James Hansen e sua neta processam o governo
James Hansen

James Hansen processa o governo com base em ‘O Fardo dos Jovens’

Jim Hansen e 22 jovens incluindo a sua neta mais velha Sophie Kivlehan puseram uma ação judicial contra o governo federal dos EUA, apresentada por Our Children’s Trust, por não proteger os direitos dos jovens.
O estudo de James Hansen em colaboração com outros cientistas“Young People’s Burden”.

Conteúdo traduzido do original Young People’s Burdenpublicado no Youtube a 4 de Outubro de 2016.

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O Fardo dos Jovens — James Hansen & Sophie Kivlehan

James Hansen: Olá! Sou Jim Hansen, diretor do Programa de Consciencialização para a Ciência Climática e Soluções, no Instituto da Terra da Universidade de Columbia. E esta é a minha neta mais velha, Sophie.
Sophie K: Olá! sou Sophie Kivlehan. O meu avô e eu somos dois dos pleiteantes numa ação judicial apresentada por Our Children’s Trust contra o governo federal por não proteger os direitos dos jovens. Os fundadores da nossa nação e o preâmbulo da constituição, disseram que era para assegurar as bençãos da liberdade para nós próprios e a nossa posteridade. A constituição garante proteção igual das leis para todas as pessoas. Os jovens são pessoas. A constituição diz que ninguém devia ser privado de vida, liberdade ou propriedade sem o devido processo de lei. Mas isso é exatamente aquilo que se está a passar hoje. A nós, jovens, está-nos a ser entregue uma situação na qual os nossos prospectos para o futuro, onde, literalmente, as nossas vidas, liberdade, propriedade e procura da felicidade, conceitos queridos dos fundadores do nosso país, estão ameaçados pelas ações do nosso governo.
James Hansen: Essas são declarações fortes. Mas, vamos tornar claras as consequências das ações do governo dos EUA para os jovens, e do porquê ser necessário que os tribunais entrem em cena como fizeram no caso dos direitos civis. Vamos começar pela ciência. Vou discutir dados sobre alterações climáticas globais e uso energético global. E a Sophie irá discutir as implicações, especialmente para os jovens.
Têm-se-me juntado alguns dos melhores cientistas relevantes do mundo no submeter de um artigo, “O Fardo dos Jovens”, como um artigo de discussão em Earth System Dynamics Discussion. Chamámos a atenção para uma implicação assombrosa do falhanço do governo em tomar ação efetiva na mudança climática. Todas as nações concordam com a convenção de enquadramento da mudança climática de 1992 de se limitar as emissões de combustíveis fósseis para se evitar a perigosa mudança climática causada pelos humanos. 23 anos mais tarde, em Paris, no Dezembro passado, eles concordaram com quase a mesma coisa, e deram palmadinhas nas costas uns aos outros. Entretanto, as emissões aumentaram, cada vez mais rápido. Por detrás das cenas, os especialistas das Nações Unidas para a energia e o clima aperceberam-se silenciosamente que agora não há modo de se estabilizar o clima sem emissões negativas. E então os cenários da ONU agora admitem extração tecnológica de CO2 em massa, chupar CO2 do ar.
Sophie K: Eles assumem hoje que os jovens irão fazer isto no futuro, mas é necessário energia para se retirar o CO2 do ar. Será lento e caro. O custo, mesmo com suposições optimistas de tecnologia, é estimado em centenas de triliões de dólares, se as elevadas emissões de combustíveis fósseis continuarem. Isso não é justo. os adultos de hoje beneficiam da queima de combustíveis fósseis e deixam o desperdício para os jovens limparem. É por isso que nós apresentámos uma queixa contra o governo. Em vez de proteger os jovens, o governo trabalha com a indústria de combustíveis fósseis, a qual entrou neste caso legal com advogados de elevado preço, em apoio ao governo. Esta é uma situação trágica, porque se o governo tivesse simplesmente feito o seu trabalho, colhendo e aumentando as taxas sobre o carbono à indústria dos combustíveis fósseis para tornar os preços dos combustíveis fósseis honestos, as energias limpas cresceriam rapidamente e as emissões de CO2 decairiam rapidamente.
James Hansen: Vamos olhar de perto para a ciência. A temperatura global hoje é 1.3ºC mais quente do que na temperatura pré-industrial, definida pela média de 1880-1920. A incerteza em definir o período de base pré-industrial afecta o resultado em apenas um décimo de um grau. A temperatura este ano está elevada pela fase quente da oscilação natural das temperaturas do Pacífico tropical. Mas a temperatura global de fundo está agora em quase 1,1ºC em relação à temperatura pré-industrial. Ainda é possível manter o aquecimento global abaixo dos 1,5ºC mas apenas se os governos começarem a levar a mudança climática a sério, reduzindo as emissões de combustíveis fósseis e tomando outras ações que vamos descrever.
O mundo está agora mais quente do que em qualquer altura anterior no Holoceno — o período interglaciar com nível do mar estável nos últimos milhares de anos — enquanto a civilização se desenvolveu. A temperatura é agora semelhante àquela do período Eemiano, 120.000 anos atrás, quando o nível do mar estava 6 a 9 metros, 20 a 30 pés, mais elevado que hoje. A história da Terra mostra que o nível do mar ajusta-se em poucos séculos às mudanças na temperatura global, e se permitirmos emissões elevadas continuadas, a temperatura irá subir bem acima do nível do Eemiano, e o forçamento sobre os mantos de gelo será tão forte que a rápida desintegração dos mantos de gelo e o aumento do nível do mar é muito provável. Num artigo recente, vários dos cientistas de topo mais relevantes e eu argumentámos que o aumento do nível do mar em vários metros é provável em 50 a 150 anos, se as emissões por combustíveis fósseis elevadas como de costume continuarem.
Sophie K: O aumento do nível do mar em vários metros está praticamente garantido, seria apenas uma questão de tempo. A disrupção social e os efeitos económicos de um tal aumento do nível do mar são incalculáveis. A maioria das cidades grandes do mundo estão localizadas nas linhas costeiras. Estas cidades vão ficar disfuncionais apesar de partes da cidade ficarem fora de água. Nações como os Países Baixos e o Bangladesh ficariam na maior parte debaixo de água. Os refugiados seriam às centenas de milhões. Como podemos os adultos, sabendo-o, deixarem tais prospectos aos mais jovens?
James Hansen: Se o colapso dos principais mantos de gelo começar, haverão disrupções crescentes na segunda metade deste século, quando os jovens de hoje serão adultos, com danos irreparáveis para os jovens de hoje. Mas não precisamos de esperar até à segunda metade deste século para vermos os impactos da mudança climática. Os extremos climáticos já estão a aumentar. O tempo inclui variações caóticas, de modo que a temperatura média sazonal flutua de ano para ano. Há 50 anos atrás, as anomalias da média a longo prazo formavam uma linda curva de sino. Algumas estações mais quentes que a média, algumas mais frias. O aquecimento global está a mudar a curva de sino. A mudança é muito maior no Verão do que no Inverno, como mostrado aqui para os Estados Unidos. O efeito é maior na China e na Índia do que nos EUA e na Europa. Ainda maior no Mediterrâneo e Médio Oriente, que já tiveram verões quentes. Cada verão agora é mais quente do que há 50 anos atrás. E o tempo de Verão prolonga-se durante mais tempo. Os trópicos, incluindo a África Central e o Sudoeste Asiático, estão mais quentes que o normal durante todo o ano.
Sophie K: Os impactos do aquecimento incluem maiores extremos climáticos. As regiões húmidas têm mais chuvas extremas e inundações, como aconteceu recentemente em Louisiana. As cheias centenárias agora ocorrem mais vezes do que uma por século. Mas secas mais fortes ocorrem especialmente em regiões sub-tropicais, tais como no sudoeste dos EUA e no Médio Oriente. Os maiores impactos são em regiões de baixa latitude que já eram quentes. O calor adicionado torna a vida mais difícil e reduz a produtividade do trabalho, o que tem efeitos económicos. Existem dados empíricos substanciais de que violência e conflitos entre pessoas, grupos e nações aumentam à medida que fica mais quente. As doenças com origem em vetores envolvendo infeções por mosquitos sanguessugas ou carraças podem se espalhar a latitudes mais elevadas e a maiores altitudes, à medida que o aquecimento aumenta.
James Hansen: As responsabilidades das nações pelo aquecimento global resultam do facto de que as emissões de CO2 dos combustíveis fósseis são a principal causa. As emissões pela China são neste momento as maiores, os EUA em 2º e a Índia em 3º. Contudo, mostrámos num artigo de 2007 que a mudança climática é causada por emissões cumulativas. Os EUA e a Europa são cada um deles responsável por mais de um quarto do total de emissões, a China por 12%, a Índia por 3 %. Numa base per-capita, o Reino Unido, os EUA e a Alemanha são os mais responsáveis, numa ordem de magnitude maior do que a China ou a Índia.
Sophie K: Então que situação enfrentarão os jovens de hoje no futuro, se permitirmos que a mudança climática em grande escala ocorra? As pessoas no futuro vão entender quais nações foram mais responsáveis.
James Hansen: Este é um tópico importante. Vamos voltar a ele mais tarde. Deixem-me sumarizar alguma da ciência no nosso artigo “O Fardo dos Jovens”, para que tenhamos tempo para discutir a relevância da ciência para o caso legal que está a ser colocado contra o governo. Primeiro, mostramos que as taxas de crescimento dos 3 mais importantes gases de efeito estufa no ar, CO2, metano, óxido nítrico, não estão a abrandar; estão a acelerar! Mostramos o que é necessário para mantermos o aquecimento global abaixo de 1.5ºC, os quais o acordo de Paris especificou como alvo. Um grau e meio coloca a temperatura global no nível estimado para o período Eemiano E então, o alvo na realidade necessita de ser ainda mais baixo. A temperatura devia ser mantida dentro ou próximo do nível anterior do Holoceno. Contudo, o ponto importante é que, para ambos os alvos, os cenários que as Nações Unidas utilizam, admitem agora que têm que assumir emissões negativas maciças de CO2. Isso significa chupar CO2 do ar. Mesmo com as suposições tecnológicas mais optimistas, se as emissões por combustíveis fósseis continuarem como presentemente, o custo será em centenas de triliões de dólares.
Sophie K: E é assumido que os jovens de hoje irão, de alguma forma, pagar por isto no futuro. E então, não apenas nos está a ser entregue um sistema climático com desastres climáticos crescentes e o aumento do nível do mar, como esperam que paguemos a conta e limpemos a bagunça que as gerações mais velhas nos deixaram.
James Hansen: É possível reduzir-se as emissões 7% por ano, como foi demonstrado em vários países ao longo de períodos extensos. Ainda agora parece que o governo Holandês está a considerar um plano para reduzir as emissões em 50% por volta de 2030, devido a um processo legal bem sucedido contra o governo.
Sophie K: Vamos assumir que os tribunais obrigavam os governos a trabalharem para o público em vez de para a indústria dos combustíveis fósseis. Seria possível reduzir-se as emissões em vários pontos percentuais por ano. Contudo, também precisamos de extrair CO2 do ar através de práticas melhoradas de agricultura e florestação, o que requer ter a maioria das nações do mundo envolvidas, muitas delas nações em desenvolvimento que têm pouca ou nenhuma responsabilidade pelo CO2 em excesso no ar.
James Hansen: Sim, isso é um ponto importante. Existem benefícios para os países locais, mas vão ser necessários recursos para se implementar as alterações agrícolas e florestais. E também para se reduzir as emissões de gases de efeito estufa que não o CO2. Há uma ideia para se obter os recursos a partir da indústria de combustíveis fósseis. Semelhante ao modo como os recursos foram obtidos da indústria do tabaco. Façam-nos pagar o seu custo para a sociedade. Uma vez que os recursos estejam disponíveis, a sua distribuição pode ser feita em função do sucesso dos países em tomarem as ações necessárias. Mas isso é uma história para outro dia. Vamos falar da relevância da ciência no nosso artigo para o caso trazido pela Our Children’s Trust contra o governo dos EUA, no tribunal distrital de Oregon. A Sophie é um dos 21 pleiteantes jovens, e eu sou o pleiteante 22º, como guardião da Sophie e das gerações futuras. Numa audiência, a 14 de Setembro, perante a honorável juíza Ann Aiken, os advogados pela defesa argumentaram que o caso devia ser dispensado. Uma questão era se o governo federal tem qualquer responsabilidade perante os jovens e as gerações futuras. Nós dizemos que é responsável. Mas vamos focar-nos em duas questões constitucionais fundamentais que eles levantaram. A primeira é se a juventude tem até mesmo uma posição para trazer um caso, se a juventude constitui uma classe contra a qual pode haver discriminação. As emendas 14 e 15 juntas conferem proteção igualitária das leis, e garantem que as pessoas não podem ser privadas de vida, liberdade ou propriedade, sem o devido processo de lei. Os advogados pela defesa afirmam que o governo não fez nada para classificar intencionalmente a juventude, logo a juventude não tem posição, nem base para trazer uma reclamação de igualdade de proteção contra o governo.
Sophie K: Não dizemos que o governo nos classificou. Mas por causa da nossa juventude, estaremos vivos na segunda metade deste século. E os nossos filhos e netos estarão vivos no século 22. Não podemos permitir que o governo roube as nossas vidas, liberdade, propriedade e busca pela felicidade, nem aquela dos nossos filhos e netos, pois isso também nos magoa profundamente, pensar nos prospectos em declínio para os nossos filhos e a deterioração da vida no planeta que nós e os nossos filhos herdamos. O governo diz que não tomou nenhuma ação afirmativa que cause o nosso problema. Mas isso é falso. Como a Julia Olson, a nossa advogada brilhante e dedicada indica, os governos controlam o fazer do nosso sistema energético e emite permissões para extração, perfuração, exportações, importações e oleodutos para o desenvolvimento de combustíveis fósseis não convencionais e perfuração em profundidade. Mesmo quando a ciência mostra claramente que não podemos desenvolver esses recursos sem danos irreparáveis para os mais jovens, devíamos estar a ir em direção à energia limpa e deixar a energia suja no solo.
James Hansen: A segunda questão fundamental tem a ver com toda a velocidade deliberada. E se o tribunal tem autoridade, sob o artigo 3º da constituição, para intervir quando os ramos legislativos e executivos empoderados pelo artigo 1º e 2º da constituição, falharam em proteger os direitos constitucionais dos cidadãos.
Sophie K: Sim, é semelhante aos direitos civis. O tribunal supremo descobriu, no caso Brown contra o Conselho da Educação, em 1954, que os direitos dos negros eram violados pela segregação escolar. O tribunal não tentou especificar como foram segregados, mas que tem que proceder com toda a velocidade deliberada. Uma frase que foi associada com o tão respeitado jurista Oliver Wendell Holmes. Contudo, 10 anos depois, o jurista Hugo Black declarou que, o tempo para mera velocidade deliberada já se esgotou, devido à frase ter sido utilizada para atrasar o cumprimento com a ordem judicial.
James Hansen: Toda a velocidade deliberada será uma questão dominante para o clima. As acções do nosso governo são grosseiramente inadequadas. Eles não aceitaram a realidade ditada pelas leis da física e da ciência. Temos que eliminar as emissões de combustíveis fósseis rapidamente. O facto trágico é que tem sido demonstrado em estudos económicos e em exemplos em determinados países, que é possível eliminar emissões a uma taxa estável de 7% por ano, enquanto fortalecendo a economia e criando empregos. Requer ter uma taxa crescente para todos sobre o carbono. E um apoio forte pela pesquisa, desenvolvimento e demonstração de tecnologias livres de carbono avançadas.
Sophie K: As ordens do tribunal do ramo executivo e legislativo têm que avançar com um plano que tome ação efetiva com toda a velocidade deliberada, o que forçaria o congresso a sentar-se com o presidente e convergisse num plano que seja aceitável para conservadores e liberais de igual modo. Sabemos que é possível, mas não acontecerá sem pressão do tribunal. o nosso futuro depende disso.
James Hansen: Já chega por hoje. Muito bem.
Sophie K e Dr.James Hansen (como Guardião das Gerações Futuras) são pleiteantes num processo legal contra o Governo Federal dos EUA, requerendo um plano para a eliminação rápida das emissões de combustíveis fósseis.Recolher Transcrição[/expand]

