Aquecimento Global Descontrolado, Extinção, Metano, Paleoclima

Existe Mesmo Um “Monstro de Metano Do Ártico”?

O Monstro de Metano no Ártico poderá desencadear um evento de extinção em massa como o Permiano, através de um aquecimento global descontrolado causado pelo aquecimento humano pelas emissões de CO2?

O Monstro de Metano no Ártico poderá desencadear um evento de extinção em massa como o Permiano, através de um aquecimento global descontrolado causado pelo aquecimento humano pelas emissões de CO2?

Podemos salvar a humanidade da maior ameaça de sempre? Vídeo imperdível foca os riscos e incertezas da libertação catastrófica de metano pelo meio ambiente no Ártico: Clique Aqui!

Após milhões de anos de idades do gelo, o Ártico tornou-se um vasto repositório de carbono fóssil.

Ao longo dos milénios, camada após camada de material biológico à base de carbono foi trancado no solo congelado das tundras e leitos marinhos do Ártico. Algumas destas reservas têm-se simplesmente sepultado no gelo. Outras, já tornadas em metano através dos fluxos lentos do tempo, estão subjacentes ao solo congelado do Ártico e ao fundo do mar como uma espécie de gelo de fogo.

Uma substância instável, inflamável e explosiva chamado clatrato.

As próprias reservas são massivas – contendo entre 2 a 3 triliões de toneladas ou mais de carbono. Provavelmente mais de cinco vezes a quantidade de carbono já emitido pelos seres humanos na atmosfera nos últimos 150 anos. Uma quantidade que já provavelmente trancou cerca de 1,8 ºC de aquecimento a curto prazo e 3,6 ºC de aquecimento a longo prazo.

Mas um descongelamento do Ártico poderia desencadear uma cadeia de eventos que levariam a um muito pior aquecimento ainda por vir.

Num mundo frio de época glacial essas reservas de carbono não são ameaça. Como um dragão adormecido, elas permaneceram latentes nas zonas frias do mundo – incapazes de quebrarem o selo do gelo. Mas num mundo que os seres humanos estão a forçar a um aquecimento rápido através de um ritmo de emissões de gases de efeito estufa pelo menos seis vezes mais rápido do que em qualquer momento nos biliões de anos da história da Terra, corremos o risco de uma libertação imensa deste stock de carbono monstruoso.

Uma Questão de Feedback de Metano

Nós realmente não sabemos o quanto de calor é necessário para desencadear uma libertação descontrolada desta pilha monstruosa de carbono. Mas já aquecemos o mundo em pelo menos 0,8 graus Celsius e muitos pesquisadores do Ártico acreditam que apenas 1,5 graus Celsius de aquecimento global é suficiente para descongelar toda a tundra do Ártico.

Esse descongelamento iria certamente expor a enorme reserva de carbono da tundra aos elementos e à ação microbiana. Aumentando a libertação já significativa de carbono do Ártico e contribuindo em muito para o aquecimento humano da atmosfera e dos oceanos da Terra por meio de emissões de gases de efeito estufa.

Anomalias locais em medições de metano do Ártico disparadas pelo aquecimento causado pelo homem. Jason Box; Meltfactor

Anomalias locais em medições de metano do Ártico disparadas pelo aquecimento causado pelo homem. Jason Box; Meltfactor

(Num artigo recente no seu blog Meltfactor, o Dr. Jason Box questiona se as anomalias locais em medições de metano do Ártico envolvem mini explosões de metano disparadas pelo aquecimento causado pelo homem. O Dr. Box também questionou apropriadamente se tais emissões de metano eram sinais de uma possível maior libertação resultante da força do calor gerado pelo homem sobre o ambiente do Ártico. O Dr. Box, de forma semelhante à nossa própria investigação sobre o Monstro de Metano do Ártico, metaforicamente rotula estas explosões de “Sopro do Dragão”. Fonte da imagem: Meltfactor).

Alguns anos atrás, um grupo de 41 pesquisadores do Ártico sugeriram que mesmo que parássemos de emitir gases de efeito estufa rapidamente, a libertação de carbono do Ártico seria igual a cerca de 10 por cento das emissões humanas anuais e continuaria por muito tempo no futuro. Mais preocupante, esses pesquisadores observaram que a falha em reduzir rapidamente as emissões humanas de carbono resultaria numa libertação anual pelo Ártico equivalente a 35% ou mais das emissões humanas, colocando o mundo no caminho para um cenário de aquecimento descontrolado.

