Comparação das anomalias das temperaturas de 2016, 2015, 2014 e 2010
Peter Sinclair

O Pico de Temperatura deste Mês Significa o Quê?

Steve Sherwood e Stefan Rahmstorf em The Conversation:

As temperaturas globais para fevereiro revelaram um pico preocupante e sem precedentes. Esteve 1,35℃ mais quente do que a média de fevereiro para o período de linha de base usual de 1951-1980, de acordo com dados da NASA.

Esta é a maior anomalia quente de qualquer mês desde que os registos começaram em 1880. Excede em muito os recordes batidos em 2014 e novamente em 2015 (o primeiro ano em que a marca de 1℃ foi ultrapassada).

No mesmo mês, a cobertura de gelo marinho do Ártico atingiu o seu valor mais baixo para fevereiro jamais registado. E a concentração de dióxido de carbono na atmosfera no ano passado aumentou mais de 3 partes por milhão, outro recorde.

O que é que se passa? Estamos diante de uma emergência climática?

Toca a acordar
Toca a acordar! Situação de emergência de aquecimento global com pico de temperatura de fevereiro

Desvio da média de 1951-1980 das temperaturas para fevereiro entre 1880 e 2016

Temperaturas de fevereiro de 1880 a 2016, a partir de dados da NASA GISS. Os valores são desvios do período base de 1951-1980. Stefan Rahmstorf

O El Niño e a Mudança Climática

Duas coisas que se estão a combinar para produzir o calor recorde: a tendência de aquecimento global que nos é bem conhecida causada pelas nossas emissões de gases de efeito estufa, e um El Niño no Pacífico tropical.

O registo mostra que o aquecimento da superfície global foi sempre sobreposto pela variabilidade climática natural. A maior causa dessa variabilidade é o ciclo natural entre as condições de El Niño e La Niña. O El Niño em 1998 bateu os recordes, mas agora temos um que parece ser ainda maior em algumas medidas.

O padrão de calor em fevereiro mostra assinaturas típicas tanto do aquecimento global a longo prazo como do El Niño. Este último é muito evidente nos trópicos.

Mais ao norte, o padrão é semelhante a outros fevereiros desde o ano 2000: um aquecimento particularmente forte no Ártico, Alasca, Canadá e no norte do continente Euro-Asiático. Outra característica notável é uma bolha fria no Atlântico Norte, que tem sido atribuída a um abrandamento na Corrente do Golfo.

O pico de aquecimento de Fevereiro trouxe-nos pelo menos 1,6℃ acima dos níveis pré-industriais das temperaturas médias globais. Isto significa que, pela primeira vez, ultrapassámos a meta aspiracional internacional de 1,5℃ acordada em dezembro, em Paris. Estamos a chegar desconfortavelmente perto de 2℃.

Felizmente, isto é temporário: o El Niño está a começar a diminuir.

Infelizmente, fizemos pouco quanto ao aquecimento subjacente. Se não for controlado, isso fará com que esses picos aconteçam mais e mais vezes, com um pico maior que 2℃ a estar talvez apenas a um par de décadas de distância.

Os gases de efeito estufa que aquecem lentamente a Terra continuam a aumentar em concentração. A média de 12 meses ultrapassou as 400 partes por milhão mais ou menos há um ano – o nível mais alto em pelo menos um milhão de anos. A média subiu ainda mais rápido em 2015 do que nos anos anteriores (provavelmente também devido ao El Niño, pois isso tende a trazer seca para muitas partes do mundo, o que significa que menos carbono é armazenado no crescimento de plantas).

Um lampejo de esperança é que as nossas emissões de dióxido de carbono dos combustíveis fósseis, pela primeira vez em décadas, pararam de aumentar. Esta tendência tem sido evidente ao longo dos dois últimos anos, principalmente devido a um declínio do uso do carvão na China, que anunciou recentemente o encerramento de cerca de 1.000 minas de carvão.

Temos subestimado o aquecimento global?

Será que o “pico” muda a nossa compreensão do aquecimento global? Ao pensar sobre a mudança climática, é importante adotar uma visão de longo prazo. Uma situação tipo La Niña predominante nos últimos anos não significou que o aquecimento global tinha “parado”, como algumas figuras públicas estavam (e provavelmente ainda estão) a reivindicar.

Da mesma forma, um pico quente devido a um grande evento El Niño – mesmo que surpreendentemente quente – não significa que o aquecimento global tenha sido subestimado. No longo prazo, a tendência de aquecimento global está muito bem de acordo com as previsões de longa data. Mas essas previsões, no entanto, pintam um retrato de um futuro muito quente se as emissões não forem reduzidas em breve.