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Reservatório de CO2 da Amazónia emite dióxido de carbono (CO2) em vez de absorver
Robertscribbler

Reservatórios de Carbono em Crise – Amazónia Emite CO2

Reservatórios de Carbono em Crise — Parece que a Maior Floresta Tropical do Mundo está a Começar a Sangrar Gases de Efeito Estufa

Já em 2005, e novamente em 2010, a vasta floresta amazónica, que tem sido adequadamente descrita como os pulmões do mundo, perdeu brevemente a sua capacidade de absorver dióxido de carbono atmosférico. As suas árvores stressadas pela seca não estavam a crescer e respirar o suficiente para, no saldo final, remover carbono do ar. Incêndios rugiram através da floresta, transformando árvores em gravetos e libertando o carbono armazenado na sua madeira de volta para o ar.

Estes episódios foram as primeiras vezes que a Amazónia foi documentada como tendo perdido a sua capacidade de absorver carbono atmosférico numa base líquida. A floresta tropical tinha-se tornado no que é chamado de neutra em carbono. Por outras palavras, lançou tanto carbono quanto absorveu. Os cientistas viram isso como uma espécie de coisa séria.

Este Verão, um desligar semelhante parece estar a acontecer de novo na Amazónia. Uma seca severa está novamente a stressar as árvores enquanto ventila os incêndios numa maior intensidade do que em 2005 e 2010. Medidas de satélite anteriores parecem indicar que algo ainda pior pode estar a acontecer – a floresta tropical e as terras que habita estão agora a ser tão duramente atingidas por uma combinação de seca e fogo que a floresta está a começar a sangrar carbono de volta. Este repositório gigantesco e antigo de carbono atmosférico parece ter, pelo menos ao longo dos últimos dois meses, se transformado numa fonte de carbono.

Reservatório de CO2 da Amazónia emite dióxido de carbono (CO2) em vez de absorver

(Níveis elevados de dióxido de carbono, na faixa de 410 a 412 partes por milhão, e de metano na atmosfera sobre a floresta tropical da amazónia durante Julho e Agosto de 2016 é um indicador preliminar de que a grande floresta pode estar, durante esse período, a comportar-se como uma fonte de carbono. Fonte da imagem: Observatório Copernicus).

Reservatórios de Carbono Não Conseguem Acompanhar

Embora a história da mudança climática forçada pelos humanos comece com a queima de combustíveis fósseis, a qual expele o dióxido de carbono que retêm o calor na atmosfera, infelizmente, não termina aí. À medida que essa queima provoca o aquecimento da Terra, coloca pressão sobre os lugares que, em circunstâncias normais, removem o carbono da atmosfera. Os oceanos, florestas boreais, e as grandes florestas equatoriais, absorventes de carbono, todos sentem a picada daquele calor. Este aquecimento faz com que os oceanos sejam menos capazes de segurar o carbono nas suas águas próximas da superfície e desencadeia secas e incêndios que podem reduzir a capacidade de uma floresta de absorver esse carbono.

No contexto do ciclo global de entrada e remoção de carbono da atmosfera da Terra, os oceanos e as florestas grandes e saudáveis ​​servem para absorver os gases de efeito estufa. Chamamos-lhes reservatórios de carbono, e ao longo dos últimos 10.000 anos da nossa época atual, o Holoceno, eles ajudaram a manter esses gases e, por extensão, as temperaturas da Terra, relativamente estáveis.

Porque é que os reservatórios de carbono são importantes

(Sem a capacidade das florestas, solos e oceanos de absorverem carbono — de atuarem como reservatórios de carbono — o CO2 atmosférico global já teria subido bem acima das 500 partes por milhão em 2009 devido à queima de combustíveis fósseis. Estes dissipadores de carbono são um fator útil atenuante do insulto das emissões de carbono humanas, mas se ficarem muito stressados, podem, em vez disso, tornar-se em fontes de carbono. Fonte da imagem: IPCC / CEF).

