Mapa de seca e anomalia de precipitação por todo o globo.
Robertscribbler

Com as Temperaturas a Chegar aos 1,2ºC mais Quente do que o Pré-Industrial, a Seca Agora Abrange Todo o Globo

Jeff Goodell, um autor americano e editor na Rolling Stone, é conhecido por dizer o seguinte: “assim que começarmos deliberadamente a brincar com o clima, podemos inadvertidamente alterar os padrões de chuva (os modelos climáticos mostram que a Amazónia é particularmente vulnerável), causando o colapso de ecossistemas, seca, fome e mais.”

Estamos em processo de testar essa teoria. No caso da seca, que costumava ser apenas um assunto regional mas que agora se tornou global, Goodell parece ter acertado na mouche.

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De acordo com um relatório recente da Organização Meteorológica Mundial, a Terra está a caminho de atingir 1,2 graus Celsius mais quente do que as temperaturas pré-industriais durante 2016. Da subida do nível do mar, ao derretimento do gelo polar, a condições meteorológicas extremas, a um número crescente de pessoas deslocadas, este salto de temperatura está a criar impactos cada vez piores. Entre os mais vívidos destes está a extensão atual da seca global.

A Seca Global de Quatro Anos

Durante os anos de El Niño, as condições de seca tendem a expandir-se através de várias regiões à medida que as superfícies oceânicas aquecem. Entre 2015 e 2016, o mundo experienciou um poderoso El Niño. No entanto, apesar da influência observada deste aquecimento das águas superficiais do Pacífico Equatorial, uma seca global amplamente extensa remonta a 2013 e até antes.

Mapa de seca e anomalia de precipitação por todo o globo.

O Global Drought Monitor revela que condições secas têm sido predominantes durante grande parte do globo ao longo dos últimos quatro anos. Em algumas regiões, como na área do rio Colorado, a seca já se prolonga há mais de uma década. Fonte da imagem: SPEI Global Drought Monitor.

Na imagem acima, vemos défices de humidade do solo ao longo dos últimos 48 meses. O que encontramos é que grandes seções de praticamente todos os principais continentes estão a passar por, pelo menos, uma seca de quatro anos. As condições de seca foram previstas intensificarem-se, por modelos climáticos, nas latitudes médias à medida que o mundo aquecia. Parece que este é já o caso, mas a zona Equatorial e as latitudes mais altas também estão a experienciar seca generalizada. Se existe um padrão detetável nas condições atuais, é que poucas regiões têm evitado a seca. A seca é tão abrangente que é praticamente global na sua extensão.

Impactos Severos Generalizados

Estas condições de seca têm impactos notórios.

Só na Califórnia, mais de 102 milhões de árvores morreram devido ao aumento das temperaturas e uma seca que já dura desde 2010. Desses, 62 milhões já morreram só este ano. O relacionamento da seca com a mortalidade das árvores é bastante simples — quanto mais a seca durar, mais árvores perecerão à medida que as reservas de água nas raízes são usadas. A Califórnia perdeu, até agora, 2,5 por cento das suas árvores vivas devido ao que é agora o pior caso de mortalidade de árvores na história do estado.

Stress da vegetação às alterações climáticas

Não é apenas a Califórnia. Numerosas regiões por todo o mundo mostram plantas a passarem por condições ameaçadoras que colocam a sua vida em risco. No mapa acima, a saúde vegetativa é mostrada como estando sob stress, desde moderado [amarelo], a severo [rosa], em amplas regiões do mundo. Fonte da imagem: Global Drought Information System.

A seca californiana é apenas um aspecto de uma seca maior que abrange grande parte do Oeste norte-americano. Para a área do Rio Colorado, isto inclui uma seca de 16 anos que tem colocado o Lago Mead nos seus níveis mais baixos jamais registados. Com o racionamento iminente dos abastecimentos de água do rio, a menos que uma pausa milagrosa na seca surja de repente, os estados estão em sobressalto para descobrir como gerir uma escassez que se agrava. Enquanto isso, relatórios indicam que cidades como Phoenix irão exigir ação executiva por parte do presidente para garantir o abastecimento de água para milhões de residentes ao longo dos próximos anos, caso as condições não melhorem.

Mais a leste, a seca tem estado intermitente no centro e sul dos EUA. No sudeste, uma seca relâmpago recentemente ajudou a impulsionar uma onda fora-de-época de incêndios florestais sobre a região de Smoky Mountain. Ontem, em Gaitlinburg, Tennessee, chamas furiosas alimentados por ventos diante de uma frente fria obrigaram 14.000 pessoas a evacuar, danificaram ou destruíram 100 casas e ceifaram três vidas.

