas que vai investigar as ligações entre o clima, a criosfera e o carbono. A etapa número 1 da expedição partiu de Tromsø, na Noruega, no dia 5 de Julho e viajou ao longo da costa russa do Ártico para chegar a Barrow, Alasca, onde uma permuta de pessoal de investigação e tripulação ocorreu a 20 de Agosto. A 21 de Agosto a SWERUS-C3 partiu na sua viagem de volta para Tromsø, desta vez sobre o desfiladeiro Lomonosov, uma cadeia montanhosa submarina.”

“Durante a segunda etapa da expedição, estudámos a água quente do Atlântico que flui para o Oceano Ártico e deixa marcas em profundidades de 900 metros, bem como as enormes faixas no fundo do oceano deixadas por camadas de gelo anteriores encontradas no centro do Oceano Ártico”, diz Martin Jakobsson, professor na Universidade de Estocolmo e cientista-chefe na Etapa número 2. Ele continua: “O material permitirá fornecer novas perspectivas sobre o desenvolvimento e história do gelo do mar Ártico, bem como sobre a estabilidade dos hidratos de gás ao longo da plataforma continental do Ártico.”

As descobertas no Ártico não têm sido particularmente reconfortantes; na verdade, elas anunciam um cenário terrível. Um comunicado de imprensa da Universidade de Estocolmo descreveu que eles descobriram: “vastas colunas de metano escapando do leito marinho no talude continental de Laptev. Esses vislumbres iniciais daquilo que pode estar reservado para um aquecimento do Oceano Ártico poderá ajudar os cientistas a projetarem as emissões futuras do forte gás de efeito estufa, metano, a partir do Oceano Ártico.”

Tudo isto poderia ser lido como uma mera disputa diplomática ou conflito de carreiras entre cientistas, ou algum tipo de drama de televisão a acontecer numa conferência obscura de nomes menos que conhecidos, então por que haveria de estar o leitor comum interessado no que isto tem a ver com a vida na Terra?

Tem de facto tudo a ver com cada ser que habita este planeta. Para colocar em contexto: os eventos no Ártico estão-se a tornar numa emergência planetária e estão-se a desenvolver à medida que você lê isto. O ponto chave é o colapso total do gelo do mar Ártico, semelhante ao nosso ar condicionado planetário ir kaput. Por favor, veja a surpreendente imagem da Espiral de Morte do Ártico, do site http://climatestate.com/, para ver o quão pouco gelo do Ártico resta: Espiral de Morte do Ártico 1979-2013 (Declínio do gelo do mar / degelo)

A espiral de morte do Ártico, mostra a dimensão da área do gelo no Ártico, com o período de maior degelo em Setembro. Está previsto o seu desaparecimento total pela primeira vez em 2018.

A espiral de morte do Ártico, mostra a dimensão da área do gelo no Ártico, com o período de maior degelo em Setembro. Está previsto o seu desaparecimento total pela primeira vez em 2018.

Palavras-chave: Emergência Planetária.

Um artigo recente no USA Today intitulado ‘Estudo: Terra no meio da sexta extinção em massa’, declarou: “A perda e declínio de animais por todo o mundo – causado pela perda de habitat e perturbação climática global – significa que estamos no meio de uma sexta “extinção em massa” da vida na Terra, de acordo com vários estudos saídos na quinta-feira na revista Science. Um estudo descobriu que, apesar de a população humana ter duplicado nos últimos 35 anos, o número de animais invertebrados – como besouros, borboletas, aranhas e vermes – diminuiu em 45% durante o mesmo período.” Simples pesquisas Google sobre o tema permitem descobrir uma adição recente de muitos desses artigos no mesmo tema.”

Para ser clara, tenho o maior respeito pela comunidade científica e pelo que eles têm contribuído para o avanço da ciência. Eu entrevistei alguns, e ajudei a dar voz ao trabalho de cientistas, professores, educadores e especialistas: Eu acredito numa comunicação aberta. Acredito que quando há um problema enorme como neste caso da nossa emergência planetária ou 6º “evento de extinção” em massa, precisamos de todas as mãos no convés, especialmente os que estão aí fora na linha de frente. A Dra. Shakhova e o Dr. Semiletov são dois deles.