Contudo, já há muito tempo agora que as emissões de combustíveis fósseis pelos humanos superaram em muito a capacidade dos reservatórios de carbono do mundo de removerem o excesso de carbono e manterem os níveis de gases de efeito estufa estáveis. Apesar de estes reservatórios terem captado mais da metade do grande volume de carbono emitido pela queima de combustíveis fósseis, a porção total de CO2 que retêm o calor aumentou de 280 ppm para mais de 400 ppm. Os oceanos acidificaram à medida que aguentavam a nova sobrecarga de carbono. E as florestas absorveram este carbono mesmo enquanto lutavam contra a expansão da desflorestação. Como resultado de todo o excesso de carbono atualmente na atmosfera, a Terra aqueceu mais de 1 grau Celsius acima dos níveis de 1880. E combinado com o já forte stress imposto pela agricultura de corte raso e de queimada, o calor adicional é uma grande pressão sobre um recurso global essencial.

O Aquecimento Global Leva ao Desligar dos Dissipadores de Carbono, ou pior, Torna-os em Fontes

Neste contexto trágico de calor, seca, acidificação dos oceanos e desmatamento, parece que o período de graça que os dissipadores de carbono da Terra nos deram para nos organizarmos e agirmos em conjunto sobre o aquecimento global está a chegar ao fim. O aquecimento da Terra de forma tão significativa como temos feito está a causar que estes dissipadores comecem a quebrar — a serem capazes de remover menos carbono, como foi o caso com a floresta amazónica em 2005 e 2010. Nestes pontos no tempo, o reservatório era neutro em carbono. Já não nos forneciam o serviço útil de retirar o carbono da atmosfera e armazená-lo nas árvores ou no solo. Mas, mais preocupante, em 2016, parece que a Amazónia também pode estar a começar a contribuir com carbono de volta para a atmosfera.

Níveis elevados de metano na Amazónia

(Leituras de metano de superfície sobre a Amazónia elevadas em excesso com 2.000 partes por bilhão é uma assinatura de seca e incêndio. É também um sinal de que a floresta tropical durante este período estava a emitir mais carbono do que estava a receber. Fonte da imagem: O Observatório Copernicus).

Após cada um destes breves períodos de insucesso em baixar o carbono em 2005 e 2010, o reservatório de carbono da Amazónia ligou-se novamente e começou a funcionar por um tempo. Mas em 2015 e 2016, temperaturas globais recorde tinham novamente provocado uma seca terrível na região amazónica. De acordo com oficiais da NASA, a nova seca foi a pior desde pelo menos 2002 e estava a desencadear condições de incêndio piores do que em 2005 e 2010 – as últimas vezes em que o dissipador de carbono da Amazónia se desligou. Em Julho de 2016, o Guardian reportou:

Condições de seca severa no início da estação seca, criaram a base para o risco de incêndio extremo em 2016 por todo o sul da Amazónia”, disse Morton num comunicado. Os estados brasileiros do Amazonas, Mato Grosso e Pará estão declaradamente em maior risco.

Pela previsão de incêndios na Amazónia da NASA, o risco de incêndio florestal para Julho a Outubro excede agora o risco ede 2005 e 2010 – a última vez que a região experimentou uma grave seca e os incêndios assolaram grandes áreas da floresta tropical. Até agora, a Amazónia tem visto mais incêndios em Junho de 2016 do que em anos anteriores, o que os cientistas da NASA dizem foi outro indicador de uma temporada de incêndios potencialmente difícil.”

Incêndios florestais no brasil e Amazónia a 5 de Agosto de 2016

(Incêndios florestais extensos sobre sul da Amazónia e Brasil coincidem com picos atmosféricos aparentes de metano e CO2. Um indicador de que o reservatório de carbono da Amazónia está a experienciar um novo período de fracasso. Fonte da imagem: LANCE MODIS).

Ao mesmo tempo que a seca e os incêndios relacionados começavam a rasgar através da Amazónia, os monitores de carbono atmosférico como o Observatório Copérnico estavam a apanhar o sinal de um pico de carbono sob a Amazónia com níveis de metano superiores a 2.000 ppb (o que muitas vezes é uma assinatura de seca e incêndios florestais) e níveis de dióxido de carbono na ordem dos 410 a 412 ppm. Era um pico comparável àqueles das regiões industriais do mundo como o leste da China, os EUA e a Europa.

Em contexto, esses picos de carbono da Amazónia estão a ocorrer num tempo de aumentos recorde de CO2 atmosférico. Durante os primeiros sete meses de 2016, o aumento médio de CO2 em relação a 2015 foi de 3,52 ppm. A taxa global de aumento de CO2 de 2015 na ordem dos 3,1 ppm de um ano para o outro foi o aumento anual mais rápido já registado pela NOAA e o Observatório Mauna Loa. Até agora este ano, a taxa de ganho atmosférico deste gás chave do efeito de estufa continua a aumentar — isto no contexto de picos de carbono sobre uma região que devia estar a retirar CO2, não a emiti-lo.

Traduzido do original Carbon Sinks in Crisis — It Looks Like the World’s Largest Rainforest is Starting to Bleed Greenhouse Gasses, publicado por Robertscribbler em http://robertscribbler.com/ a 5 de Agosto de 2016.

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Citação de Stephen Hawking sobre mudança climática, degelo e hidratos de metano no aquecimento global
Robertscribbler

Energias Renováveis ​​estão a Ganhar a Corrida Contra os Combustíveis Fósseis… Mas Não Rápido o Suficiente

“Temos que reverter o aquecimento global com urgência, se ainda pudermos.”

– Stephen Hawking

“O mundo é perigoso não por causa daqueles que fazem mal, mas por causa daqueles que olham para ele sem fazer nada.”

– Albert Einstein.

*****

Quer o percebamos quer não, fomos arrastados para uma corrida. Uma corrida contra o tempo para reduzir rapidamente as emissões de carbono, a fim de evitar a rampa de danos climáticos a caminho de uma quinta extinção por efeito de estufa. Pois a queima atual de combustíveis fósseis e as práticas contínuas de despejo de carbono na atmosfera a uma taxa de 13 bilhões de toneladas por ano é um insulto ao sistema climático global que provavelmente nunca foi visto antes em toda a história profunda do planeta Terra. E quanto mais rápido reduzirmos essas emissões a zero e a um líquido negativo, melhor.

Na parte inicial da corrida, há um fator que pode trazer o maior benefício geral – a taxa de adesão ás energias renováveis. Pois aumentar as energias renováveis a uma taxa elevada remove quota futura de mercado aos combustíveis fósseis, ao mesmo tempo que reduz as emissões, traz eficiências e enfraquece as receitas fósseis da indústria de combustível. Uma tal mudança sistémica enfraquece o poder económico e político das entidades destrutivas que têm, durante décadas, tentado trancar no sistema volumes cada vez maiores de emissões prejudiciais ao clima. E quando as ER começam a superar não apenas quotas do mercado futuro mas também mercados atuais de combustíveis fósseis, essa perda de poder e influência acelera.

Citação de Stephen Hawking sobre mudança climática, degelo e hidratos de metano no aquecimento global

Uma vez que os combustíveis fósseis começam a perder o controle sobre os sistemas políticos por todo o mundo, torna-se mais fácil de implementar outras políticas baseadas no consumo, como um imposto sobre o carbono ou outros desincentivos a um uso muito desperdiçador de recursos no topo do espectro económico por todo o mundo. Um renascimento energético deste tipo não é uma solução perfeita. Não pode deter todos os danos climáticos que vêm pelo cano a baixo. Mas sim que atinge fortemente o centro de gravidade de uma base de poder económico global corrupta e prejudicial que, se lhe deixassem, garantiria os piores efeitos de uma extinção por efeito de estufa num tempo muito curto – destruindo inevitavelmente a civilização humana e infligindo um ecocídio global no processo. Diminui o poder e o alcance dos atores mauzões do carbono. E abre caminhos para uma rampa de políticas de mitigação das alterações climáticas e de resposta mais poderosas no futuro.

Neste contexto de uma vontade de puxar o tapete de debaixo dos atores mauzões do carbono, parece que as taxas de adesão das ER estão a começar a atingir um nível que faz com uma tal mudança de poder político e económico seja possível.

Energia Renovável Adiciona Quase 150 GW em 2015, Apesar dos Preços Baixos de Combustíveis Fósseis e Políticas Contrárias em Alguns Países

Durante 2015, de acordo com um novo relatório pela REN21, a energia renovável adicionou 147 Gigawatts à capacidade total de geração mundial de eletricidade para atingir os 1.849 Gigawatts. Este grande salto veio mesmo quando os preços dos combustíveis fósseis caíram, as políticas adversas à adesão de energias renováveis dominaram em lugares como a Austrália e o Reino Unido, e o suporte global por subsídio aos combustíveis fósseis permaneceu a um nível quatro vezes maior do que o apoio governamental às energias renováveis. Fatores que mostram uma falta de compromisso séria para com a segurança da civilização humana, que levam a um crescimento mais lento da capacidade global de Energias Renováveis no intervalo de cerca de três por cento ao ano para todo o setor.

Christine Lins, Secretária Executiva da REN21, observou na Clean Technica que as os ganhos das energias renováveis ​ contra esta maré foram significativos e impressionantes:

“O que é verdadeiramente notável quanto a estes resultados é que eles foram alcançados numa altura em que os preços dos combustíveis fósseis estavam em mínimos históricos, e as energias renováveis ​​mantiveram-se numa desvantagem significativa em termos de subsídios governamentais. Para cada dólar gasto impulsionar as energias renováveis, quase quatro dólares foram gastos para manter a nossa dependência dos combustíveis fósseis.”

Taxas de crescimento de energia solar e eólica foram particularmente fortes. Ambas as tecnologias beneficiaram de preços que ganharam à geração de energia por gás, carvão e diesel num número crescente de mercados. A energia solar acrescentou 50 gigawatts (GW) de nova capacidade em 2015 — o que é um salto impressionante de 40 por cento sobre o valor adicionado em 2014. Quase que igualou o salto da energia eólica de 63 gigawatts — um aumento de cerca de 14 por cento sobre as adições de 2014 pela energia eólica. No total, a capacidade solar global é agora de 277 GW e a do vento de 433 GW.

Quota de energias renováveis no mercado global de produção energética

(As energias renováveis continuaram a ganhar terreno face às fontes de energia tradicionais, em 2015. A energia eólica e a energia solar juntas representam agora cerca de 5 por cento da geração mundial de eletricidade com a geração total por energias renováveis agora perto de 23,7 por cento. Fonte da imagem: Relatório de Status Global das Energias Renováveis​).

