Extensão de gelo no Ártico a 25 fevereiro 2016
Aquecimento Global Descontrolado, Ártico, Metano

Três Tipos de Aquecimento no Ártico

Sugerimos a leitura de “3 Tipos de Aquecimento no Ártico” no site Aquecimento Global: A Mais Recente Ciência Climática
 
O Ártico é propenso a sofrer de três tipos de aquecimento. Em primeiro lugar, o Ártico é atingido de forma particularmente forte pelas emissões, como discutido em posts anteriores como este e este.

Segundo, o aquecimento no Ártico está a acelerar devido aos feedbacks, como discutido na página sobre os feedbacks. Muitos desses feedbacks estão relacionados com a diminuição da cobertura de neve e gelo no Ártico, que por sua vez é agravada pelas emissões tais como fuligem.

Em terceiro lugar, o feedback mais perigoso é a libertação de metano a partir do fundo do mar do Oceano Ártico, devido aos hidratos serem desestabilizados à medida que o calor atinge os sedimentos.

Extensão de gelo no Ártico a 25 fevereiro 2016

No ano passado, o gelo do Ártico atingiu a sua extensão máxima a 25 de Fevereiro de 2015. Este ano, há muito menos gelo marinho no Ártico do que no ano passado. A diferença é de cerca de 300.000 km quadrados, mais do que o tamanho do Reino Unido.

Tipos de aquecimento no Ártico - feedbacks

O gelo do mar pode refletir até 90% da luz solar de volta ao espaço. Uma vez que o gelo derrete, contudo, a água do oceano reflete apenas 6% da radiação solar que entra e absorve o resto. Isto é representado na imagem acima como feedback # 1.

albedo

Como o professor Peter Wadhams, uma vez calculou, o aquecimento devido à perda de neve e de gelo do Ártico poderia mais que duplicar o aquecimento líquido causado agora por todas as emissões de todos os povos do mundo.

Peter Wadhams, mudança no Albedo e Aquecimento Global

O gelo do mar age como um atenuador que absorve o calor. Quando o gelo está a derreter, cada grama de gelo precisará de 334 Joules de calor para passar a água, enquanto a temperatura se mantém a 0° Celsius ou 32° Fahrenheit.

Uma vez que todo o gelo se transformou em água, todo o calor extra vai para o aquecimento da água. Para elevar a temperatura de um grama de água em um grau Celsius, então, serão necessários apenas 4,18 Joule de calor. Por outras palavras, a fusão do gelo absorve 8 vezes mais calor do que o necessário para aquecer a mesma massa de água de zero a 10°C. Isto é representado na imagem acima como feedback # 14.

O vídeo em cima, criado por Stuart Trupp, mostra como o calor adicionado ao início (A) vai principalmente aquecer a água que contém os cubos de gelo. A partir de cerca dos 38 segundos no filme, todo o calor começa a ir para a transformação dos cubos de gelo em água, enquanto que a temperatura da água não sobe (B). Mais de um minuto mais tarde, quando os cubos de gelo tiverem derretido (C), a temperatura da água começa a aumentar rapidamente outra vez.

O metano é um feedback adicional, descrito como feedback # 2 na imagem mais acima. Como a água do Oceano Ártico está a ficar cada vez mais quente, o perigo aumenta de que o calor irá chegar ao fundo do mar, onde pode desencadear a libertação de quantidades enormes de metano, num ciclo de feedback adicional que fará o aquecimento no Ártico acelerar e escalar num aquecimento descontrolado.

Os sedimentos debaixo do Oceano Ártico contém vastas quantidades de metano. Apenas uma parte do Oceano Ártico por si só, a Plataforma Continental da Sibéria (ESAS, veja o mapa abaixo), contém até 1.700 Gt de metano. A libertação repentina de menos de 3% dessa quantidade poderia adicionar 50 Gt de metano à atmosfera, e os especialistas têm alertado por muitos anos que eles consideram que uma tal quantidade está prestes a ser liberta a qualquer momento.