Incêndios resultam de seca severa Sibéria Julho 2016

Incêndios na Sibéria ativos a 23 de julho de 2016, ocorreram num contexto de seca severa. Fonte da imagem: LANCE MODIS

Nas latitudes setentrionais superiores, a principal consequência da seca também tem sido incêndios florestais. Os incêndios florestais são frequentemente atiçados por calor e seca em regiões densamente florestadas com níveis de humidade do solo reduzidos. O degelo do permafrost e os níveis reduzidos de cobertura de neve agravam a situação, reduzindo ainda mais o armazenamento de humidade em regiões secas e adicionando combustíveis tipo turfa para os incêndios.

Do Alasca ao Canadá até à Sibéria, este tem sido cada vez mais o caso. No ano passado, o Alasca experienciou uma das suas piores épocas de incêndios florestais de que há registo. Este ano, tanto o calor como a seca contribuíram para os intensos incêndios na região de Fort McMurray, no Canadá. E nos últimos anos, incêndios florestais alastrando-se por uma Sibéria tremendamente seca têm sido tão extremos que satélites em órbita, a um milhão de milhas de distância, puderam detetar as plumas de fumo.

Seca e incêndios florestais no ou perto do Ártico parecem justificadamente estranhos, mas quando se considera o facto de que muitos modelos climáticos haviam previsto que as latitudes setentrionais elevadas seriam uma das poucas grandes regiões a experienciar aumentos na precipitação, essa estranheza torna-se ameaçadora. Se a atual tendência de seca generalizada no Ártico for representativa, então o aquecimento apresenta um problema de seca de Equador a Pólo.

Um lago Baikal a minguar — que se alimenta de água que flui da chuva e neve da Sibéria Central — comporta um testamento sombrio de uma seca em expansão sobre a Rússia central e do norte. O lago Baikal, o mais profundo e antigo lago do mundo, está ameaçado pela secagem relacionada com as alterações climáticas das terras que drenam para si. Em 2015, os níveis de água no Baikal atingiram níveis recorde de baixa, e ao longo dos últimos anos, incêndios em redor do lago têm crescentemente colocado em perigo as comunidades locais e a vida selvagem.

Para o sul e oeste, a província de Gansu na China foi colocada sob um alerta de seca de nível 4 este verão passado. Aí, grandes faixas de culturas foram perdidas; 500 milhões de dólares em danos no acumulados. O governo chinês apressou ajuda a 6,2 milhões de moradores afetados, transportando água potável por camião para regiões que ficaram desprovidas de abastecimentos locais.

Seca na Índia em 2016

Lagos e leitos de rios secaram por toda a Índia neste ano, tendo a monção sido adiada pelo terceiro ano consecutivo. Fonte da imagem: India Water Portal

A Índia este ano experimentou uma escassez de água semelhante, mas muito mais generalizada. Em abril, 330 milhões de pessoas na Índia experienciaram pressões hídricas. Comboios de reabastecimento de água viajaram através do campo, entregando garrafas de líquido potável a moradores que tinham perdido o acesso. O retorno da monção da Índia forneceu algum alívio, mas a seca na Índia e nas terras altas do Tibete continua, com glaciares a encolher expostos ao ar quente.

África tem visto recentemente várias crises alimentares surgirem, à medida que incêndios vão assolando através das suas florestas equatoriais. Pressões para seres humanos, plantas e animais devido à secura, escassez de água e alimentos, e incêndios têm sido notoriamente severos. Mais recentemente neste ano, 36 milhões de pessoas em toda a África enfrentaram fome devido aos impactos relacionados com a seca. Mais recentemente, a África do Sul foi forçada a reduzir manadas de hipopótamos e búfalos devido à continuação da seca de vários anos lá.

Mais para norte, na Europa, também encontramos condições de seca generalizada e em expansão. Esta situação não é inesperada para o Sul da Europa, onde os modelos climáticos globais mostram incursões de climas desérticos do outro lado do Mediterrâneo. Mas como com o norte da Rússia e América do Norte, a Europa do Norte também está experienciar seca. Estas secas por toda a Europa ajudaram a desencadear graves incêndios em Portugal e Espanha no verão, numa altura em que se prevê a queda da produção de milho para a região.