Como parte da geração mundial de eletricidade, as energias renováveis ​​cresceram cerca de 1 por cento de ano para ano entre 2014 e 2015 – saltando de 22,8 por cento para 23,7 por cento. Uma taxa de crescimento que superou o carvão e o gás em muitos mercados. Entretanto, o número de pessoas que estão agora empregadas no sector das energias renováveis ​​a nível global expandiu para 8,1 milhões.

99,2 Por Cento de todos os Novos Crescimentos na Potência Elétrica Norte-Americana Vieram de Fontes Renováveis ​Durante o Primeiro Trimestre de 2016

Seguindo para 2016, os EUA viram uns impressionantes 99,2 por cento de todas as adições de electricidade virem de fontes renováveis ​​durante o primeiro trimestre. Adicionando no geral cerca de 2,1 gigawatts de nova capacidade, dominada por energia eólica e solar.

O maior contribuinte para esses ganhos foi a energia solar residencial, que instalou 900 megawatts de nova capacidade. A queda dos custos dos clientes no mercado residencial estimulou esses ganhos até porque os incentivos estaduais e federais forneceram uma perspetiva ensolarada para aqueles que deram o mergulho solar do telhado. O arrendamento solar foi responsável por cerca de 60 por cento da nova capacidade. Mas uns saudáveis 40 por cento vieram de compras diretas. Taxas de compras solares têm beneficiado de acesso fácil a crédito e de um ambiente de política positiva em muitos estados (embora exceções como Nevada colocaram um peso na taxa nacional de adesão).

Porcentagem de energias reováveis na nova capacidade de geração de energia eléctrica nos Estados Unidos

Nova Capacidade de Geração de Energia Eléctrica nos Estados Unidos (1º Trimestre 2016) | Outros tipos de energia solar, eólica, solar à escala de companhia, biomassa, hídrica, gás natural, geotermal, calor de detritos, nuclear, carvão, petróleo, outros.

(Uns impressionantes 99,2 por cento de toda a nova capacidade de produção de electricidade veio de fontes renováveis ​​durante o 1º trimestre de 2016. Se formos sábios, trabalharemos para assegurar que toda a nova energia vem de fontes sem carbono daqui em diante. Fonte da imagem: Renewables — 99 Percent of New Electricity Capacity in the US During Q1.)

Estes acrescentos residenciais substanciais marcaram uma tendência contínua na qual permitem mais e mais aos proprietários individuais a escolha entre energia da companhia, contratos de aluguer solar, e propriedade individual de produção de energia. Uma nova liberdade que proporciona resiliência ao crescimento das energias renováveis por todos os EUA, desde que as políticas adversárias não sejam promulgadas (como vimos em Nevada, com as táticas violentas no processo político por Warren Buffet, numa tentativa de proteger o legado das explorações de carvão e gás ).

Entretanto, o vento adicionou 707 megawatts de nova potência e a utilidade de energia solar adicionou 522 megawatts. O gás, que manteve preços de combustível quase historicamente baixos, apenas acrescentou 18 megawatts. Juntos, esta imagem mostra que a resistência, com base na preocupação pelas alterações climáticas, a nova infra-estrutura de combustíveis fósseis tem-se combinado com a queda dos preços das renováveis ​​para empurrar a maioria das utilidades a optarem sair das novas infra-estruturas baseadas em carbono. Tendências maiores, como o plano de energia limpa de Obama, a Cimeira do Clima de Paris e as campanhas vigorosas de desinvestimento em combustível fóssil, anti-oleoduto, e anti-carvão lançadas pela 350.org e a Sierra Club, servem como um poderoso moral nas costas das ​​crescentes economias de energias renováveis. Uma combinação de ações governamentais e ONGs que gerou agora um nível decente de execução para a redução da dependência de combustíveis nocivos.

Taxa de adesão às energias renováveis nos Estados Unidos por sector

(Grandes adesões a renováveis ​​ultrapassaram o gás natural ano a ano enquanto o carvão viu grandes cortes. No geral, o uso da eletricidade dos EUA também esteve baixo. Fonte da imagem: Renewables — 99 Percent of New Electricity Capacity in the US During Q1.)

As diferenças de ano para ano na geração de energia desde o 1º trimestre de 2015 ao 1º trimestre de 2016 pintam um quadro bastante brilhante para aquilo que parece ser uma transição energética em curso nos Estados Unidos. A utilização de carvão em geral caiu 7,3 por cento para 28,6 por cento do total dos EUA. As energias renováveis ​​deram um salto de quase 3 por cento para 17,1 por cento do total dos EUA – ocupando quase metade da perda que vem do carvão. A maior parte do ganho em energias renováveis veio de energia eólica e solar, as quais saltaram de 5,2 para 7,2 por cento do total dos EUA. Em mais de 1 milhão de telhados e incluindo uma parte crescente da utilidade de geração de energia, a energia solar ultrapassou pela primeira vez o 1 por cento da geração de eletricidade dos Estados Unidos – um limite que muitos vêem como um ponto de inflexão para taxas de adesão em rampa . A geração de energia pela água adicionou cerca de outro 1 por cento. E arredondando as fontes de energia de não-carbono, a energia nuclear adicionou 1,2 por cento para aumentar para 20,9 por cento do total dos EUA (embora a adição de geração de energia nuclear tenha sido menor do que tanto a eólica como a solar, o seu total líquido afigurou-se favoravelmente ao longo de um período em que, em geral, o consumo de energia dos EUA caiu).

Conduzidos por quedas no uso líquido de carvão e petróleo num total combinado de 94.000 gigawatts hora, a geração de eletricidade dos EUA caiu mais de 50.000 gigawatt/hora – uma queda de quase 5 por cento. Isto dá continuação a uma tendência maior de abrandamento da procura de electricidade nos EUA — uma que tem sido impulsionada em parte pelo aumento de eficiência em toda a cadeia de energia elétrica. E o único sistema de energia baseada em combustíveis fósseis que mostrou ganhos de ano em ano foi o gás natural — que acrescentou um pouco mais de 19.000 gigawatt-hora. Um total que ficou atrás da adesão às renováveis ​​em cerca de 3.000 gigawatts-hora.

A tendência em os EUA é, portanto, surpreendentemente clara. Apesar dos preços historicamente baixos de carvão e gás, as energias renováveis ​​e a eficiência energética são agora a força dominante num mercado de eletricidade dos Estados Unidos que atualmente parece estar a fazer movimentos sólidos no sair de fontes de energia tradicionais à base de combustíveis fósseis.

Tendências Positivas, mas Ainda Demasiado Lentas

Para ser claro, estas são tendências muito positivas. Numa comparação entre o 1º trimestre de 2015 com o 1º trimestre de 2016, o uso de combustíveis fósseis para geração de energia nos Estados Unidos caiu de cerca de 67 por cento para 62 por cento. Mas 62 por cento ainda é uma maioria da base de produção de energia eléctrica dos EUA. E com a mudança climática já a chegar a extremos perigosos, o objetivo aqui devia ser o de empurrar a queima de combustíveis fósseis para electricidade nos EUA aléḿ do nível de 50 por cento e em direção a 0 por cento o mais rapidamente possível. Assim, para os EUA, que mostrou claramente uma liderança global no corte de combustíveis à base de carbono ao longo do último ano, ainda há um longo caminho pela frente. E o mundo, mesmo no contexto mais positivo de geração de eletricidade, ficou atrás da taxa de adesão a energia renovável pelos EUA em cerca de 50 por cento, enquanto o uso líquido de energia está a crescer (não a encolher).

No ponto em que estamos, a utilização de energia eléctrica não é todo o consumo de energia. E numa perspectiva global, adicionando o transporte, a energia renovável só conseguiu ganhar uma fatia adicional de 0,1 por cento do bolo global de energia (aumentando para 19,2 por cento). Este atraso deveu-se em grande parte ao crescente uso de petróleo nos transportes — que beneficiou de preços mais baixos. E embora o salto na demanda global de petróleo não tenha sido tanto quanto algumas partes interessadas nos combustíveis fósseis esperavam, conseguiu evitar um maior ganho líquido global no total de energia renovável global.

Preço energético nivelado comparando diferentes fontes de energia

(A queda dos preços LCOE das energias eólica e solar combinaram-se com a preocupação global quanto à mudança climática causada pelos humanos no empurrar das taxas de adoção de energia renovável, que sobem em rampa. Uma segunda onda de maior acesso ao mercado será necessariamente impulsionada pelos esforços políticos renovados juntamente com a queda dos preços de armazenamento de energia e uma invasão de nova produção de veículos elétricos chegando entre 2017 e 2022. Fonte da imagem: Commons).

Perspectivando o futuro, o mundo irá precisar de adicionar na faixa de 250 a 350 gigawatts de energia renovável por ano enquanto adotando rapidamente os veículos elétricos e as tecnologias de armazenamento de energia relacionadas, de modo a fornecer taxas anuais de aumentos das quotas de renováveis em excesso de 2 por cento, enquanto se corta no uso de combustíveis fósseis no setor de transportes. As sinergias entre os aumentos na produção de veículos elétricos e queda dos custos de baterias proporcionam um caminho para esta próxima fase de expansão de energia renovável. Pois os veículos eléctricos em garagens (EVs) podem atuar como dispositivos de armazenamento de energia com o software adequado, redes inteligentes, e comercialização de energia organizada. Enquanto isso, as baterias EV antigas podem ser readaptadas para dispositivos de armazenamento de energia de baixo custo em casas, empresas e nas utilidades, as quais podem ajudar na penetração de renováveis na rede de energia.

Os interesses especiais na indústria de combustíveis fósseis são susceptíveis de lutar contra esta fase de crescimento de energia renovável com tudo o que têm. Mas, até agora, eles praticamente não conseguiram tirar o renascimento das energias renováveis ​​na sua infância. Agora, enquanto se move para a adolescência, os riscos são maiores e o jogo é provável que fique ainda mais duro. Mas parece que, apesar de toda a oposição por parte de vários atores mauzões dos combustíveis fósseis, esse renascimento da energia crítico está no processo de se instalar. E dado o facto de que uma mudança climática causada pelo homem muito perigosa está a aumentar muito mais rapidamente do que o esperado, o impulso de construção de uma transição de energia não poderia acontecer cedo o suficiente.

Traduzido do original Renewables are Winning the Race Against Fossil Fuels — But Not Fast Enough, publicado por Robertscribbler em http://robertscribbler.com/ a 2 de Junho de 2016.