Niveis de metano atmosférico e em sedimentos

A figura acima dá-nos uma imagem simplificada da ameaça, mostrando que de uma carga total de metano na atmosfera de 5 Gt (entretanto é mais elevada), 3 Gt têm sido adicionadas desde a década de 1750, e esta adição é responsável por quase metade de todo o aquecimento global antropogénico. A quantidade de carbono armazenado em hidratos, globalmente, foi estimada em 1992 como sendo de 10.000 GT (USGS), enquanto que uma estimativa mais recente dá uma figura de 63.400 GT (Klauda & Sandler, 2005). Mais uma vez, a conclusão assustadora é que a Plataforma Continental da Sibéria (ESAS), sozinha, contém até 1700 Gt de metano sob a forma de hidratos de metano e gás livre contidos nos sedimentos, dos quais 50 Gt estão prestes a ser libertados abruptamente a qualquer momento.

Os sinais de aviso continuam a ficar mais fortes. Na sequência de uma leitura de um pico de metano de 3096 ppb [artigo em link em português] a 20 de Fevereiro de 2016, uma leitura de 3010 ppb foi registada na manhã de 25 de fevereiro de 2016, nos 586 mb (veja imagem abaixo).

Pico nos niveis de metano a 25 fevereiro 2016

Mais uma vez, este nível muito elevado foi provavelmente causado por metano proveniente do leito marinho do Oceano Ártico, numa localização na Cordilheira de Gakkel logo ao largo da Plataforma Continental Siberiana (ESAS – East Siberian Arctic Shelf), conforme discutido no post anterior. Esta conclusão é apoiada pelos níveis de metano em diferentes altitudes sobre a ESAS, como registado por ambos os satélites MetOp-1 e MetOp-2 no período da tarde, conforme ilustrado pela combinação de imagens abaixo mostrando os níveis de metano nos 469 mb.

Niveis de metano por satelite a 25 fevereiro 2016

A situação é calamitosa e apela a uma ação abrangente e eficaz, conforme descrito no Plano Climático.

Links:

Mecanismos de Reforço Positivo (Feedbacks) no Ártico

Mudanças no Albedo no Ártico

Chegou a hora de espalhar a mensagem

Os níveis de gases de efeito estufa e as temperaturas continuam a aumentar

Área de gelo marinho no Ártico em recorde mínimo para a época do ano

A Máxima Extensão do Gelo Marinho Já Foi Atingida Este Ano?

Plano Climático

Traduzido do original Three kinds of warming in the Arctic de Sam Carana, publicado no blogue Arctic News, a 26 de Fevereiro de 2016.

Outros blogues com publicações recentes sobre Alterações Climáticas em Português:

Como um Titanic o El Nino Começa a Esmorecer, Que Problemas Frescos Trará um Mundo Quente Recorde?

em https://aquecimentoglobalde…

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Aumento da temperatura de 1.5C
Aquecimento Global Descontrolado, Temperatura

Alterações Climáticas: Após o Acordo de Paris, Onde Ficamos?

Sugerimos a leitura de “Alterações Climáticas: Após o Acordo de Paris, Onde Ficamos?” no site Aquecimento Global: A Mais Recente Ciência Climática
 
No Acordo de Paris, os países comprometeram-se em fortalecer a resposta global à ameaça das alterações climáticas, mantendo o aumento da temperatura média global a menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais e fazendo esforços para limitar o aumento da temperatura em 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.

aumento da temperatura global 1,5C

Quanto é que as temperaturas já subiram? Como ilustrado pela imagem acima, dados da NASA mostram que, durante o período trimestral de setembro a novembro de 2015, estava ~ 1°C mais quente do que em 1951-1980 (ou seja, que a linha de base).

Uma tendência polinomial com base nos dados de 1880-2015 para estes três meses indica que um aumento de temperatura de 1,5°C em relação à linha de base será alcançado no ano de 2024.