Seca e incêndios na Amazónia do Peru

Em novembro, a seca propiciou incêndios que despontaram ao longo da zona fronteiriça da floresta amazónica no Perú. Fonte da imagem: LANCE MODIS

Finalmente, regressando às Américas, vemos condições de seca generalizada cobrindo grande parte do Brasil e da Colômbia, diminuindo ao longo da Cordilheira dos Andes, pelo Perú, Bolívia, Chile e Argentina. Em seções da cada vez mais desbastada e acossada pelo fogo floresta da Amazónia, e atualmente atingindo o nordeste do Brasil, as condições de seca duram agora desde há cinco anos. Lá, metade das cidades da região enfrentam racionamento de água e mais de 20 milhões de pessoas estão agora a ser confrontadas com stress hídrico. De setembro a novembro de 2015, mais de 40.000 hectares de floresta amazónica devastada pela seca arderam no Peru. Enquanto isso, a Bolívia viu o seu segundo maior lago secar e glaciares críticos para o abastecimento de água derreter, levando centenas de milhares de pessoas a ficar numa situação de racionamento de água.

Impactos na Comida

A seca e condições meteorológicas extremas em curso criaram impactos locais para o abastecimento de alimentos em várias regiões. No entanto, estes impactos ainda não afetaram seriamente os mercados globais de alimentos. A seca no Brasil e na Índia, por exemplo, tem impactado significativamente a produção de açúcar, o que por sua vez está causar um aumento dos preços globais dos alimentos. A produção de cereais foi um pouco menor, o que também está a causar preços mais elevados, embora não os grandes saltos que vemos no açúcar. Mas o Índice da Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO) para outubro de 2016 (173 aproximadamente), sendo 9 por cento superior ao valor do ano passado para esta época do ano, ainda está bastante longe do valor 229 de pico que ocorreu em 2011, e que contribuiu para tanta agitação em todo o globo.

Subida de preços dos alimentos em 2016

O aumento dos preços dos alimentos durante 2016, face a preços relativamente baixos de energia e desafios significativos relacionados com o clima para os agricultores, é causa para preocupação. Fonte da imagem: FAO

Dito isto, com preços da energia a cair para valores comparativamente baixos, preços de alimentos relativamente altos (e crescentes) são causas para preocupação. Tradicionalmente, a queda dos preços da energia também reduzem os preços dos alimentos, pois os custos de produção são menores, mas parece que estes ganhos pelos agricultores estão a ser compensados ​​por vários impactos ambientais e climáticos. Além disso, embora muito difundida, a seca parece ter até agora evitado grandes regiões produtoras de cereais, como o centro dos EUA, e o centro e leste da Ásia. Assim, o quadro global de alimentos, se não inteiramente rosado, não está tão mau quanto poderia ser.

Condições em Contexto — Aumento da evaporação, Derretimento dos Glaciares, Menos Cobertura de Neve, Zonas Climáticas em Deslocação

Com o mundo agora provavelmente a atingir 1,5ºC acima das temperaturas pré-industriais ao longo dos próximos 15 a 20 anos, as condições gerais de seca provavelmente agravar-se-ão. As maiores taxas de evaporação são uma característica primária do aquecimento, o que significa que mais chuva tem de cair só para acompanhar o ritmo. Além disso, a perda do gelo glaciar em várias cadeias montanhosas e a perda de cobertura de neve em ambientes Árticos e próximos do Ártico, agora mais secos, irão reduzir ainda mais os níveis dos rios e a humidade do solo. O aumento da prevalência de eventos extremos de precipitação em comparação com eventos de chuva estáveis irá colocar ainda mais pressão sobre a vegetação que ajuda a capturar a humidade do solo. Finalmente, as alterações à circulação atmosférica devido à amplificação polar irão combinar-se com um movimento em direção aos pólos das zonas climáticas, levando a uma confusão geral das estações tradicionais de cultivo. Como resultado, tudo que depende de abastecimentos de água constantes e padrões climáticos previsíveis irá enfrentar desafios à medida que o mundo se dirige para um estado de mudança climática mais evidente.


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Traduzido do original
With Temperatures Hitting 1.2 C Hotter than Pre-Industrial, Drought Now Spans the Globe
, publicado por Robertscribbler em http://robertscribbler.com/ a 30 de novembro de 2016.