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Anomalia da Temperatura Média Mensal Global L-OTI NASA
Sam Carana

Quanto Aquecimento Foi Causado Pelos Humanos?

Diferenças na Linha de Base

As diferenças na linha de base (período de referência) podem resultar em diferenças dramáticas na elevação da temperatura. O conjunto de dados HadCRUT4 do Met Office do Reino Unido normalmente apresenta anomalias de temperatura em relação a uma linha de base 1961-1990. A NASA usa tipicamente uma linha de base 1951-1980, mas o site da NASA permite que diferentes linhas de base possam ser selecionadas. Ao seleccionar uma linha de base 1961-1990, as temperaturas durante os 6 meses que passaram estiveram 1,05°C (1,89°F) mais elevadas em relação a esta linha de base, conforme mostrado pelo mapa da NASA no painel da esquerda da imagem abaixo. Como o mapa no painel direito da imagem abaixo mostra, quando comparado com 1890-1910, as temperaturas subiram 1,48°C (ou 2.664°F).

Anomalia da temperatura global comparado as linhas de base 1961-1990 e 1890-1910

De Novembro de 2015 a Abril de 2016 esteve 1.05°C (1.89°F) mais quente do que em 1961-1990 (mapa à esquerda) e 1.48°C (ou 2.664°F) mais quente do que 1890-1910 (mapa à direita)

Uma tendência polinomial pode reduzir a variabilidade como a causada por vulcões e eventos El Niño. O gráfico abaixo foi criado com a anomalia da temperatura média mensal global de superfície pelo índice L-OTI (índice de temperatura dos continentes mais oceanos) da NASA, o qual tem uma linha de base 1951-1980, e depois com 0,29°C adicionados, o que faz a anomalia de 0°C no ano de 1900 para a tendência polinomial adicionada.

Anomalia da Temperatura Média Mensal Global L-OTI NASA

Isto dá-nos uma ideia do quanto as temperaturas subiram desde o ano de 1900, com um aumento para ambos Fevereiro e Março de 2016 a revelar que foi de mais de 1,5°C. A tendência aponta para anomalias de temperatura que serão superiores a 1,5°C dentro de uma década, e mais do que 2°C logo a seguir.

Temperaturas Históricas

Para calcular quanto aquecimento os seres humanos causaram desde os tempos pré-industriais, é preciso irmos ainda mais atrás no tempo. O gráfico abaixo mostra que as concentrações de dióxido de carbono variaram entre cerca de 180 ppm e 280 ppm ao longo dos últimos 800.000 anos e que recentemente atingiram um pico de 411 ppm (pico da média horária a 11 de Maio de 2016).

Concentrações de dióxido de carbono (CO2) núcleos de gelo e medidas até 2016

Dados de concentração de dióxido de carbono (CO2) em núcleos de gelo, anteriores a 1958, e o CO2 atualmente medido no observatório de Mauna Loa desde 1958, no pico da média horária a 11 de Maio de 2016

O gráfico em baixo, de uma publicação anterior, mostra como, no passado, ao longo dos últimos 420.000 anos, as temperaturas (e os níveis de CO2 e CH4) variaram em cerca de 10°C, de acordo com os ciclos de Milankovitch.

Temperatura, dióxido de carbono, metano, valores históricos

Historicamente, os aumentos de dióxido de carbono de 100 ppm têm andado de mãos dadas com os aumentos da temperatura de cerca de 10°C. O recente aumento das concentrações de dióxido de carbono é um aumento de 131 ppm (de cerca de 280 ppm a 411 ppm). O aumento das concentrações de metano é ainda mais acentuado. Podemos, assim, contar que aconteça um aumento da temperatura em mais de 10°C, e em caso afirmativo, em quanto tempo isso poderia acontecer? Como descrito em baixo, o aquecimento causado por seres humanos pode resultar num aumento de temperatura de mais de 10°C (18°F) dentro de uma década.

O gráfico à direita, criado por Jos Hagelaars, mostra que, durante o ciclo mais atual, as temperaturas atingiram um pico à cerca de 7000 anos atrás (na parte azul do gráfico). Temperaturas ao longo de milhares de anos

O gráfico abaixo, baseado no trabalho de Marcott et al., centra-se nesta parte azul do gráfico, usando uma linha de base de 1961-1990. As temperaturas atingiram um pico há cerca de 7000 anos, e depois desceram para atingirem um mínimo algumas centenas de anos atrás.Variação da temperatura em 10.000 anos

As temperaturas de pico e de mínimos (destacado a vermelho na imagem) durante aquele período sugerem uma queda de mais de 0,7°C.

Umas poucas centenas de anos atrás, as temperaturas estavam a cair e teriam continuado em queda, em linha com os ciclos de Milankovitch, se não tivesse havido o aquecimento causado por humanos.

A partir desse ponto baixo, as temperaturas subiram primeiro cerca de 0,4°C, oprimindo a tendência de queda que teria, de outro modo, levado temperaturas ainda mais para baixo, e então houve um aumento adicional de pelo menos 1,05°C, quando se utiliza uma base de 1961-1990. Isso pode sugerir que os seres humanos causaram um total de 1,45°C de aquecimento.

Os Seres Humanos Causaram Ainda Mais Aquecimento

A situação parece ser ainda pior do que o que os números acima poderão sugerir. Na verdade, o ponto mais baixo no gráfico Marcott teria sido ainda mais baixo se não tivesse havido aquecimento por parte dos seres humanos.

As temperaturas antes de 1900 já eram mais elevadas do que teriam sido se não tivesse havido aquecimento causado pelo homem. O facto de que os seres humanos causaram um aquecimento substancial entre 1800 e 1900 é ilustrado pelo gráfico abaixo, a partir de uma publicação recente por Michael Mann, que acrescenta que cerca de 0,3°C do efeito estufa já tinham acontecido entre o ano de 1800 e o ano de 1900.

Aquecimento causado pela revolução industrial em 1900

Uns 0.3 C de aquecimento por efeito estufa já havia acontecido em 1900, e uns 0.2 C de aquecimento em 1870

Os humanos também causaram um aquecimento substancial bem antes de 1800. Um exemplo de aquecimento causado por humanos antes de 1800 é apresentado na pesquisa por Dull et al., a qual sugere que a queima das florestas neotropicais aumentou de forma constante nas Américas, atingindo um pico no tempo em que os europeus chegaram no final do século XV. Em 1650, cerca de 95% da população indígena tinha morrido. A regeneração de florestas levou ao sequestro de carbono de cerca de 2 a 5 pentagramas de carbono (Pg C), contribuindo assim para uma queda no dióxido de carbono atmosférico registado em núcleos de gelo da Antártida durante os anos de cerca de 1500 até 1750.

O Acordo de Paris

Os dados da NASA sugerem que o aquecimento já é de 1,48°C (ou 2,664°F) mais elevado do que em 1890-1910. Note-se que a linha de base de 1890-1910 é muito mais tarde do que os tempos pré-industriais. O Acordo de Paris comprometeu-se a limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Em terra no Hemisfério Norte, estava 1,99°C (ou 3.582°F) mais quente (mapa à direita na imagem abaixo).

Temperatura L-OTI e de superfície (em terra) entre ovembro 2015 e Abril 2016 mais elevada no hemisfério norte

As imagens acima representam apenas um semestre, logo elas são apenas indicativas do aumento total para o ano de 2016. No entanto, quando se tem em conta o aquecimento causado pelas pessoas antes de 1900, o ano de 2016 parece destinado a ultrapassar os limites de segurança que o Acordo de Paris havia se comprometido a não serem ultrapassados. A situação parece ainda pior quando se considera que as temperaturas medidas em núcleos de gelo já incluíam uma quantidade substancial do aquecimento pelos seres humanos mesmo antes do início da Revolução Industrial.

Limites do Acordo de Paris ultrapassados em Fevereiro de 2016No Acordo de Paris, os países comprometeram-se a manter o aumento da temperatura média global a menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais e de perseguirem esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.

Quando olhamos para um único mês, Fevereiro de 2016 esteve 1,67°C (3°F) mais quente do que 1890-1910 (ver imagem à direita). Ao adicionar uns meros 0,34°C para contar com o aquecimento antes de 1900, o aquecimento total em Fevereiro de 2016 ultrapassou de facto os 2°C. Olhando dessa forma, os limites de segurança estabelecidos em Paris em Dezembro de 2015 já foram ultrapassados em Fevereiro de 2016.

Situação

Então, qual é a situação? Por um lado, há o aumento da temperatura atualmente observado (ΔO). Este aumento é tipicamente calculado como a diferença entre a temperatura atual e a temperatura a uma dada linha de base.

Contudoo, este ΔO não reflete o impacto total das emissões humanas. Temperaturas teria sido inferior se não houvesse emissões por seres humanos. O impacto total de aquecimento devido às emissões das pessoas, portanto, é ∆E. Este ∆E é maior do que o aumento observado que é frequentemente utilizado, uma vez que a linha de base teria sido inferior sem o aquecimento causado por seres humanos.

Ao mesmo tempo, parte do aquecimento global causado pelas pessoas está mascarado devido as emissões de aerossóis (∆A). Tais emissões de aerossóis resultam principalmente da queima dos combustíveis fósseis e biomassa. Não há dúvida de que tais emissões deviam ser reduzidas, mas a verdade é que o aumento da temperatura atual pode aumentar substancialmente, digamos em metade, quando o efeito de mascaramento desaparece.

Assim, o aquecimento total (desmascarado) causada pelos seres humanos é a soma destes dois, ou seja, ∆E + ∆A, e a soma podia ser tão elevada quanto 3°C ou mesmo mais do que 5°C.

Além disso, há um aumento futuro da temperatura que já está cozido no bolo (∆F). Alguns feedbacks ainda não são muito visíveis, uma vez que algumas mudanças levam tempo para se tornarem mais evidentes, como o derretimento do gelo do mar e as mudanças não lineares devido a feedbacks que só agora estão a entrar em jogo. Além do mais, o efeito total das emissões de CO2 atinge o seu pico apenas uma década após a emissão e, mesmo com os melhores esforços, os seres humanos provavelmente ainda estarão a causar emissões adicionais durante a próxima década. Todos esses fatores em conjunto podem resultar num aumento de temperatura superior a ∆E + ∆A juntos, ou seja, o ∆F poderia, sozinho, causar um aumento de temperatura superior a 5°C no espaço de uma década.