Mas a questão de libertação de carbono do Ártico é tudo menos simples ou fácil de entender. Pois uma porção significativa – possivelmente tanto como 1/3 até 1/2 do depósito de carbono do Ártico poderia libertar-se como metano. E o metano, em escalas de tempo muito curtas, é um gás de efeito estufa muito potente. Ao longo de 20 anos, o metano tem um potencial de aquecimento global 86 vezes maior que a de um volume semelhante de CO2. Mesmo que uma parcela muito pequena da reserva de carbono do Ártico fosse libertada como metano ao longo de um período relativamente curto – 1, 5, 10 ou 50 gigatoneladas de um depósito total que inclui milhares de gigatoneladas – poderia exagerar enormemente o já poderoso aquecimento humano em curso ou, na pior das hipóteses, disparar um evento de aquecimento descontrolado semelhante ao das grandes extinções do Permiano e do PETM (Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno).

Um Risco Mal Compreendido

Não ajudando, não há nem de longe suficientes observações diretas do ambiente do Ártico de modo a definir a taxa atual de liberação de carbono ou o provável aumento nas taxas de libertação ao longo das últimas décadas. Temos estudos que mostram mais metano emitido por lagos de tundra, por exemplo. Temos as expedições de Semiletov e Shakhova para o Oceano Ártico, que continuam a fornecer estimativas cada vez mais elevadas das emissões de metano provenientes de plumas [ou colunas] nos fundos dos mares Laptev e do leste da Sibéria. Temos estudos que mostram aumento da libertação de CO2 e metano dos vastos depósitos de carbono da tundra congelada de Yedoma na Sibéria. E temos os casos mais preocupantes de libertações de metano explosivas – provavelmente do descongelamento rápido de clatratos sob a permafrost – na região de Yamal na Rússia, este ano, que resultou em crateras dramáticas de tundra siberiana.

Sobrecarga muito significativa de metano no Ártico - No ano passado, no mês de Outubro, as leituras de metano ao longo da Cordilheira de Gakkel tiveram um pico de 2.662 partes por bilião - ou seja, mais de 800 partes por bilião acima da média global - antes de se difundirem na atmosfera. A imagem acima mostra os níveis de metano sobre a mesma região a subirem para mais de 2.400 partes por bilião a 16 de Setembro de 2014. - Arctic News

Sobrecarga muito significativa de metano no Ártico – No ano passado, no mês de Outubro, as leituras de metano ao longo da Cordilheira de Gakkel tiveram um pico de 2.662 partes por bilião – ou seja, mais de 800 partes por bilião acima da média global – antes de se difundirem na atmosfera. A imagem acima mostra os níveis de metano sobre a mesma região a subirem para mais de 2.400 partes por bilião a 16 de Setembro de 2014. – Arctic News

(Grande libertação de metano do fundo do oceano em curso? O Ártico continua a mostrar uma sobrecarga muito significativa de metano – insinuando maiores libertações de metano do seu meio. No ano passado, no mês de Outubro, as leituras de metano ao longo da Cordilheira de Gakkel tiveram um pico de 2.662 partes por bilião – ou seja, mais de 800 partes por bilião acima da média global – antes de se difundirem na atmosfera. A imagem acima mostra os níveis de metano sobre a mesma região a subirem para mais de 2.400 partes por bilião a 16 de Setembro de 2014. Link: Arctic News).

Mas esses estudos e instâncias focam apenas subsecções do Ártico. E, da mesma forma que vários homens cegos ao investigarem as várias partes de um elefante podem discordar sobre a forma geral da besta, nós temos um problema semelhante na compreensão da forma total da ameaça representada pela libertação de metano e carbono do Ártico.

O Dr. David Archer, que tem desenvolvido vários ensaios de modelos da potencial libertação de metano do leito do mar do Ártico, afirma que há essencialmente zero motivo de preocupação quanto à libertação de metano em grande escala para este século. Um número de pesquisadores do Ártico discordam com o principal destes ensaios, sendo Peter Wadhams, o Dr. Semiletov e a Dra. Shakhova, os quais todos parecem muito preocupados com o potencial para uma libertação em grande escala em breve. Um meio termo é povoado por uma série de pesquisadores como Carolyn Ruppel e Sue Natali do observatório Woods Hole. Estes pesquisadores estão, racionalmente, a pedir mais dados sobre uma questão que está por demais mal compreendida pela ciência.

Projeto CARVE da NASA Encontra Modelos em Desacordo Quanto à Libertação de Carbono do Ártico

Este atual falta de uma compreensão mais ampla e consenso científico na questão da potencial de resposta dos Sistemas do Ártico e da Terra a um crescente aquecimento da atmosfera e do oceano causado pelos humanos foi destacada no relatório da semana passada pelo estudo CARVE da NASA.