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James Hansen e sua neta processam o governo
James Hansen

James Hansen processa o governo com base em ‘O Fardo dos Jovens’

Jim Hansen e 22 jovens incluindo a sua neta mais velha Sophie Kivlehan puseram uma ação judicial contra o governo federal dos EUA, apresentada por Our Children’s Trust, por não proteger os direitos dos jovens.
O estudo de James Hansen em colaboração com outros cientistas“Young People’s Burden”.

Conteúdo traduzido do original Young People’s Burdenpublicado no Youtube a 4 de Outubro de 2016.

[expand title=”Abrir a Transcrição aqui:” swaptitle=”Recolher Transcrição” trigclass=”noarrow” tag=”div” id=”com-ypburden”]

O Fardo dos Jovens — James Hansen & Sophie Kivlehan

James Hansen: Olá! Sou Jim Hansen, diretor do Programa de Consciencialização para a Ciência Climática e Soluções, no Instituto da Terra da Universidade de Columbia. E esta é a minha neta mais velha, Sophie.
Sophie K: Olá! sou Sophie Kivlehan. O meu avô e eu somos dois dos pleiteantes numa ação judicial apresentada por Our Children’s Trust contra o governo federal por não proteger os direitos dos jovens. Os fundadores da nossa nação e o preâmbulo da constituição, disseram que era para assegurar as bençãos da liberdade para nós próprios e a nossa posteridade. A constituição garante proteção igual das leis para todas as pessoas. Os jovens são pessoas. A constituição diz que ninguém devia ser privado de vida, liberdade ou propriedade sem o devido processo de lei. Mas isso é exatamente aquilo que se está a passar hoje. A nós, jovens, está-nos a ser entregue uma situação na qual os nossos prospectos para o futuro, onde, literalmente, as nossas vidas, liberdade, propriedade e procura da felicidade, conceitos queridos dos fundadores do nosso país, estão ameaçados pelas ações do nosso governo.
James Hansen: Essas são declarações fortes. Mas, vamos tornar claras as consequências das ações do governo dos EUA para os jovens, e do porquê ser necessário que os tribunais entrem em cena como fizeram no caso dos direitos civis. Vamos começar pela ciência. Vou discutir dados sobre alterações climáticas globais e uso energético global. E a Sophie irá discutir as implicações, especialmente para os jovens.
Têm-se-me juntado alguns dos melhores cientistas relevantes do mundo no submeter de um artigo, “O Fardo dos Jovens”, como um artigo de discussão em Earth System Dynamics Discussion. Chamámos a atenção para uma implicação assombrosa do falhanço do governo em tomar ação efetiva na mudança climática. Todas as nações concordam com a convenção de enquadramento da mudança climática de 1992 de se limitar as emissões de combustíveis fósseis para se evitar a perigosa mudança climática causada pelos humanos. 23 anos mais tarde, em Paris, no Dezembro passado, eles concordaram com quase a mesma coisa, e deram palmadinhas nas costas uns aos outros. Entretanto, as emissões aumentaram, cada vez mais rápido. Por detrás das cenas, os especialistas das Nações Unidas para a energia e o clima aperceberam-se silenciosamente que agora não há modo de se estabilizar o clima sem emissões negativas. E então os cenários da ONU agora admitem extração tecnológica de CO2 em massa, chupar CO2 do ar.
Sophie K: Eles assumem hoje que os jovens irão fazer isto no futuro, mas é necessário energia para se retirar o CO2 do ar. Será lento e caro. O custo, mesmo com suposições optimistas de tecnologia, é estimado em centenas de triliões de dólares, se as elevadas emissões de combustíveis fósseis continuarem. Isso não é justo. os adultos de hoje beneficiam da queima de combustíveis fósseis e deixam o desperdício para os jovens limparem. É por isso que nós apresentámos uma queixa contra o governo. Em vez de proteger os jovens, o governo trabalha com a indústria de combustíveis fósseis, a qual entrou neste caso legal com advogados de elevado preço, em apoio ao governo. Esta é uma situação trágica, porque se o governo tivesse simplesmente feito o seu trabalho, colhendo e aumentando as taxas sobre o carbono à indústria dos combustíveis fósseis para tornar os preços dos combustíveis fósseis honestos, as energias limpas cresceriam rapidamente e as emissões de CO2 decairiam rapidamente.