De acordo com modelos de computador, o nosso ar condicionado do Ártico deveria permanecer intacto e funcionar de forma eficaz por muitos anos. Anteriormente, o ano de 2100 foi referido como o ano em que veríamos realmente o inferno a soltar-se. Agora percebemos que esses modelos estavam mesmo fora. Na verdade, o nosso “ar-condicionado” está a auto destruir-se mais a cada minuto, causando uma corrente de jato sinuosa que já está a feder a devastação climática por todo o mundo: tufões, furacões, tornados e outros eventos catastróficos climáticos são mais comuns. De fato, a mudança climática já se tornou francamente desagradável. O que nos foi dito que não iria acontecer até muito mais tarde está realmente a acontecer agora.

Cientistas e governos percebem que temos um grande problema e começaram a fazer montes e montes de pesquisas no nosso ar condicionado do Ártico. Peritos foram enviados para ver o problema, a Dra. Shakhova e o Dr. Semiletov a bordo, e disseram-lhes para relatarem no regresso as suas descobertas.

O Problema

Os especialistas de ar condicionado que foram enviados para verificar o problema não foram convidados a participar no evento da Royal Society para relatarem as descobertas, nem mesmo discutirem a avaria do ar condicionado. Para ser justo, alguns deles foram chamados, incluindo o professor Peter Wadhams (embora outras questões importantes surgiram em relação ao Prof Wadhams também). No entanto, os únicos cientistas que foram chamados a apresentar um relatório sobre o problema foram os mesmos que têm vindo a utilizar os mesmos tipos de métodos conservadores de modelagem por computador que tradicionalmente têm provado estar seriamente atrasados na linha de tempo real seguida pelo gelo do Ártico.

Tem claramente sido seguro dizer que há anos que esses métodos de modelagem por computador são mais conservadores do que precisos, e que estão agora de fato fora e longe da marca de precisão. Mesmo alguém não-cientista pode ver claramente que há uma divisão profundamente séria entre as previsões de modelos conservadores e os eventos dramáticos de degelo dos dias atuais.

A Royal Society planeia uma conferência “comunicativa” sobre o gelo marinho do Ártico e deixa de fora os peritos que voltaram recentemente de uma expedição com risco de vida feita especificamente para analisar o problema. Enquanto isso, outros em cadeiras de escritório confortáveis ​​apenas trituram dados para ajudar na adivinhação de possíveis cenários problemáticos. A quem você escutaria? Você confiaria num só perito ou você chamaria tantos especialistas quanto possível para reunir recursos? Você sente-se seguro apenas a ouvir um lado da história, sem incluir observações do mundo real, dados e discussão?

Imagine por um momento que você é Shakhova e os seus colegas. Você foi enviado para observar e apresentar um relatório sobre o ar condicionado avariado. Você tem observado mudanças rápidas e quase inacreditáveis ​​que aconteceram nas suas expedições. Está a desfazer-se aos pedaços e a libertar metano. Você sabe que o metano é muitas vezes mais potente e poderoso do que o dióxido de carbono e pode causar muito mais dano à Terra se estiver a sair em grandes quantidades. Na verdade, você nunca viu tais alterações maciças em numerosas expedições anteriores. Está profundamente preocupado e precisa realmente de avisar outros envolvidos com o ar condicionado do Ártico para que saibam o que você viu.

Mas, quando a chance de falar sobre seus dados e observações surge, você não está convidado. A reunião muito importante continua sem você e nada do que você viu, documentou e observou irá tornar-se do conhecimento público. Você está chocado com esse desprezo, ou essa “exclusão”. Você quer poder dizer-lhes e, portanto, ao mundo o que está acontecendo. Você deseja soltar essas informações de modo que eles deixem outros saberem o que está a acontecer com o nosso ar condicionado do Ártico e os sintomas causados pelo seu derretimento.

Eu posso apenas imaginar como isso deve ter-lhe feito sentir, sentado nestes dados mais recentes e muito importantes e não poder compartilhar. Educadamente, porém, a Dra. Shakhova escreve uma carta sobre a sua exclusão, e pede para poder apresentar os seus dados e observações. Ela envia uma carta a Sir Paul Nurse da Royal Academy (via o jornalista de comunicação climática, Nick Breeze):

04 de Outubro de 2014
Por correio e e-mail

Caro Sir Paul Nurse,

Estamos satisfeitos por a Royal Society reconhecer o valor da ciência do Ártico e ter sediado uma importante reunião científica na semana passada, organizada pelo Dr. D. Feltham, o Dr. S. Bacon, o Dr. M. Brandon, e o Professor Emérito J. Hunt (https://royalsociety.org/events/2014/arctic-sea-ice/).