Vamos verificar os cálculos. A linha de tendência mostra que estava ~ 0,3°C mais frio em 1900 comparado com a linha de base. Considerando o atual aumento em ~ 1°C, isso implica que desde 1900 houve um aumento de 1,3°C em relação à linha de base. Isto faz com que um outro aumento de 0,2°C até 2024, como indicado pela linha de tendência, resultaria num aumento conjunto em 2024 de 1,5°C em comparação com a linha de base.

Anomalia da temperatura de superfície nos continentes

A situação é ainda pior do que isso. O Acordo de Paris visa evitar um aumento de temperatura de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Quando incluímos os aumentos de temperatura desde os níveis pré-industriais até o ano de 1900, torna-se evidente que já ultrapassámos um aumento de 1,5°C desde os níveis pré-industriais. Isto é ilustrado pela imagem acima, anteriormente adicionada a Quanto tempo resta para agir? (vejam as notas ali), e pelo gráfico em baixo, de uma publicação recente por Michael Mann, que acrescenta que um aquecimento de ~ 0,3°C por efeito de estufa já havia ocorrido por volta do ano de 1900.

aumento da temperatura em 0,3°C até 1900

Um aquecimento de ~ 0,3°C por efeito de estufa já havia ocorrido pelo ano de 1900.

Vamos adicionar as coisas novamente. Um aumento de ~ 0,3°C antes de 1900, um novo aumento de 0,3°C entre 1900 e a linha de base (1951-1980) e um novo aumento de ~ 1°C desde a linha de base até à data, juntos representam um aumento de ~ 1,6°C em relação aos níveis pré-industriais.

Por outras palavras, já ultrapassámos um aumento de 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais em 0,1°C.

A linha de tendência indica que um novo aumento de 0,5°C terá lugar até ao ano de 2030. Ou seja, que sem uma ação abrangente e efetiva, ficará 2°C mais quente do que os níveis pré-industriais antes do ano de 2030.

O pior das emissões ainda está por vir.

A maior parte da ira de aquecimento global ainda está por vir e a situação é ainda mais ameaçadora do que na foto acima, pelas seguintes razões:

  1. Metade do aquecimento global tem até agora sido mascarado por aerossóis, particularmente os sulfatos que são emitidos quando alguns dos combustíveis fósseis mais sujos são queimados, como o carvão e combustível bunker. Enquanto fizermos a mudança necessária para a energia limpa, o efeito de mascaramento que vem com essas emissões irá desaparecer.
  2. Como Ricke e Caldeira salientam, o dióxido de carbono que é libertado agora, só atingirá o seu pico de impacto daqui a uma década. Por outras palavras, ainda estamos por experienciar toda a ira do dióxido de carbono emitido durante a última década.
  3. picos anormais de temperaturas

  4. A maior ameaça vem de picos de temperatura. Pessoas em algumas partes do mundo vão ser atingidas mais fortemente, especialmente durante os picos de verão, como discutido na próxima secção deste post. Enquanto as temperaturas sobem, a intensidade desses picos irá aumentar. A imagem à direita ilustra isso com uma previsão para 25 de Dezembro de 2015, mostrando o tempo extremo para a América do Norte, com temperaturas tão baixas como 30,6°F -0,8°C na Califórnia, e tão elevadas quanto 71,5°F ou 22°C na Carolina do Norte. [a 26 fizeram de facto 22°C na Carolina do Norte e 3°C na Califórnia].
  5. Mecanismos de reforço positivo como as rápidas mudanças de albedo no Ártico e as grandes quantidades de metano libertadas abruptamente do fundo do mar do Oceano Ártico, podem acelerar dramaticamente o aumento de temperatura. Além disso, o vapor de água vai aumentar em 7% para cada 1°C de aquecimento. O vapor de água é um dos gases de efeito estufa mais fortes, logo, o aumento do vapor de água continuará a contribuir para um aumento não-linear da temperatura. As subidas de temperatura resultantes ameaçam ser não-lineares, como discutido na secção final deste post.