James Hansen: Vamos olhar de perto para a ciência. A temperatura global hoje é 1.3ºC mais quente do que na temperatura pré-industrial, definida pela média de 1880-1920. A incerteza em definir o período de base pré-industrial afecta o resultado em apenas um décimo de um grau. A temperatura este ano está elevada pela fase quente da oscilação natural das temperaturas do Pacífico tropical. Mas a temperatura global de fundo está agora em quase 1,1ºC em relação à temperatura pré-industrial. Ainda é possível manter o aquecimento global abaixo dos 1,5ºC mas apenas se os governos começarem a levar a mudança climática a sério, reduzindo as emissões de combustíveis fósseis e tomando outras ações que vamos descrever.
O mundo está agora mais quente do que em qualquer altura anterior no Holoceno — o período interglaciar com nível do mar estável nos últimos milhares de anos — enquanto a civilização se desenvolveu. A temperatura é agora semelhante àquela do período Eemiano, 120.000 anos atrás, quando o nível do mar estava 6 a 9 metros, 20 a 30 pés, mais elevado que hoje. A história da Terra mostra que o nível do mar ajusta-se em poucos séculos às mudanças na temperatura global, e se permitirmos emissões elevadas continuadas, a temperatura irá subir bem acima do nível do Eemiano, e o forçamento sobre os mantos de gelo será tão forte que a rápida desintegração dos mantos de gelo e o aumento do nível do mar é muito provável. Num artigo recente, vários dos cientistas de topo mais relevantes e eu argumentámos que o aumento do nível do mar em vários metros é provável em 50 a 150 anos, se as emissões por combustíveis fósseis elevadas como de costume continuarem.
Sophie K: O aumento do nível do mar em vários metros está praticamente garantido, seria apenas uma questão de tempo. A disrupção social e os efeitos económicos de um tal aumento do nível do mar são incalculáveis. A maioria das cidades grandes do mundo estão localizadas nas linhas costeiras. Estas cidades vão ficar disfuncionais apesar de partes da cidade ficarem fora de água. Nações como os Países Baixos e o Bangladesh ficariam na maior parte debaixo de água. Os refugiados seriam às centenas de milhões. Como podemos os adultos, sabendo-o, deixarem tais prospectos aos mais jovens?
James Hansen: Se o colapso dos principais mantos de gelo começar, haverão disrupções crescentes na segunda metade deste século, quando os jovens de hoje serão adultos, com danos irreparáveis para os jovens de hoje. Mas não precisamos de esperar até à segunda metade deste século para vermos os impactos da mudança climática. Os extremos climáticos já estão a aumentar. O tempo inclui variações caóticas, de modo que a temperatura média sazonal flutua de ano para ano. Há 50 anos atrás, as anomalias da média a longo prazo formavam uma linda curva de sino. Algumas estações mais quentes que a média, algumas mais frias. O aquecimento global está a mudar a curva de sino. A mudança é muito maior no Verão do que no Inverno, como mostrado aqui para os Estados Unidos. O efeito é maior na China e na Índia do que nos EUA e na Europa. Ainda maior no Mediterrâneo e Médio Oriente, que já tiveram verões quentes. Cada verão agora é mais quente do que há 50 anos atrás. E o tempo de Verão prolonga-se durante mais tempo. Os trópicos, incluindo a África Central e o Sudoeste Asiático, estão mais quentes que o normal durante todo o ano.
Sophie K: Os impactos do aquecimento incluem maiores extremos climáticos. As regiões húmidas têm mais chuvas extremas e inundações, como aconteceu recentemente em Louisiana. As cheias centenárias agora ocorrem mais vezes do que uma por século. Mas secas mais fortes ocorrem especialmente em regiões sub-tropicais, tais como no sudoeste dos EUA e no Médio Oriente. Os maiores impactos são em regiões de baixa latitude que já eram quentes. O calor adicionado torna a vida mais difícil e reduz a produtividade do trabalho, o que tem efeitos económicos. Existem dados empíricos substanciais de que violência e conflitos entre pessoas, grupos e nações aumentam à medida que fica mais quente. As doenças com origem em vetores envolvendo infeções por mosquitos sanguessugas ou carraças podem se espalhar a latitudes mais elevadas e a maiores altitudes, à medida que o aquecimento aumenta.