O estudo, que visava monitorizar as emissões de carbono do Ártico – correu uma série de modelos climáticos globais para tentar determinar o quanto de carbono está a ser libertado a partir do Ártico. O estudo não tentou apontar cenários de emissões futuras. Apenas teve como alvo tentar estabelecer uma linha de base para as emissões tal como estão agora. Uma compreensão requerida para se fornecer qualquer avaliação clara de como as emissões de carbono do Ártico poderão vir a estar no futuro.

Os pesquisadores conectaram os dados das atuais emissões localizadas de carbono do Ártico em 40 modelos climáticos globais e os modelos cuspiram devidamente os resultados os quais estavam por todo o quadro. Essencialmente, os modelos confirmaram o que nós analistas de risco já sabíamos: não há informação suficiente disponível para fornecer uma compreensão clara dos potenciais cenários de libertação de carbono do Ártico, muito menos apontar quanto de carbono está a ser emitido.

Do Relatório da Science Daily da semana passada:

Quanto carbono está a abandonar o seu solo em descongelamento e a adicionar efeito estufa à Terra? …

Um novo estudo realizado como parte do Carbon in Arctic Reservoirs Vulnerability Experiment (CARVE) [Experimento de Vulnerabilidade dos Reservatórios de Carbono do Ártico] da NASA, mostra precisamente quanto trabalho ainda precisa ser feito para se chegar a uma conclusão sobre esta e outras questões básicas sobre a região que o aquecimento global está a atingir de forma mais violenta.

O autor principal, Josh Fisher do Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA, em Pasadena, Califórnia, analisou 40 modelos de computador dos montantes e fluxos de carbono nos ecossistemas boreais e do Ártico do Alasca. A sua equipa encontrou grande discordância entre os modelos, destacando a necessidade urgente de mais medições na região …

“Todos nós sabíamos que havia grandes incertezas na nossa compreensão, e queríamos quantificar a sua extensão”, disse Fisher. Essa extensão revelou-se maior do que o que quase todos esperavam. “Os resultados foram chocantes para a maioria das pessoas”, disse ele.

Plumas de metano no oceano foram descobertas ao largo da costa leste dos EUA e no Mar de Laptev pela expedição SWERUS C3, Essas emissões incluem quase sempre reservas de clatratos destablizadas. Fonte da imagem: Nature Geoscience

Plumas de metano no oceano foram descobertas ao largo da costa leste dos EUA e no Mar de Laptev pela expedição SWERUS C3, Essas emissões incluem quase sempre reservas de clatratos destablizadas. Fonte da imagem: Nature Geoscience

(As infiltrações de metano do oceano como nestas aberturas recentemente descobertas ao largo da costa leste dos EUA e as descobertas no Mar de Laptev pela expedição SWERUS C3, são quase sempre mais numerosas e enérgicas do que se esperava; um resultado, provavelmente, do aumento do impacto do calor causado por humanos. Essas emissões incluem quase sempre reservas de clatratos destablizadas. Fonte da imagem: Nature Geoscience).

Levará anos até que os cientistas definam com mais certeza o risco representado pela libertação de carbono e metano do Ártico. Um risco que agora envolve em si próprio o potencial para desencadear uma nova extinção por efeito estufa do tipo Permiano durante os próximos 1 a 3 séculos. Um risco que, considerando tudo, é provavelmente o risco mais terrível que já enfrentámos como espécie.

Como tal, não podemos esperar por uma certeza absoluta sobre o escopo desse risco. Se há sensibilidade suficiente para desencadear uma grande libertação de carbono do Ártico a 1,5 C ou 6 C de aquecimento é discutível – porque sabemos que continuar a queimar combustíveis fósseis eventualmente nos levará lá mais cedo ou mais tarde.

Então, enquanto nós continuamos a pesquisar o que pode muito bem ser a maior ameaça ambiental que já enfrentámos, é inteiramente prudente começar uma rápida redução das emissões globais de carbono com o objetivo de chegar a zero emissões de carbono e emissões líquidas de carbono negativas o mais breve possível. Os riscos são simplesmente grandes demais para se continuar a atrasar a ação.

Traduzido do original “When it Comes to The Arctic Methane Monster, What We Don’t Know Really Could Kill Us — NASA Model Study Shows Very High Carbon Release Uncertainty” em http://robertscribbler.wordpress.com/

Referências bibliográficas utilizadas pelo autor:

High Risk of Permafrost Thaw

With Few Data Arctic Carbon Models Lack Consensus

Can We Save Humans From the Greatest Threat Ever?