A situação é ainda pior para alguns

Tais aumentos de temperatura vão atingir algumas pessoas mais do que outras. Para as pessoas que vivem no hemisfério norte, a perspectiva é pior do que para as pessoas no Hemisfério Sul.

Dados da NOAA mostram que a anomalia da temperatura global em terra e nos oceanos para novembro foi de 0,97°C, enquanto que a anomalia da temperatura global na terra e nos oceanos para 3 meses foi de 0,96°C. A anomalia da temperatura em terra no Hemisfério Norte (onde a maioria das pessoas vivem) em novembro 2015 para 12 meses foi de 1,39°C, como mostrado na imagem abaixo, enquanto a linha de tendência mostra que, para as pessoas que vivem no Hemisfério Norte, um aumento de 1,5°C em comparação com 1910-2000 poderia ser alcançado tão cedo quanto em 2017.

Anomalia da Temperatura Terrestre no Hemisfério Norte

De forma similar, a perspectiva é pior para as pessoas que vivem em regiões que já estão a experienciar agora elevadas temperaturas durante os picos de verão. Como disse, com o aumento das temperaturas, a intensidade de tais picos irá aumentar.

Mecanismos de Reforço Positivo (Feedbacks) no Ártico

A imagem abaixo, de uma publicação anterior, representa o impacto dos feedbacks que estão a acelerar o aquecimento no Ártico, com base em dados da NASA até Novembro de 2013, e a sua ameaça de causarem aquecimento global descontrolado. Como a imagem mostra, as temperaturas no Ártico estão a subir mais rápido do que em qualquer outro lugar no mundo, mas o aquecimento global ameaça recuperar o atraso assim que os feedbacks começarem a ser mais intensivos. A situação, obviamente, deteriorou-se ainda mais desde que esta imagem foi criada em novembro de 2013.

Aquecimento global acelerado no Ártico e mecanisos de reforço positivo

Aquecimento global acelerado no Ártico resultante dos mecanismos de reforço positivo. 1- Aquecimento global; 2- Aquecimento Acelerado no Ártico; 3- Aquecimento Global Fugidio.

A imagem abaixo mostra as anomalias da temperatura de superfície do mar no Hemisfério Norte em novembro.

Anomalia da Temperatura de Superfície do Mar

A imagem em abaixo dá uma indicação das elevadas temperaturas da água abaixo da superfície do mar. Anomalias tão elevadas como 10,3°C ou 18.5°F foram registadas ao largo da costa leste da América do Norte (círculo verde no painel direito da imagem em baixo) a 11 de dezembro de 2015, enquanto que a 20 de dezembro de 2015, temperaturas tão altas quanto 10.7°C ou 51,3°F foram registadas perto de Svalbard (círculo verde no painel direito da imagem abaixo), uma anomalia de 9,3°C ou 16.7°F.

Anomalia da Temperatura de Superfície dos Oceanos Dez 2015

Esta água quente é levada pela corrente do Golfo para o Oceano Ártico, ameaçando soltar grandes quantidades de metano do fundo do mar. A imagem abaixo ilustra o perigo, mostrando enormes quantidades de metano sobre o Oceano Ártico a 10 de Dezembro, de 2015.

Níveis de Metano no Ártico

O metano é libertado ao longo do Oceano Ártico em grandes quantidades, e este metano está a mover-se em direção ao equador à medida que atinge grandes altitudes. A imagem em baixo ilustra como o metano está a acumular-se em altitudes mais elevadas.

Níveis globais de metano

A imagem em cima mostra que o metano é especialmente proeminente em altitudes mais elevadas recentemente, tendo impulsionado os níveis de metano numa média estimada em 9 ppb ou cerca de 0,5%. As emissões anuais de hidratos foram estimadas em 99 Tg anualmente, numa publicação de 2014 (imagem abaixo).