James Hansen: As responsabilidades das nações pelo aquecimento global resultam do facto de que as emissões de CO2 dos combustíveis fósseis são a principal causa. As emissões pela China são neste momento as maiores, os EUA em 2º e a Índia em 3º. Contudo, mostrámos num artigo de 2007 que a mudança climática é causada por emissões cumulativas. Os EUA e a Europa são cada um deles responsável por mais de um quarto do total de emissões, a China por 12%, a Índia por 3 %. Numa base per-capita, o Reino Unido, os EUA e a Alemanha são os mais responsáveis, numa ordem de magnitude maior do que a China ou a Índia.
Sophie K: Então que situação enfrentarão os jovens de hoje no futuro, se permitirmos que a mudança climática em grande escala ocorra? As pessoas no futuro vão entender quais nações foram mais responsáveis.
James Hansen: Este é um tópico importante. Vamos voltar a ele mais tarde. Deixem-me sumarizar alguma da ciência no nosso artigo “O Fardo dos Jovens”, para que tenhamos tempo para discutir a relevância da ciência para o caso legal que está a ser colocado contra o governo. Primeiro, mostramos que as taxas de crescimento dos 3 mais importantes gases de efeito estufa no ar, CO2, metano, óxido nítrico, não estão a abrandar; estão a acelerar! Mostramos o que é necessário para mantermos o aquecimento global abaixo de 1.5ºC, os quais o acordo de Paris especificou como alvo. Um grau e meio coloca a temperatura global no nível estimado para o período Eemiano E então, o alvo na realidade necessita de ser ainda mais baixo. A temperatura devia ser mantida dentro ou próximo do nível anterior do Holoceno. Contudo, o ponto importante é que, para ambos os alvos, os cenários que as Nações Unidas utilizam, admitem agora que têm que assumir emissões negativas maciças de CO2. Isso significa chupar CO2 do ar. Mesmo com as suposições tecnológicas mais optimistas, se as emissões por combustíveis fósseis continuarem como presentemente, o custo será em centenas de triliões de dólares.
Sophie K: E é assumido que os jovens de hoje irão, de alguma forma, pagar por isto no futuro. E então, não apenas nos está a ser entregue um sistema climático com desastres climáticos crescentes e o aumento do nível do mar, como esperam que paguemos a conta e limpemos a bagunça que as gerações mais velhas nos deixaram.
James Hansen: É possível reduzir-se as emissões 7% por ano, como foi demonstrado em vários países ao longo de períodos extensos. Ainda agora parece que o governo Holandês está a considerar um plano para reduzir as emissões em 50% por volta de 2030, devido a um processo legal bem sucedido contra o governo.
Sophie K: Vamos assumir que os tribunais obrigavam os governos a trabalharem para o público em vez de para a indústria dos combustíveis fósseis. Seria possível reduzir-se as emissões em vários pontos percentuais por ano. Contudo, também precisamos de extrair CO2 do ar através de práticas melhoradas de agricultura e florestação, o que requer ter a maioria das nações do mundo envolvidas, muitas delas nações em desenvolvimento que têm pouca ou nenhuma responsabilidade pelo CO2 em excesso no ar.
James Hansen: Sim, isso é um ponto importante. Existem benefícios para os países locais, mas vão ser necessários recursos para se implementar as alterações agrícolas e florestais. E também para se reduzir as emissões de gases de efeito estufa que não o CO2. Há uma ideia para se obter os recursos a partir da indústria de combustíveis fósseis. Semelhante ao modo como os recursos foram obtidos da indústria do tabaco. Façam-nos pagar o seu custo para a sociedade. Uma vez que os recursos estejam disponíveis, a sua distribuição pode ser feita em função do sucesso dos países em tomarem as ações necessárias. Mas isso é uma história para outro dia. Vamos falar da relevância da ciência no nosso artigo para o caso trazido pela Our Children’s Trust contra o governo dos EUA, no tribunal distrital de Oregon. A Sophie é um dos 21 pleiteantes jovens, e eu sou o pleiteante 22º, como guardião da Sophie e das gerações futuras. Numa audiência, a 14 de Setembro, perante a honorável juíza Ann Aiken, os advogados pela