Em resumo, o aquecimento total causado pelos humanos (∆E + ∆A + ∆F) poderia ser de mais do que 10°C (18°F) no espaço de uma década, assumindo que nenhuma geoengenharia terá lugar dentro de uma década.

A situação é terrível e apela a uma acção abrangente e eficaz, conforme descrito no Plano Climático.

Traduzido do original How Much Warming Have Humans Caused? de Sam Carana, publicado no blogue Arctic News, a 28 de Maio de 2016.
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Anomalia da temperatura de Abril em comparação com anos anteriores
Robertscribbler

Sete Meses Consecutivos de Calor Global de Quebrar Recordes

Não é apenas o facto de estarmos a ver um calor global recorde. É que o salto nas temperaturas globais em 2016 poderá ser o maior pico já registado num único ano. É que o mundo poderá nunca mais voltar a ver temperaturas anuais abaixo de 1 C acima das médias pré-industriais. E é que, este nível elevado de calor, e uma pico relacionado de gases de efeito estufa na atmosfera devido às emissões de combustíveis fósseis, agora é suficiente para começar a infligir danos graves sobre tanto o mundo natural como a civilização humana.

Sete Meses Consecutivos de Recorde de Calor

O mês passado foi o Abril mais quente do registo climático global. Não só foi o mais quente de tais meses já registado – quebrou o recorde anterior com a maior margem alguma vez registada. E este mês de Abril tornou-se agora o sétimo mês consecutivo de uma cadeia ininterrupta de calor global recorde.

Anomalia da temperatura de Abril em comparação com anos anteriores

(Quando em gráfico, é isto o que o Abril mais quente já registado parece quando comparado a outros Abris. Reparem no ponto ascendente e estreito no final da progressão de aquecimento longo. Sim, isso é para Abril de 2016. Fonte da imagem: Dr. Stephan Rahmstorf. Fonte dos dados: NASA GISS).

De acordo com a NASA GISS, as temperaturas globais em Abril estiveram 1,11 graus Celsius (C) mais quentes do que a sua média da linha de base para o século. Quando comparado com leituras pré-industriais (década de 1880 pela NASA), as temperaturas aqueceram globalmente por um total de 1,33 C. E isso é realmente um grande salto no aquecimento global, especialmente quando se considera o contexto dos últimos sete meses. Quando se olha para isso, parece que as temperaturas globais estão a subir numa corrida com uma velocidade de meter medo.

Sobre este ritmo furioso de aquecimento, Andy Pitman, diretor do Centro ARC de Excelência para a Ciência do Sistema Climático da Universidade de New South Wales na Austrália, observou recentemente no The Guardian:

“O que é interessante é a escala em que estamos a quebrar recordes. Está claramente tudo a ir na direção errada. Os cientistas do clima têm vindo a alertar quanto a isto desde pelo menos a década de 1980. E tem sido estupidamente óbvio desde a década de 2000.”

dióxido de carbono atmosférico em Maio

(Níveis recorde de dióxido de carbono atmosférico, como visto neste gráfico de Domingo 15 de Maio pelo Copernicus Observatory, são a principal força motriz de um pico incrível nas temperaturas globais durante 2016. Fonte da imagem: Observatório Copernicus).

Apesar de ser provável que 2016 seja um ano quente recorde, as leituras globais têm registado uma ligeira moderação desde o início deste ano assim que o El Nino começou a desvanecer-se. Mas isso não significa que estejamos fora da zona de perigo. Muito pelo contrário, estamos a correr em direção a limiares climáticos a um ritmo nunca antes visto. E isso é realmente preocupante. As leituras mensais de pico este ano atingiram uns ridículos 1,55 C acima da média da década de 1880 na altura do El Nino durante Fevereiro. E o recorde mensal atual de Abril está empatado com Janeiro de 2016 na medida da NASA. No total, os primeiros quatro meses de 2016 têm agora uma média 1,43 C acima das linhas de base da década de 1880 ou desconfortavelmente perto da marca de 1,5 C estabelecida pelos cientistas como sendo o primeiro de muitos limites climáticos cada vez mais perigosos.

De acordo com Pitman:

“O alvo de 1.5C é pensamento desejoso. Não sei se se obteria 1.5C se se parasse com as emissões hoje. Há inércia no sistema. Está [agora] a colocar pressão intensa sobre os 2C.”

E quando cientistas ortodoxos começam a dizer coisas assim, é mesmo tempo de o resto de nós começar a tomar atenção.

Um Mundo Quente Recorde Feito pela Queima de Combustíveis Fósseis e Consistente com as Previsões Científicas

Olhando para onde o mundo tem aquecido mais, descobrimos que as maiores diferenças extremas de temperatura durante Abril foram novamente centradas sobre o climatologicamente vulnerável Ártico. Alaska, Noroeste do Canadá, o Mar de Beaufort, uma grande parte da Sibéria Central, a costa oeste da Groenlândia, os Mares de Laptev e Kara, e uma secção do Norte de África, todos experienciaram temperaturas mensais na ordem de 4 a 6,5 ​​graus Celsius acima da média. Valores mensais que são gritantes de tão quente. Uma região notavelmente maior experimentou um calor significativo com temperaturas a variarem entre 2 e 4 C acima da linha de base do século 20 da NASA. No geral, quase todas as regiões do mundo experimentaram leituras acima da média – com as exceções notáveis ​​associadas a zonas de depressão extremas relacionadas a padrões climáticos alterados pela mudança climática e manchas frias do oceano induzidas pelo derretimento glacial relacionado com o aquecimento.

O mês de Abril foi o mais quente com temperaturas recordes

(Foto da NASA de um mundo com uma febre alta e a piorar durante um Abril de 2016 quente recorde. Fonte da imagem: NASA GISS).

Estas regiões contra-tendência incluem a mancha fria do Atlântico Norte resultante da zona de derretimento da Gronelândia, a zona de depressão sobre a Baía de Hudson, a zona de depressão sobre o Noroeste do Pacífico, e a zona oceânica de absorção de calor que é o tempestuoso Oceano Antártico. A amplificação de aquecimento observada na região polar Norte, juntamente com a formação da mancha fria do Atlântico Norte e a ativação da zona dissipadora de calor no Oceano Antártico, são todos consistentes com os padrões de aquecimento global relacionados previstos por modelos climáticos e resultantes da queima de combustível de fóssil pelos humanos que empurra os níveis atmosféricos de CO2 bem acima das 400 partes por milhão nos últimos anos.

Calor Recorde Impulsiona Desastres Climáticos sem Precedentes

Este padrão de calor global recorde tem gerado numerosos desastres relacionados à mudança climática. Nas regiões equatoriais do mundo, têm surgido crises de seca e fome. Estas têm se tornado particularmente intensas em África e na Ásia. Em África, dezenas de milhões de pessoas estão agora à beira da fome. Na Índia, 330 milhões de pessoas estão sob estresse hídrico devido ao que é provavelmente a pior seca que aquela nação já experimentou. A Austrália viu 93 por cento da sua Grande Barreira de Coral sucumbir a um branqueamento de coral resultante do calor. E uma vez que o calor do oceano naquela região do mundo ultrapassou uma fasquia que vai forçar eventos de branqueamento mais e mais frequentes, é questionável se o grande recife de coral irá até sobreviver nas próximas décadas.

Pittman no Guardian, novamente:

“A coisa que está a causar esse aquecimento, está a aumentar e aumentar e aumentar. Logo, as temperaturas frias do oceano que vamos obter com uma La Niña são mais quentes do que alguma vez teríamos visto mais do que algumas décadas atrás … Esta é uma tareia em grande escala no sistema de recife de coral numa base contínua, com alguns pontapés ocasionais muito desagradáveis ​​e dos quais não se vai recuperar.”

Na Flórida, a acidificação dos oceanos devido às emissões de combustíveis fósseis está a fornecer os seus próprios socos e pontapés no maior recife de coral na costa daquele estado. Num efeito diferente do aquecimento, a acidificação é uma alteração química causada por águas do oceano que se tornam sobrecarregadas com carbono. Como uma espécie de chuva ácida constante sobre o recife que faz com que o calcário do qual é feito se dissolva.

E se os impactos acima não forem suficientes para manter-nos acordados durante a noite, incêndios florestais sem precedentes em Maio também forçaram o abandono de uma cidade inteira no Canadá. Ilhas por todo o mundo estão a ser engolidas pelo aumento do nível dos oceanos devido ao derretimento do manto de gelo e expansão térmica. Cidades ao longo das costas do Atlântico e do Golfo nos Estados Unidos estão a enfrentar eventos de inundação de maré cada vez piores. O derretimento glacial na Gronelândia e na Antártida está a acelerar. E o gelo do mar do Ártico é tão fino e derrete tão rápido que alguns estão a questionar se algum sobreviverá até Setembro.

A La Nina está a Chegar, Mas Isso Não Vai Ajudar Muito

É importante notar que as temperaturas atmosféricas globais irão resfriar temporariamente dos picos de 2016 já que a La Nina está previsto instalar-se por este Outono. Contudo, os gases de efeito estufa estão tão elevados e o balanço energético da Terra está tão intenso que o oceano global, o gelo e o sistema atmosférico ainda estão a acumular calor a uma taxa sem precedentes. Enquanto a La Nina entra em ação, esse calor extra irá, na sua maior parte, para os oceanos e o gelo enquanto a atmosfera esfria um pouco – preparando-se para o próximo grande impulso já que o El Nino se prepara mais uma vez.

global-warming-since-1850

(O aquecimento global está numa espiral em direção a limiares climáticos perigosos. Gráfico pelo cientista climático Ed Hawkins.)

Esta mudança baseada na variabilidade natural em direção a uma La Nina não devia realmente ser encarada como uma boa notícia. Uma pluma maciça de humidade levantou dos oceanos globais durante o presente pico de calor e, enquanto as temperaturas globais arrefecem, há um risco aumentado de grandes eventos de inundações de uma espécie a que realmente não estamos acostumados. A La Nina também produz zonas de seca — em particular sobre uma Califórnia já em sofrimento — e o aquecimento adicionado a partir do aumento das temperaturas globais vai adicionar à intensidade da seca nessas regiões também.