Fontes de emissões de metano

Fontes de emissões de metano em Tg por ano.
Pântanos – 217 = 28,1%; Combustíveis fósseis e biomassa – 131 = 17%; Ruminantes, arroz, lixeiras – 200 = 25,9%; Outras fontes naturais, lagos, incêndios – 123 = 16%; Hidratos e Permafrost – 100 = 13%; Total – 171 Tg por ano.

Uns adicionais 0,5% de metano representam uma quantidade de cerca de 25Tg de metano. Isto vem em cima dos 99 Tg de metano estimados em 2014 como sendo libertados de hidratos anualmente.

A situação é calamitosa e apela a uma acção abrangente e eficaz, conforme descrito no Plano Climático.

Referências

– How Close Are We to ‘Dangerous’ Planetary Warming? By Michael Mann, December 24, 2015
http://www.huffingtonpost.com/michael-e-mann/how-close-are-we-to-dangerous-planetary-warming_b_8841534.html

– Maximum warming occurs about one decade after a carbon dioxide emission, by Katharine L Ricke and Ken Caldeira (2014)
http://iopscience.iop.org/1748-9326/9/12/124002/article

– How much time is there left to act?
http://arctic-news.blogspot.com/p/how-much-time-is-there-left-to-act.html

Durante os três meses do período entre Setembro e Novembro de 2015, esteve 1°C mais quente do que entre 1951-1980,…
Publicado por Sam Carana na quarta-feira, 16 de Dezembro de 2015, em Arctic-News.blogspot.com

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Aquecimento Global Descontrolado, Extinção, Metano, Paleoclima

Existe Mesmo Um “Monstro de Metano Do Ártico”?

O Monstro de Metano no Ártico poderá desencadear um evento de extinção em massa como o Permiano, através de um aquecimento global descontrolado causado pelo aquecimento humano pelas emissões de CO2?

O Monstro de Metano no Ártico poderá desencadear um evento de extinção em massa como o Permiano, através de um aquecimento global descontrolado causado pelo aquecimento humano pelas emissões de CO2?

Podemos salvar a humanidade da maior ameaça de sempre? Vídeo imperdível foca os riscos e incertezas da libertação catastrófica de metano pelo meio ambiente no Ártico: Clique Aqui!

Após milhões de anos de idades do gelo, o Ártico tornou-se um vasto repositório de carbono fóssil.

Ao longo dos milénios, camada após camada de material biológico à base de carbono foi trancado no solo congelado das tundras e leitos marinhos do Ártico. Algumas destas reservas têm-se simplesmente sepultado no gelo. Outras, já tornadas em metano através dos fluxos lentos do tempo, estão subjacentes ao solo congelado do Ártico e ao fundo do mar como uma espécie de gelo de fogo.

Uma substância instável, inflamável e explosiva chamado clatrato.

As próprias reservas são massivas – contendo entre 2 a 3 triliões de toneladas ou mais de carbono. Provavelmente mais de cinco vezes a quantidade de carbono já emitido pelos seres humanos na atmosfera nos últimos 150 anos. Uma quantidade que já provavelmente trancou cerca de 1,8 ºC de aquecimento a curto prazo e 3,6 ºC de aquecimento a longo prazo.

Mas um descongelamento do Ártico poderia desencadear uma cadeia de eventos que levariam a um muito pior aquecimento ainda por vir.

Num mundo frio de época glacial essas reservas de carbono não são ameaça. Como um dragão adormecido, elas permaneceram latentes nas zonas frias do mundo – incapazes de quebrarem o selo do gelo. Mas num mundo que os seres humanos estão a forçar a um aquecimento rápido através de um ritmo de emissões de gases de efeito estufa pelo menos seis vezes mais rápido do que em qualquer momento nos biliões de anos da história da Terra, corremos o risco de uma libertação imensa deste stock de carbono monstruoso.

Uma Questão de Feedback de Metano

Nós realmente não sabemos o quanto de calor é necessário para desencadear uma libertação descontrolada desta pilha monstruosa de carbono. Mas já aquecemos o mundo em pelo menos 0,8 graus Celsius e muitos pesquisadores do Ártico acreditam que apenas 1,5 graus Celsius de aquecimento global é suficiente para descongelar toda a tundra do Ártico.