defesa argumentaram que o caso devia ser dispensado. Uma questão era se o governo federal tem qualquer responsabilidade perante os jovens e as gerações futuras. Nós dizemos que é responsável. Mas vamos focar-nos em duas questões constitucionais fundamentais que eles levantaram. A primeira é se a juventude tem até mesmo uma posição para trazer um caso, se a juventude constitui uma classe contra a qual pode haver discriminação. As emendas 14 e 15 juntas conferem proteção igualitária das leis, e garantem que as pessoas não podem ser privadas de vida, liberdade ou propriedade, sem o devido processo de lei. Os advogados pela defesa afirmam que o governo não fez nada para classificar intencionalmente a juventude, logo a juventude não tem posição, nem base para trazer uma reclamação de igualdade de proteção contra o governo.
Sophie K: Não dizemos que o governo nos classificou. Mas por causa da nossa juventude, estaremos vivos na segunda metade deste século. E os nossos filhos e netos estarão vivos no século 22. Não podemos permitir que o governo roube as nossas vidas, liberdade, propriedade e busca pela felicidade, nem aquela dos nossos filhos e netos, pois isso também nos magoa profundamente, pensar nos prospectos em declínio para os nossos filhos e a deterioração da vida no planeta que nós e os nossos filhos herdamos. O governo diz que não tomou nenhuma ação afirmativa que cause o nosso problema. Mas isso é falso. Como a Julia Olson, a nossa advogada brilhante e dedicada indica, os governos controlam o fazer do nosso sistema energético e emite permissões para extração, perfuração, exportações, importações e oleodutos para o desenvolvimento de combustíveis fósseis não convencionais e perfuração em profundidade. Mesmo quando a ciência mostra claramente que não podemos desenvolver esses recursos sem danos irreparáveis para os mais jovens, devíamos estar a ir em direção à energia limpa e deixar a energia suja no solo.
James Hansen: A segunda questão fundamental tem a ver com toda a velocidade deliberada. E se o tribunal tem autoridade, sob o artigo 3º da constituição, para intervir quando os ramos legislativos e executivos empoderados pelo artigo 1º e 2º da constituição, falharam em proteger os direitos constitucionais dos cidadãos.
Sophie K: Sim, é semelhante aos direitos civis. O tribunal supremo descobriu, no caso Brown contra o Conselho da Educação, em 1954, que os direitos dos negros eram violados pela segregação escolar. O tribunal não tentou especificar como foram segregados, mas que tem que proceder com toda a velocidade deliberada. Uma frase que foi associada com o tão respeitado jurista Oliver Wendell Holmes. Contudo, 10 anos depois, o jurista Hugo Black declarou que, o tempo para mera velocidade deliberada já se esgotou, devido à frase ter sido utilizada para atrasar o cumprimento com a ordem judicial.
James Hansen: Toda a velocidade deliberada será uma questão dominante para o clima. As acções do nosso governo são grosseiramente inadequadas. Eles não aceitaram a realidade ditada pelas leis da física e da ciência. Temos que eliminar as emissões de combustíveis fósseis rapidamente. O facto trágico é que tem sido demonstrado em estudos económicos e em exemplos em determinados países, que é possível eliminar emissões a uma taxa estável de 7% por ano, enquanto fortalecendo a economia e criando empregos. Requer ter uma taxa crescente para todos sobre o carbono. E um apoio forte pela pesquisa, desenvolvimento e demonstração de tecnologias livres de carbono avançadas.
Sophie K: As ordens do tribunal do ramo executivo e legislativo têm que avançar com um plano que tome ação efetiva com toda a velocidade deliberada, o que forçaria o congresso a sentar-se com o presidente e convergisse num plano que seja aceitável para conservadores e liberais de igual modo. Sabemos que é possível, mas não acontecerá sem pressão do tribunal. o nosso futuro depende disso.
James Hansen: Já chega por hoje. Muito bem.
Sophie K e Dr.James Hansen (como Guardião das Gerações Futuras) são pleiteantes num processo legal contra o Governo Federal dos EUA, requerendo um plano para a eliminação rápida das emissões de combustíveis fósseis.Recolher Transcrição[/expand]