Os nossos colegas e nós temos estado a estudar a Placa Continental do Ártico da Sibéria Oriental [East Siberian Arctic Shelf (ESAS) há mais de 20 anos e temos conhecimento detalhado de observação das mudanças que ocorrem nesta região, como documentado por publicações em revistas de topo como a Science, a Nature e a Nature Geosciences. Durante estes anos realizámos mais de 20 expedições, em todas as estações do ano. que nos permitiram acumular um conjunto amplo e abrangente de dados consistindo em dados hidrológicos, biogeoquímicos e geofísicos, e proporcionando uma qualidade de cobertura que é difícil de alcançar, mesmo em áreas mais acessíveis dos Oceanos do Mundo.

Até o momento, somos os únicos cientistas que possuem dados observacionais de longo prazo em metano na ESAS. Apesar de peculiaridades na regulação que limitam o acesso de cientistas estrangeiros na Zona Económica Exclusiva da Rússia, onde a ESAS está localizada, ao longo dos anos temos recebido cientistas da Suécia, EUA, Holanda, Reino Unido e outros países para trabalharem ao nosso lado. A grande expedição internacional realizada em 2008 (ISSS-2008) foi reconhecida como o melhor estudo biogeoquímico do Ano Polar Internacional (2007-2008). O conhecimento e a experiência que acumulámos ao longo destes anos de trabalho lançaram as bases para uma extensa expedição Russo-Sueca a bordo do I/B ODEN (SWERUS-3), que permitiu a mais de 80 cientistas de todo o mundo colherem mais dados desta área única. A expedição foi concluída com sucesso apenas alguns dias atrás.

Para nossa consternação, não fomos convidados a apresentar os nossos dados na reunião da Royal Society. Além disso, esta semana descobrimos, através de um resumo Storify no twitter (divulgada pelo Dr. Brandon), que em vez foi o Dr. G. Schmidt convidado para discutir a questão do metano e explicitamente atacou o nosso trabalho utilizando o modelo de outro estudioso, cujo esforço de modelagem é feito com base em pressupostos teóricos não testados que não têm nada a ver com observações na ESAS. Enquanto o Dr. Schmidt tem experiência em modelagem climática, ele não é um especialista nem em metano nem nesta região do Ártico. Ambos os cientistas, portanto, não têm nenhum conhecimento observacional sobre metano e os processos associados nesta área. Lembremo-nos que o vosso lema “Nullus em verba” foi escolhido pelos fundadores da Royal Society para expressar a sua resistência ao dominação da autoridade; o princípio assim expresso exige que todas as reivindicações sejam apoiadas por fatos que tenham sido estabelecidos pela experiência. Em nossa opinião, não só as palavras mas também as ações dos organizadores traíram deliberadamente os princípios da Royal Society tal como expressos pelas palavras “Nullus em verba”.

Além disso, gostaríamos de destacar a parcialidade Anglo-Americana na lista de apresentadores. É preocupante que o conhecimento científico russo estava em falta e, portanto, marginalizado, apesar de uma longa história de notáveis ​​contribuições da Rússia para a ciência do Ártico. Sendo cientistas russos, acreditamos que o preconceito contra a ciência russa está a crescer devido a divergências políticas com as ações do governo russo. Isso restringe nosso acesso a revistas científicas internacionais, que se tornaram extremamente exigentes quando se trata de publicação de nosso trabalho em comparação com o trabalho dos outros sobre temas semelhantes. Temos consciência de que os resultados de nosso trabalho podem interferir com os interesses cruciais de algumas agências e instituições poderosas; no entanto, acreditamos que não era a intenção da Royal Society permitir que considerações políticas passem por cima da integridade científica.

Entendemos que pode haver debate científico sobre este tema crucial pois relaciona-se com o clima. No entanto, é parcial apresentar apenas um lado do debate, o lado com base em pressupostos teóricos e de modelagem. Em nossa opinião, foi injusto impedir-nos de apresentar os nossos dados com várias décadas, dado que mais de 200 cientistas foram convidados a participar em debates. Além disso, estamos preocupados que os procedimentos da Royal Society neste encontro científico virão a ser desequilibrados a um grau inaceitável (que é o que tem acontecido na mídia social).
Consequentemente, solicitamos formalmente a igualdade de oportunidades para apresentar os nossos dados perante vocês e outros participantes desta reunião da Royal Society sobre o Ártico e que vocês, como organizadores, abstenham-se de produzir quaisquer procedimentos oficiais antes de nós sermos autorizados a falar.