Esse descongelamento iria certamente expor a enorme reserva de carbono da tundra aos elementos e à ação microbiana. Aumentando a libertação já significativa de carbono do Ártico e contribuindo em muito para o aquecimento humano da atmosfera e dos oceanos da Terra por meio de emissões de gases de efeito estufa.

Anomalias locais em medições de metano do Ártico disparadas pelo aquecimento causado pelo homem. Jason Box; Meltfactor

Anomalias locais em medições de metano do Ártico disparadas pelo aquecimento causado pelo homem. Jason Box; Meltfactor

(Num artigo recente no seu blog Meltfactor, o Dr. Jason Box questiona se as anomalias locais em medições de metano do Ártico envolvem mini explosões de metano disparadas pelo aquecimento causado pelo homem. O Dr. Box também questionou apropriadamente se tais emissões de metano eram sinais de uma possível maior libertação resultante da força do calor gerado pelo homem sobre o ambiente do Ártico. O Dr. Box, de forma semelhante à nossa própria investigação sobre o Monstro de Metano do Ártico, metaforicamente rotula estas explosões de “Sopro do Dragão”. Fonte da imagem: Meltfactor).

Alguns anos atrás, um grupo de 41 pesquisadores do Ártico sugeriram que mesmo que parássemos de emitir gases de efeito estufa rapidamente, a libertação de carbono do Ártico seria igual a cerca de 10 por cento das emissões humanas anuais e continuaria por muito tempo no futuro. Mais preocupante, esses pesquisadores observaram que a falha em reduzir rapidamente as emissões humanas de carbono resultaria numa libertação anual pelo Ártico equivalente a 35% ou mais das emissões humanas, colocando o mundo no caminho para um cenário de aquecimento descontrolado.

Mas a questão de libertação de carbono do Ártico é tudo menos simples ou fácil de entender. Pois uma porção significativa – possivelmente tanto como 1/3 até 1/2 do depósito de carbono do Ártico poderia libertar-se como metano. E o metano, em escalas de tempo muito curtas, é um gás de efeito estufa muito potente. Ao longo de 20 anos, o metano tem um potencial de aquecimento global 86 vezes maior que a de um volume semelhante de CO2. Mesmo que uma parcela muito pequena da reserva de carbono do Ártico fosse libertada como metano ao longo de um período relativamente curto – 1, 5, 10 ou 50 gigatoneladas de um depósito total que inclui milhares de gigatoneladas – poderia exagerar enormemente o já poderoso aquecimento humano em curso ou, na pior das hipóteses, disparar um evento de aquecimento descontrolado semelhante ao das grandes extinções do Permiano e do PETM (Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno).

Um Risco Mal Compreendido

Não ajudando, não há nem de longe suficientes observações diretas do ambiente do Ártico de modo a definir a taxa atual de liberação de carbono ou o provável aumento nas taxas de libertação ao longo das últimas décadas. Temos estudos que mostram mais metano emitido por lagos de tundra, por exemplo. Temos as expedições de Semiletov e Shakhova para o Oceano Ártico, que continuam a fornecer estimativas cada vez mais elevadas das emissões de metano provenientes de plumas [ou colunas] nos fundos dos mares Laptev e do leste da Sibéria. Temos estudos que mostram aumento da libertação de CO2 e metano dos vastos depósitos de carbono da tundra congelada de Yedoma na Sibéria. E temos os casos mais preocupantes de libertações de metano explosivas – provavelmente do descongelamento rápido de clatratos sob a permafrost – na região de Yamal na Rússia, este ano, que resultou em crateras dramáticas de tundra siberiana.