Com as temperaturas globais previstas para atingirem cerca de 1,3 C acima das médias pré-industriais para o conjunto de 2016, é duvidoso que o mundo vá sequer ver novamente um ano em que as temperaturas caiam abaixo do limiar climático de 1 C. E isso significa derretimento mais rápido do gelo glacial, agravamento dos incêndios, mais perturbação para as estações e colheitas, tempestades e eventos de chuva mais extremos, taxas mais rápidas de aumento do nível do mar, zonas de seca em expansão, mais ondas de calor indutoras de baixas em massa, expansão dos alcances das doenças tropicais, aumento do alcance das espécies invasoras nocivas, e uma infinidade de outros problemas. Nos últimos anos, passámos os limiares para alterações climáticas perigosas. E com as temperaturas globais a aumentarem tão rapidamente, estamos a entrar num problema mais e mais profundo.

No final, a nossa melhor esperança para diminuir essas condições que se agravam é reduzir rapidamente as emissões globais de carbono a zero ou valores de balanço negativos. Até fazermos isso, vai ser uma escalada em rampa de agravamento dos impactos que vêm pelo tubo abaixo.

Traduzido do original NASA — World Just Had Seven Months Straight of Record-Shattering Global Heat, publicado por Robertscribbler em http://robertscribbler.com/ a 16 de Maio de 2016.

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Comparação das anomalias das temperaturas de 2016, 2015, 2014 e 2010
Peter Sinclair

O Pico de Temperatura deste Mês Significa o Quê?

Steve Sherwood e Stefan Rahmstorf em The Conversation:

As temperaturas globais para fevereiro revelaram um pico preocupante e sem precedentes. Esteve 1,35℃ mais quente do que a média de fevereiro para o período de linha de base usual de 1951-1980, de acordo com dados da NASA.

Esta é a maior anomalia quente de qualquer mês desde que os registos começaram em 1880. Excede em muito os recordes batidos em 2014 e novamente em 2015 (o primeiro ano em que a marca de 1℃ foi ultrapassada).

No mesmo mês, a cobertura de gelo marinho do Ártico atingiu o seu valor mais baixo para fevereiro jamais registado. E a concentração de dióxido de carbono na atmosfera no ano passado aumentou mais de 3 partes por milhão, outro recorde.

O que é que se passa? Estamos diante de uma emergência climática?

Toca a acordar
Toca a acordar! Situação de emergência de aquecimento global com pico de temperatura de fevereiro

Desvio da média de 1951-1980 das temperaturas para fevereiro entre 1880 e 2016

Temperaturas de fevereiro de 1880 a 2016, a partir de dados da NASA GISS. Os valores são desvios do período base de 1951-1980. Stefan Rahmstorf

O El Niño e a Mudança Climática

Duas coisas que se estão a combinar para produzir o calor recorde: a tendência de aquecimento global que nos é bem conhecida causada pelas nossas emissões de gases de efeito estufa, e um El Niño no Pacífico tropical.

O registo mostra que o aquecimento da superfície global foi sempre sobreposto pela variabilidade climática natural. A maior causa dessa variabilidade é o ciclo natural entre as condições de El Niño e La Niña. O El Niño em 1998 bateu os recordes, mas agora temos um que parece ser ainda maior em algumas medidas.

O padrão de calor em fevereiro mostra assinaturas típicas tanto do aquecimento global a longo prazo como do El Niño. Este último é muito evidente nos trópicos.

Mais ao norte, o padrão é semelhante a outros fevereiros desde o ano 2000: um aquecimento particularmente forte no Ártico, Alasca, Canadá e no norte do continente Euro-Asiático. Outra característica notável é uma bolha fria no Atlântico Norte, que tem sido atribuída a um abrandamento na Corrente do Golfo.

O pico de aquecimento de Fevereiro trouxe-nos pelo menos 1,6℃ acima dos níveis pré-industriais das temperaturas médias globais. Isto significa que, pela primeira vez, ultrapassámos a meta aspiracional internacional de 1,5℃ acordada em dezembro, em Paris. Estamos a chegar desconfortavelmente perto de 2℃.

Felizmente, isto é temporário: o El Niño está a começar a diminuir.

Infelizmente, fizemos pouco quanto ao aquecimento subjacente. Se não for controlado, isso fará com que esses picos aconteçam mais e mais vezes, com um pico maior que 2℃ a estar talvez apenas a um par de décadas de distância.

Os gases de efeito estufa que aquecem lentamente a Terra continuam a aumentar em concentração. A média de 12 meses ultrapassou as 400 partes por milhão mais ou menos há um ano – o nível mais alto em pelo menos um milhão de anos. A média subiu ainda mais rápido em 2015 do que nos anos anteriores (provavelmente também devido ao El Niño, pois isso tende a trazer seca para muitas partes do mundo, o que significa que menos carbono é armazenado no crescimento de plantas).

Um lampejo de esperança é que as nossas emissões de dióxido de carbono dos combustíveis fósseis, pela primeira vez em décadas, pararam de aumentar. Esta tendência tem sido evidente ao longo dos dois últimos anos, principalmente devido a um declínio do uso do carvão na China, que anunciou recentemente o encerramento de cerca de 1.000 minas de carvão.

Temos subestimado o aquecimento global?

Será que o “pico” muda a nossa compreensão do aquecimento global? Ao pensar sobre a mudança climática, é importante adotar uma visão de longo prazo. Uma situação tipo La Niña predominante nos últimos anos não significou que o aquecimento global tinha “parado”, como algumas figuras públicas estavam (e provavelmente ainda estão) a reivindicar.

Da mesma forma, um pico quente devido a um grande evento El Niño – mesmo que surpreendentemente quente – não significa que o aquecimento global tenha sido subestimado. No longo prazo, a tendência de aquecimento global está muito bem de acordo com as previsões de longa data. Mas essas previsões, no entanto, pintam um retrato de um futuro muito quente se as emissões não forem reduzidas em breve.

A situação é semelhante à de uma doença grave como cancro: o paciente normalmente não fica ligeiramente pior a cada dia, mas tem semanas em que a família pensa que ele pode estar a recuperar, seguidas de dia terríveis de recaídas. Os médicos não mudam o seu diagnóstico de cada vez que isso acontece, porque eles sabem que isto faz tudo parte da doença.

Embora o corrente pico derivado do El-Niño seja temporário, vai durar tempo suficiente para ter algumas consequências graves. Por exemplo, um evento maciço de branqueamento de coral parece provável na Grande Barreira de Corais.

Aqui na Austrália temos vindo a bater recordes de calor nos últimos meses, incluindo 39 dias seguidos em Sydney acima de 26℃ (o dobro do recorde anterior). As notícias parecem estar centradas no papel do El Niño, mas o El Niño não explica por que os oceanos ao sul da Austrália, e no Ártico, estão em temperaturas altas recorde.

A outra metade da história é o aquecimento global. Isto está a impulsionar cada El Niño sucessivo, juntamente com todos os seus outros efeitos sobre as camadas de gelo e o nível do mar, o ecossistema global e eventos climáticos extremos.

Esta é a verdadeira emergência climática: está a ficar mais difícil, a cada ano que passa, para a humanidade evitar que as temperaturas subam acima de 2℃. Fevereiro devia lembrar-nos o quão urgente é a situação.

Traduzido do original What Does This Month’s Temp Spike Mean? de Peter Sinclair, publicado no blogue Climate Denial Crock of the Week, a 16 de Março de 2016.
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Robertscribbler

O Telhado Está a Arder – Parece que Fevereiro de 2016 Esteve 1.5 a 1.7 C Acima das Médias de 1880

Antes de começarmos a explorar esta instância mais recente e mais extrema de uma longa série de temperaturas globais de quebrar recordes, devíamos ter um momento para creditar os nossos “amigos” negadores da mudança climática pelo que está a acontecer no Sistema Terra.

Durante décadas, uma coligação de interesses especiais em combustíveis fósseis, investidores de grandes negócios, grupos de reflexão relacionados, e a grande maioria do Partido Republicano, têm lutado estridentemente para evitarem uma acção eficaz na mitigação dos piores efeitos da mudança climática. Na sua louca missão, eles atacaram a ciência, demonizaram líderes, paralizaram o Congresso, mancaram o governo, apoiaram combustíveis fósseis destinados a falhar, impediram ou desmancharam regulamentação útil, tornaram o Supremo Tribunal numa arma contra as soluções de energias renováveis, e puseram abaixo indústrias que teriam ajudado a reduzir o dano.

Através destas ações, eles têm sido bem sucedidos na prevenção da mudança rápida e necessária de desistência da queima de combustíveis fósseis, travando uma liderança americana florescente em energias renováveis ​​e ao inundarem o mundo com o carvão, petróleo e gás de baixo custo, que são agora tão destrutivos para a estabilidade do Sistema Terra. Agora, parece que alguns dos impactos mais perigosos das alterações climáticas já estão garantidos. E assim, quando a história olha para trás e pergunta – por que fomos tão estúpidos? Podemos honestamente apontar os nossos dedos para aqueles ignorantes e dizer “aqui estavam os sumo sacerdotes infernais que sacrificaram um futuro assegurado e a segurança dos nossos filhos no altar de seu orgulho tolo.”

Piores Receios para o Aquecimento Global Realizados

Sabíamos que ia haver sarilho. Sabíamos que as emissões de gases de efeito estufa humanas tinham carregado o oceano global com calor. Sabíamos que um El Nino recorde iria explodir um grande bocado desse calor de volta para a atmosfera assim que começou a desvanecer. E sabíamos que mais recordes da temperatura global estavam a caminho no final de 2015 e início de 2016. Mas tenho que admitir que os primeiros indícios para fevereiro são simplesmente assombrosos.

Aquecimento Global Extremo - temperaturas

(O modelo GFS mostra temperaturas com médias de 1.01 C acima da já significativamente mais quente do que o normal linha de base de 1981-2010. Observações subsequentes a partir de fontes independentes confirmaram este pico dramático da temperatura para fevereiro. Aguardamos as observações da NASA, NOAA e JMA para uma confirmação final. Mas a tendência nos dados é surpreendentemente clara. O que estamos a ver são as temperaturas globais mais quentes, de longe, desde que os registos começaram. Note-se que as maiores anomalias de temperatura aparecem exatamente onde não as queremos – no Ártico. Fonte da imagem: GFS e MJ Ventrice).