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Incêndios enormes na China superam enormemente os incêndios do Canadá
Robertscribbler

Incêndios Enormes no Nordeste da China e no Lago Baikal

Como as emissões de combustíveis fósseis pelos humanos forçam o mundo a aquecer, os níveis de humidade e precipitação estão a mudar. Áreas molhadas tornam-se mais molhadas. Áreas secas tornam-se mais secas. As temperaturas de Primavera e Verão aumentam. E o derretimento da neve mais precoce na primavera faz com que os solos permaneçam secos por períodos mais longos, aumentando as incidências de seca enquanto prolongando a temporada de incêndios. Estas condições secas e quentes também aumentam a probabilidade de que, uma vez que os incêndios sejam iniciados por raios ou erro humano, vão tornar-se mais intensos, maiores e mais duradouros (paráfrase deste Relatório da União de Cientistas Preocupados).

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Uma onda de calor extrema e a seca no leste da Ásia está agora a provocar incêndios extraordinariamente grandes em regiões mais instáveis ​​do nordeste da China, perto da fronteira russa. Os incêndios maciços são claramente visíveis na foto do satélite LANCE-MODIS e incluem pelo menos quatro zonas de incêndio contíguas. Os incêndios mostram, cada um, cicatrizes de zonas queimadas muito grandes com frentes de fogo a variarem entre 40 e 60 quilómetros de diâmetro. Em essência, o que esta imagem de satélite está a mostrar são 3 a 4 infernos do tamanho de Rhode Island.

Incêndios enormes na China superam enormemente os incêndios do Canadá

(incêndios enormes a arderem no nordeste da China a 10 de Maio. Para referência, a borda inferior da imagem é de 600 milhas. Fonte da imagem: LANCE MODIS).

Uma nuvem muito grande de fumo lançada destas labaredas é agora visível na foto de satélite MODIS. Estende-se para longe das cicatrizes de zonas queimadas extensas e para fora em direção ao Mar do Japão, a cerca de 1.600 quilómetros de distância. Em comparação, os fogos do Nordeste da China juntos fazem agora anão o recente incêndio maciço que queimou 2.400 estruturas na cidade canadiana de Fort McMurray durante a semana passada. Mais outra instância de incêndios extraordinariamente grandes, a queimarem um mundo forçado a aquecer pelas emissões de combustíveis fósseis humanas.

Felizmente, os incêndios no nordeste da China não estão de momento a ameaçar nenhum povoado grande. Logo, é menos provável que perda de vidas ou propriedade tenha ocorrido como resultado. A mídia internacional não tem relatado os incêndios, tão pouca informação está agora disponível para além daquilo que pode ser discernido pela análise do mapa de satélite da NASA.

Pondo em contexto, estes incêndios iniciaram-se ao longo de uma zona de cristas que tem caracterizado temperaturas extremamente quentes e secas. Emanando uma onda de calor que começou no sudeste asiático, estes ares quentes estão agora a expandir-se para o norte em direção ao Ártico e vão, ao longo desta semana, contribuir para uma acumulação de onda de calor incrivelmente potente sobre as regiões do nosso mundo que agora descongelam rapidamente. O desenvolvimento de cristas nesta zona tem sido bastante persistente e podemos esperar que incêndios grandes e contínuos avancem para norte em direção ao Ártico.

Incêndios começam cedo para a época, na região de Permafrost do Lago Baikal

Incêndios começam cedo para a época, na região de permafrost do Lago Baikal na Rússia

(Incêndios florestais – indicados por pontos vermelhos no mapa acima – estão a iniciar-se em torno da zona descontínua de permafrost perto do Lago Baikal. Nos últimos anos, esta região da Rússia tem sofrido com o tipo de seca extrema e aquecimento associado à mudança climática causada pelo homem. Fonte da imagem: LANCE MODIS).

Esta zona extremamente quente e seca também acendeu numerosos incêndios na região do Lago Baikal. Representando o ponto mais distante a sul da zona de permafrost do Nordeste Asiático, o calor e descongelamento na região devido ao aquecimento global resultaram num aumento dos riscos de incêndio. Tal como acontece no noroeste do Canadá, existe uma relação profana entre incêndios e descongelamento da permafrost. A permafrost, enquanto descongela e seca, fornece um combustível de sub-bosque que ajuda na persistência e intensidade do incêndio – por vezes resultando em zonas quentes que ardem durante todo o inverno. E os incêndios podem ativar mais e mais da camada de permafrost por baixo – bombeando carbono adicional que pode agravar a tendência de aquecimento que iniciou os incêndios em primeiro lugar.

Em 2016, as zonas quentes e secas de cristas têm tendido a dominar tanto a América do Norte ocidental como a Ásia Oriental. E num mundo que, desde o início de 2016 tem estado cerca de 1,5 C acima das médias da década de 1880, temos visto um início muito intenso e prematuro para a época de incêndios com numerosos incêndios muito grandes nestas zonas. Enquanto Maio progride para Junho, o risco para incêndios ainda mais intensos aumenta, para além de que a zona de incêndios avança com os ares quentes para norte, em direção ao Ártico.

Traduzido do original Massive Wildfires Erupt in Northeast China as Lake Baikal Blazes Ignite, publicado por Robertscribbler em http://robertscribbler.com/ a 10 de Maio de 2016.

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