Rate of Methane Release From Tundra Thaw Lakes Increases by 58%

Why We Should Be Paying More Attention to Methane

Hundreds of Seeping Methane Plumes Discovered off US East Coast

Meltfactor

Arctic News

SWERUS C3 Arctic Carbon Study

NOAA Earth Systems Research Laboratory

Climate Science: The Vast Cost of Arctic Change

Arctic Methane Monster Shortens Tail: ESAS Emitting Methane at Twice Expected Rate

Arctic Methane Monster Exhales: Third Tundra Crater Found in Siberia

High Velocity Human Warming Leads to Arctic Methane Monster’s Rapid Rise from Fens

How Much Methane Came Out of That Hole in Siberia?

Rapid Arctic Thaw Could be Economic Timebomb

Standard
Metano, Paleoclima, Temperatura

O Gelo no Mar do Ártico Vai Desaparecer Em 2018. E Depois?

Paul Beckwith, climatologista e professor a tempo parcial na Universidade de Ottawa, Físico (Master de Ciência em Laser Optics, Bacharelato em Física de Engenharias), interessado em energias renováveis e xadrez – tal como descrito no seu Twitter, dá uma entrevista a Reese Jones onde faz um resumo da situação no Ártico, onde o aquecimento global se manifesta com aumentos de temperatura bem mais acentuados que na temperatura média global, e das consequências a curto prazo para a humanidade. Aqui está a transcrição do audio traduzida para Português:

 “A grande emissão de metano na região do Ártico por causa deste aquecimento é a maior preocupação. Se considerarmos no modelo da Marinha dos Estados Unidos, quando é que o gelo do mar Ártico desaparecerá, em que estação de derretimento irá ocorrer, o modelo da Marinha dos EUA diz que aproximadamente em 2018. Se você olhar para o modelo do gelo do mar ao longo do tempo, é uma espécie de curva exponencial, a qual é zero á volta de 2018. Talvez o gelo marinho não estará lá e o oceano Ártico estará completamente aberto durante uma ou duas semanas em meados de Setembro. Há uma grande variabilidade de ano para ano, mas pode-se fazer uma previsão de que dentro de um ano ou dois ou três após esse primeiro desaparecimento, o gelo poderia desaparecer durante 2 ou 3 meses no verão, e no espaço de 5 ou 6 anos poderia desaparecer durante seis meses do ano, e podia-se conceber vê-lo desaparecer completamente dentro de uma década ou duas. E então estaremos num sistema climático completamente diferente e os níveis de metano têm aumentado tanto da permafrost terrestre como dos sedimentos marinhos, especialmente no leito do Ártico Siberiano Oriental. Se isto continua a acontecer, e temos visto sinais como essas crateras misteriosas em partes da Sibéria, por isso, se este tipo de coisas continua então a quantidade de metano que sobe pode muito rapidamente eclipsar as emissões humanas. Essa é a maior preocupação. E então estamos a falar de uma situação de mudanças climáticas bruscas, onde … quero dizer, nos registos paleolíticos a temperatura média global, pelo menos a temperatura registada na Gronelândia, aumentou algures entre 5 ou 6 graus numa década ou duas. Existem alguns casos (…) de oscilações nesses paleo-registos onde a temperatura na Gronelândia aumentou 16 graus em uma década ou duas. Podemos observar os registos de sedimentos do Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno (MTPE). Pelo menos um artigo sugere que a temperatura aumentou 5 graus celsius em 13 anos, por ser um registo muito claro de camadas, mas é claro que tem de ser confirmado por outros artigos. Há também evidências, algumas conchas do oceano, por exemplo da Nova Zelândia onde existem grandes crateras no fundo do oceano que parecem ser devidas a uma grande libertação de metano num período muito curto de tempo. À medida que o oceano aquece, se derrete por entre os sedimentos, pode aumentar as emissões. Estamos de facto a observar isso no Ártico na Plataforma da Sibéria Oriental. Então, isso é uma grande preocupação, porque isso é basicamente todo o sistema a mudar muito rapidamente. Então a questão de como é que respondemos a isso, como vamos continuar a produzir alimentos para alimentar toda a gente, como é que vamos proteger a nossa infraestrutura, está a ver, porque mesmo com a mudança de temperatura que tivemos e as mudanças no Ártico que tivemos, estamos a ver que a estatística do sistema climático está diferente; estamos a ver todos esses eventos climáticos extremos… Então imagine esses eventos a aumentarem em frequência, intensidade, talvez duração, localização, por um factor de 10 ou 20 vezes quando o gelo marinho tiver desaparecido, e pode-se ter uma ideia de podemos estar a chegar.”

Após esta actualização na ciência do clima focada no aspecto mais aterrorizante e determinante do quadro global e futuro da humanidade, fica aqui a sugestão para outro artigo igualmente relevante:

Será que a Humanidade Está a ‘Dar a Volta’ ao Aquecimento Global?

Standard