A situação é semelhante à de uma doença grave como cancro: o paciente normalmente não fica ligeiramente pior a cada dia, mas tem semanas em que a família pensa que ele pode estar a recuperar, seguidas de dia terríveis de recaídas. Os médicos não mudam o seu diagnóstico de cada vez que isso acontece, porque eles sabem que isto faz tudo parte da doença.

Embora o corrente pico derivado do El-Niño seja temporário, vai durar tempo suficiente para ter algumas consequências graves. Por exemplo, um evento maciço de branqueamento de coral parece provável na Grande Barreira de Corais.

Aqui na Austrália temos vindo a bater recordes de calor nos últimos meses, incluindo 39 dias seguidos em Sydney acima de 26℃ (o dobro do recorde anterior). As notícias parecem estar centradas no papel do El Niño, mas o El Niño não explica por que os oceanos ao sul da Austrália, e no Ártico, estão em temperaturas altas recorde.

A outra metade da história é o aquecimento global. Isto está a impulsionar cada El Niño sucessivo, juntamente com todos os seus outros efeitos sobre as camadas de gelo e o nível do mar, o ecossistema global e eventos climáticos extremos.

Esta é a verdadeira emergência climática: está a ficar mais difícil, a cada ano que passa, para a humanidade evitar que as temperaturas subam acima de 2℃. Fevereiro devia lembrar-nos o quão urgente é a situação.

Traduzido do original What Does This Month’s Temp Spike Mean? de Peter Sinclair, publicado no blogue Climate Denial Crock of the Week, a 16 de Março de 2016.
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Aumento da Temperatura Recorde em 2015 - Kevin Trenberth - vídeo legendado em Português
Kevin Trenberth

Aumento da Temperatura Recorde em 2015 – Kevin Trenberth

para o século 20 as temperaturas estão altas cerca de 0.9 graus Celsius, ou algo assim. Então, quando se fala de um salto de 0.2°C, 0.2 é 20 porcento do aumento total do século passado inteiro, e tudo isso aconteceu neste último ano (2015).

Kevin Trenberth, PhD, é investigador sénior no Centro Nacional para a Pesquisa Atmosférica no Colorado.

Peter Sinclair é um videógrafo especializado em questões sobre Alterações Climáticas e soluções de energias renováveis. O senhor Sinclair produz as séries de vídeo “This is Not Cool”, para Yale Climate Connections. Ele produziu mais do que 100 vídeos nas séries “Climate Denial Crock of the Week”, uma resposta cientificamente rigorosa e satiricamente afiada aos muitos pedaços de informação errónea na ciência climática, e desinformação, frequentemente encontradas na Internet – os quais o senhor Sinclair chama de “Bobos climáticos – algo que Rush Limbaugh pode dizer em 10 segundos mas demora uma hora a desempacotar por um cientista honesto”.

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Aumento Recorde da Temperatura em 2015 – Kevin Trenberth

Haviam vários registos de superfície derivados de diferentes organizações, da NASA, da NOAA, do Met Office do Reino Unido e assim, e todos eles dão a mesma história: 2015 está a revelar-se como o ano mais quente no registo, de longe. Está um par de décimos de grau Celsius acima de tudo o que temos visto antes, e isso é muito. As mudanças normais que temos visto, então, 2014 era anteriormente o mais quente do registo mas, sabem, estava alguns centésimos de grau mais quente do que o mais quente anterior, que foi 2010, e assim por diante, e normalmente… o aumento global da temperatura agora, estimamos que seja acima de 1 grau Celsius desde os tempos pré-industriais. Agora, dos tempos pré-industriais, talvez no final dos anos 1800 até, não temos registos tão fiáveis, e então a maioria dos registos são mais viáveis… digamos após… para o século 20, e para o século 20 as temperaturas estão altas cerca de 0.9 graus Celsius, ou algo assim. Então, quando se fala de um salto de 0.2°C, 0.2 é 20 porcento do aumento total do século passado inteiro, e tudo isso aconteceu neste último ano. As flutuações normais de ano para ano com o El Niño têm uma amplitude máxima de mais ou menos o mesmo, logo, qualquer coisa acima de 0.2°C é aquilo que consideramos significante, logo um aumento de 1 grau na temperatura é altamente significante, está bem fora do intervalo de ±0.2°C que são esperados na variabilidade natural. Irá descer um pouco outra vez mas, creio que está propensa a manter-se elevada neste novo nível e tipo flutuar à volta de um novo nível. Este é o modo como tem sido no passado e penso que é isso que podemos esperar.
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