Eric Holthaus e MJ Ventrice, na segunda-feira, foram os primeiros a dar o aviso de um pico extremo nas temperaturas tal como registado pela medição global por satélite. Seguiu-se uma série de relatos dos mídia. Mas foi só hoje que começámos realmente a ter uma visão clara do potencial de danos atmosféricos.

Nick Stokes, um cientista do clima aposentado e blogger em Moyhu, publicou uma análise dos dados preliminares recentemente libertados pela NCAR e o indicador está simplesmente elevado de modo absolutamente fora de série. De acordo com esta análise, as temperaturas de fevereiro podem ter estado tanto quanto 1,44 C mais quentes do que a linha de base da NASA de 1951-1980. Convertendo as diferenças a partir dos valores da década de 1880, se estas estimativas preliminares se confirmarem, iriam colocar os números do GISS nuns extremos 1,66 C mais quentes do que os níveis de 1880 para fevereiro. Se o GISS corre 0,1 C mais frio do que as conversões NCAR, como tem feito ao longo dos últimos meses, então o aumento de temperatura de 1880 a fevereiro de 2016 seria de cerca de 1,56 C. Ambos são saltos incrivelmente altos que deixam uma dica de que 2016 poderia vir a ser bastante mais quente do que até mesmo 2015.

É importante notar que grande parte destas temperaturas globais elevadas recorde estão centradas no Ártico – uma região que é muito sensível ao aquecimento e que tem o potencial de produzir uma série de feedbacks amplificadores perigosos. Assim, poderíamos muito bem caracterizar um fevereiro quente recorde iminente como um no qual muito do excesso de calor explodiu no Ártico. Por outras palavras, os gráficos da anomalia da temperatura global fazem parecer que o teto do mundo está em chamas. Isso não é literal. Grande parte do Ártico permanece abaixo de zero. Mas anomalias de 10 a 12 C acima da temperatura média para um mês inteiro em grandes regiões do Ártico é um assunto sério. Isso significa que grandes partes do Ártico não experienciaram nada que se aproxime de um verdadeiro inverno no Ártico este ano [Artigo em Português].

Parece que o Limiar de 1,5 C foi Quebrado na Medição Mensal e Podemos Estar a Olhar para 1,2 a 1,3 C+ Acima de 1880s para todo 2016

Colocando estes números em contexto, parece que podemos ter já ultrapassado o limiar de 1,5 C acima dos valores dos anos de 1880 na medição mensal em fevereiro. Isto está a entrar num campo de riscos elevados para a aceleração do derretimento do gelo marinho e da neve no Ártico, perda de albedo, descongelamento da permafrost e uma série de outros feedbacks relacionados amplificadores de um aquecimento do nosso mundo forçado por humanos. Um conjunto de mudanças que irão, provavelmente, adicionar à velocidade de um, já rápido de si, aquecimento baseado em combustíveis fósseis. Mas devemos ter muito claro que as diferenças mensais não são diferenças anuais, e que a medida anual para 2016 é menos provável de vir a atingir ou exceder a diferença de 1.5 C. É justo dizer, porém, que diferenças anuais de 1,5 C são iminentes e vão provavelmente aparecer dentro de 5 a 20 anos.

Se usarmos o El Nino de 1997-1998 como base, descobrimos que as temperaturas globais para esse evento atingiram um máximo de cerca de 1,1 C acima das médias da década de 1880 durante fevereiro. O ano, contudo, ficou em cerca de 0,85 C acima das médias de 1880. Usando uma análise semelhante de verso de guardanapo, e assumindo que 2016 irá continuar a ver as temperaturas de superfície do mar Equatorial a continuarem a arrefecer, podemos estar a olhar para 1,2 a 1,3 C acima da média de 1880 para este ano.

Previsao para El Nino - Anomalia da Temperatura

(O El Nino está a arrefecer. Mas continuará a arrastar-se até 2016? Os conjuntos do modelo do Climate Prediction Center CFSv2 [Centro de Previsão Climática] parecem pensar que sim. A execução mais recente mostra a corrente El Nino a refortalecer-se no Outono de 2016. Tal evento tenderia a empurrar as temperaturas globais anuais para mais perto de 1,5 C acima do limiar da década de 1880. Também estabeleceria o potencial externo para mais um ano quente recorde em 2017. É importante notar que o consenso da NOAA ainda é o de um ENSO Neutro a enfraquecer as condições de La Niña pelo Outono. Fonte da imagem: Centro de Previsão do Clima da NOAA).

A NOAA está presentemente a prever que o El Nino fará a transição para ENSO Neutro ou para uma la Nina fraca, pelo final do ano. Contudo, algumas execuções de modelos mostram que o El Nino nunca chega a terminar realmente para 2016. Em vez disso, estes modelos prevêm que um El Nino fraco a moderado venha no Outono. Em 1998, um forte La Nina começou a formar-se, o que teria ajudado a conter as temperaturas atmosféricas no final do ano. A previsão de 2016, contudo, não parece indicar tão grande assistência no arrefecimento atmosférico proveniente do sistema oceânico global. Então, as médias anuais no fim de 2016 poderão empurrar mais para perto de 1,3 C (ou um pouco mais) acima dos níveis da década de 1880.

Tivemos Este Aquecimento no Sistema Já Há Algum Tempo, Apenas Estava a Esconder-se nos Oceanos

Outro pedaço do contexto sobre o qual devíamos ser muito claros, é que o Sistema Terra tem estado a viver com o calor atmosférico que estamos a ver agora há algum tempo. Os oceanos iniciaram uma acumulação muito rápida de calor devido ao forçamento das emissões de gases de efeito estufa durante os anos 2000. Uma taxa de acumulação de calor nas águas do mundo que tem acelerado até ao presente ano. Este excesso de calor já impactou o sistema climático ao acelerar a desestabilização dos glaciares na zona basal na Gronelândia e na Antártida. E também contribuiu para novas perdas recorde do gelo marinho global e é uma fonte provável de relatórios das zonas de plataforma continental do mundo nas quais têm sido observadas pequenas, mas preocupantes, instabilidades nos clatratos.

Acumulação de calor pelo oceano global

(A acumulação de calor no oceano global tem estado a subir em rampa desde o final dos anos 1990, com 50 por cento da acumulação total de calor a ocorrer nos 18 anos entre 1997 e 2015. Uma vez que mais de 90 por cento do forçamento de calor pelos gases de efeito estufa acaba no sistema do oceano global, esta medida em particular é provavelmente a imagem mais precisa de um mundo em rápido aquecimento. Uma tão rápida acumulação de calor nos oceanos do mundo garantiu uma eventual resposta da atmosfera. A verdadeira questão agora é – quão rapidamente e quão extensa? Fonte da imagem: Nature).

Mas elevar o aquecimento atmosférico terá inúmeros impactos adicionais. Irá colocar pressão sobre as regiões de superfície dos glaciares globais, adicionando ao aumento repentino na pressão de fusão basal que já vimos. Irá amplificar ainda mais o ciclo hidrológico – aumentando as taxas de evaporação e precipitação em todo o mundo e amplificando secas extremas, incêndios e inundações. Vai aumentar as temperaturas de superfície globais de pico, aumentando assim a incidência de eventos de baixas em massa por vagas de calor. Irá fornecer mais energia de calor latente para as tempestades, continuando a empurrar para cima o limiar de intensidade de pico destes eventos. E vai ajudar a acelerar o ritmo das mudanças regionais nos sistemas climáticos tais como a instabilidade do tempo no Atlântico Norte e aumentar a tendência de seca nos EUA (especialmente o Sudoeste dos EUA).

Entrando na Zona Perigosa da Mudança Climatica

O intervalo de 1-2 C acima das temperaturas da década de 1880 em que estamos agora a entrar é um em que as mudanças climáticas perigosas tenderão a crescer de forma mais rápida e aparente. Tal calor atmosférico não tem sido experienciado na Terra em pelo menos 150.000 anos, e o mundo de então era um lugar muito diferente daquilo a que os seres humanos foram acostumados no século 20. Contudo, a velocidade a que as temperaturas globais estão a subir é muito mais rápida do que alguma vez foi visto durante qualquer período interglacial para os últimos 3 milhões de anos, e é provavelmente ainda mais rápido do que o aquecimento observado durante eventos de extinção por efeito de estufa como o MTPE e o Permiano. Esta velocidade de aquecimento irá quase certamente ter efeitos adicionados para além do contexto do paleoclima.

Anomalia dos Graus-Dia no Artico

(Quem olha para o gráfico de anomalia da temperatura no topo deste post pode ver que uma quantidade desproporcional da anomalia da temperatura global está a aparecer no Ártico. Mas a região do Extremo Norte acima da linha de Latitude de 80 graus está entre as regiões que experimentam anomalias do pico global. Lá, graus-dia abaixo de zero estão nos níveis mais baixos já registados – atingindo agora uma anomalia de -800 no registo do Ártico. Em termos simples – quanto menos graus-dia abaixo de zero o Ártico experiencia, o mais próximo estará de derreter. Fonte da imagem: CIRES / NOAA).

Um último ponto a deixar claro e que vale a pena repetir. Nós, ao darmos ouvidos aos negadores da mudança climática e deixarmos que entupam as obras políticas e económicas, provavelmente já trancámos no sistema alguns dos efeitos negativos das alterações climáticas, que poderiam ter sido evitados. O tempo para darmos ouvidos a esses tolos acabou. O tempo para arrastar os pés e andar com meias-medidas está agora a chegar ao fim. Precisamos de uma resposta muito rápida. Uma resposta que, neste momento, ainda está a ser adiada pela indústria de combustíveis fósseis e os negadores da mudança climática que incitaram a sua beligerância.

Links:

O Velho Normal Já Era

NASA GISS

Quente Quente Quente

Michael J. Ventrice

Ártico Sem Inverno em 2016 [Traduzido em Português]

Grande Salto nas Medições da Temperatura à Superfície e pelo Satélite

Centro de Previsão Climática da NOAA

Captação de Calor pelo Oceano Global na Era Industrial Duplica em Décadas Recentes

CIRES / NOAA

Governadores Republicanos Processam para Pararem o Plano de Energia Limpa

Traduzido do original The Roof is On Fire — Looks like February of 2016 Was 1.5 to 1.7 C Above 1880s Averages, publicado por Robertscribbler em http://robertscribbler.com/ a 3 de Março de 2016.

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A Máxima Extensão do Gelo Marinho Já Foi Atingida Este Ano?

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