Sobrecarga muito significativa de metano no Ártico - No ano passado, no mês de Outubro, as leituras de metano ao longo da Cordilheira de Gakkel tiveram um pico de 2.662 partes por bilião - ou seja, mais de 800 partes por bilião acima da média global - antes de se difundirem na atmosfera. A imagem acima mostra os níveis de metano sobre a mesma região a subirem para mais de 2.400 partes por bilião a 16 de Setembro de 2014. - Arctic News

Sobrecarga muito significativa de metano no Ártico – No ano passado, no mês de Outubro, as leituras de metano ao longo da Cordilheira de Gakkel tiveram um pico de 2.662 partes por bilião – ou seja, mais de 800 partes por bilião acima da média global – antes de se difundirem na atmosfera. A imagem acima mostra os níveis de metano sobre a mesma região a subirem para mais de 2.400 partes por bilião a 16 de Setembro de 2014. – Arctic News

(Grande libertação de metano do fundo do oceano em curso? O Ártico continua a mostrar uma sobrecarga muito significativa de metano – insinuando maiores libertações de metano do seu meio. No ano passado, no mês de Outubro, as leituras de metano ao longo da Cordilheira de Gakkel tiveram um pico de 2.662 partes por bilião – ou seja, mais de 800 partes por bilião acima da média global – antes de se difundirem na atmosfera. A imagem acima mostra os níveis de metano sobre a mesma região a subirem para mais de 2.400 partes por bilião a 16 de Setembro de 2014. Link: Arctic News).

Mas esses estudos e instâncias focam apenas subsecções do Ártico. E, da mesma forma que vários homens cegos ao investigarem as várias partes de um elefante podem discordar sobre a forma geral da besta, nós temos um problema semelhante na compreensão da forma total da ameaça representada pela libertação de metano e carbono do Ártico.

O Dr. David Archer, que tem desenvolvido vários ensaios de modelos da potencial libertação de metano do leito do mar do Ártico, afirma que há essencialmente zero motivo de preocupação quanto à libertação de metano em grande escala para este século. Um número de pesquisadores do Ártico discordam com o principal destes ensaios, sendo Peter Wadhams, o Dr. Semiletov e a Dra. Shakhova, os quais todos parecem muito preocupados com o potencial para uma libertação em grande escala em breve. Um meio termo é povoado por uma série de pesquisadores como Carolyn Ruppel e Sue Natali do observatório Woods Hole. Estes pesquisadores estão, racionalmente, a pedir mais dados sobre uma questão que está por demais mal compreendida pela ciência.

Projeto CARVE da NASA Encontra Modelos em Desacordo Quanto à Libertação de Carbono do Ártico

Este atual falta de uma compreensão mais ampla e consenso científico na questão da potencial de resposta dos Sistemas do Ártico e da Terra a um crescente aquecimento da atmosfera e do oceano causado pelos humanos foi destacada no relatório da semana passada pelo estudo CARVE da NASA.

O estudo, que visava monitorizar as emissões de carbono do Ártico – correu uma série de modelos climáticos globais para tentar determinar o quanto de carbono está a ser libertado a partir do Ártico. O estudo não tentou apontar cenários de emissões futuras. Apenas teve como alvo tentar estabelecer uma linha de base para as emissões tal como estão agora. Uma compreensão requerida para se fornecer qualquer avaliação clara de como as emissões de carbono do Ártico poderão vir a estar no futuro.

Os pesquisadores conectaram os dados das atuais emissões localizadas de carbono do Ártico em 40 modelos climáticos globais e os modelos cuspiram devidamente os resultados os quais estavam por todo o quadro. Essencialmente, os modelos confirmaram o que nós analistas de risco já sabíamos: não há informação suficiente disponível para fornecer uma compreensão clara dos potenciais cenários de libertação de carbono do Ártico, muito menos apontar quanto de carbono está a ser emitido.

Do Relatório da Science Daily da semana passada:

Quanto carbono está a abandonar o seu solo em descongelamento e a adicionar efeito estufa à Terra? …

Um novo estudo realizado como parte do Carbon in Arctic Reservoirs Vulnerability Experiment (CARVE) [Experimento de Vulnerabilidade dos Reservatórios de Carbono do Ártico] da NASA, mostra precisamente quanto trabalho ainda precisa ser feito para se chegar a uma conclusão sobre esta e outras questões básicas sobre a região que o aquecimento global está a atingir de forma mais violenta.