Sinceramente,
Em nome de mais de 30 cientistas,

Natalia Shakhova e Igor Semiletov

Entre as pessoas preocupadas que seguem isto de perto está o professor a tempo parcial Prof. Paul Beckwith, estudante de doutoramento da mudança climática abrupta. Beckwith oferece as suas preocupações sobre esta última série de eventos na Royal Society no seu vídeo mais recente: A little chat on methane [Uma pequena conversa sobre metano]

A última declaração de Beckwith sobre sua avaliação global da situação do Ártico e em que ponto estamos, também não é particularmente reconfortante: “O nosso sistema climático está atualmente a passar por estágios preliminares de uma mudança climática abrupta. Se permitido continuar, o sistema climático planetário é bem capaz de se submeter a um aumento da temperatura média global de 5°C a 6°C numa década ou duas. Precedência de mudanças numa taxa tão elevada podem ser encontradas inúmeras vezes nos paleo-registos. Da minha cadeira, eu concluo que é vital que cortemos as emissões de gases de efeito estufa e passemos por um programa intensivo de engenharia climática para resfriar a região do Ártico e manter o metano no seu lugar na permafrost e nos sedimentos oceânicos”. [Artigo do blogue ‘Alterações Climáticas’ traduzido do original que se encontra no blogue ‘Arctic News’]

Surgiu também um estudo de Lawrence Livermore Laboratory, que trouxe à tona notícias preocupantes sobre a questão do metano. Acesse aqui: Review of Methane Mitigation Technologies with Application to Rapid Release of Methane from the Arctic

No artigo de Lawrence Livermore Laboratory concluíram que:

“Na nossa avaliação de fontes sobre o metano no Ártico, descobrimos que permanecem lacunas significativas na compreensão dos mecanismos, da magnitude e da probabilidade de libertação de metano do Ártico. Nenhum autor afirmou que a libertação catastrófica de metano, por exemplo centenas de Gigatoneladas ao longo de anos a décadas fosse o desfecho esperado a curto termo. Mas até que os mecanismos sejam mais bem compreendidos, tal catástrofe não pode ser descartada. As provas são fortes de que o metano teve um papel nos eventos de aquecimento do passado, mas a fonte de libertação de metano e mecanismos específicos no aquecimento no passado não está ponto assente”.

“Enquanto a maioria dos autores indicaram que uma libertação catastrófica é improvável, uma libertação crónica, climaticamente significativa de metano do Ártico parece plausível. Tal libertação poderia prejudicar ou soterrar reduções graduais de emissões feitas noutros lugares e, assim, justificar intervenção tecnológica.”

Entretanto, esperamos com antecipação para ver qual a resposta da Royal Society, e se vamos poder ouvir quanto aos dados mais recentes de observações sobre o estado do Ártico por Shakhova e Semiletov. Eu, por exemplo, gostaria de saber tudo sobre como o ar condicionado do Ártico está indo realmente; você não?

Emergência Planetária Atualização

Enquanto escrevo o texto acima, um novo artigo é lançado: “É Pior Do Que Pensávamos” – Novo Estudo Descobriu que a Terra Está a Aquecer Mais Rapidamente do que o Esperado.” Um pequeno excerto: “No início desta semana, um novo estudo surgiu mostrando que o mundo estava realmente a aquecer muito mais rápido do que o esperado. O estudo, que focou sensores nos 2,000 pés do topo do Oceano Global, descobriu que as águas tinham aquecido a uma extensão muito maior do que os nossos modelos limitados, satélites e sensores haviam capturado. Particularmente o Oceano Antártico mostrou muito maior aquecimento do que o que foi anteriormente previsto”.

Muito obrigado a Julian Warmington, Professor Associado da BUFS, Busan University of Foreign Studies, por editar esta notícia.


Traduzido do original de Dorsi Diaz (Facebook / Twitter), publicado no Examiner.com

LINKS SUGERIDOS NO TEMA DE ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS, METANO E ÁRTICO

Mudança Climática em Aceleração

Água Quente Estende-se do Mar Laptev ao Polo Norte

Qual a Evidência Científica de Libertação de Metano no Ártico

(Cópia com tradução portuguesa e título “sensacional” adicionados, tirada do original com o título em Inglês “Methane Hydrates: Extended Interview Extracts With Natalia Shakhova”)

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