O autor principal, Josh Fisher do Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA, em Pasadena, Califórnia, analisou 40 modelos de computador dos montantes e fluxos de carbono nos ecossistemas boreais e do Ártico do Alasca. A sua equipa encontrou grande discordância entre os modelos, destacando a necessidade urgente de mais medições na região …

“Todos nós sabíamos que havia grandes incertezas na nossa compreensão, e queríamos quantificar a sua extensão”, disse Fisher. Essa extensão revelou-se maior do que o que quase todos esperavam. “Os resultados foram chocantes para a maioria das pessoas”, disse ele.

Plumas de metano no oceano foram descobertas ao largo da costa leste dos EUA e no Mar de Laptev pela expedição SWERUS C3, Essas emissões incluem quase sempre reservas de clatratos destablizadas. Fonte da imagem: Nature Geoscience

Plumas de metano no oceano foram descobertas ao largo da costa leste dos EUA e no Mar de Laptev pela expedição SWERUS C3, Essas emissões incluem quase sempre reservas de clatratos destablizadas. Fonte da imagem: Nature Geoscience

(As infiltrações de metano do oceano como nestas aberturas recentemente descobertas ao largo da costa leste dos EUA e as descobertas no Mar de Laptev pela expedição SWERUS C3, são quase sempre mais numerosas e enérgicas do que se esperava; um resultado, provavelmente, do aumento do impacto do calor causado por humanos. Essas emissões incluem quase sempre reservas de clatratos destablizadas. Fonte da imagem: Nature Geoscience).

Levará anos até que os cientistas definam com mais certeza o risco representado pela libertação de carbono e metano do Ártico. Um risco que agora envolve em si próprio o potencial para desencadear uma nova extinção por efeito estufa do tipo Permiano durante os próximos 1 a 3 séculos. Um risco que, considerando tudo, é provavelmente o risco mais terrível que já enfrentámos como espécie.

Como tal, não podemos esperar por uma certeza absoluta sobre o escopo desse risco. Se há sensibilidade suficiente para desencadear uma grande libertação de carbono do Ártico a 1,5 C ou 6 C de aquecimento é discutível – porque sabemos que continuar a queimar combustíveis fósseis eventualmente nos levará lá mais cedo ou mais tarde.

Então, enquanto nós continuamos a pesquisar o que pode muito bem ser a maior ameaça ambiental que já enfrentámos, é inteiramente prudente começar uma rápida redução das emissões globais de carbono com o objetivo de chegar a zero emissões de carbono e emissões líquidas de carbono negativas o mais breve possível. Os riscos são simplesmente grandes demais para se continuar a atrasar a ação.

Traduzido do original “When it Comes to The Arctic Methane Monster, What We Don’t Know Really Could Kill Us — NASA Model Study Shows Very High Carbon Release Uncertainty” em http://robertscribbler.wordpress.com/

Referências bibliográficas utilizadas pelo autor:

High Risk of Permafrost Thaw

With Few Data Arctic Carbon Models Lack Consensus

Can We Save Humans From the Greatest Threat Ever?

Rate of Methane Release From Tundra Thaw Lakes Increases by 58%

Why We Should Be Paying More Attention to Methane

Hundreds of Seeping Methane Plumes Discovered off US East Coast

Meltfactor

Arctic News

SWERUS C3 Arctic Carbon Study

NOAA Earth Systems Research Laboratory

Climate Science: The Vast Cost of Arctic Change

Arctic Methane Monster Shortens Tail: ESAS Emitting Methane at Twice Expected Rate

Arctic Methane Monster Exhales: Third Tundra Crater Found in Siberia

High Velocity Human Warming Leads to Arctic Methane Monster’s Rapid Rise from Fens

How Much Methane Came Out of That Hole in Siberia?

Rapid Arctic Thaw Could be Economic Timebomb

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