Metano

Marcha do Povo Pelo Clima: Não Importa Quantos Foram Mas Sim a Mensagem

“Este é o maior problema da história da humanidade. Nunca a humanidade na sua história pôs em causa a possibilidade das futuras gerações poderem deixar de existir”

– Paulo Magalhães, da associação ambientalista Quercus.

Isto sim, é o mínimo que se pode pedir como critério de sucesso quanto ao focos da mensagem numa manifestação sobre alterações climáticas. Porquê o sucesso estar dependente da relevância da mensagem e não do número de manifestantes? Porque se tivermos digamos metade da humanidade, 3.5 biliões, nas ruas, a levantarem a voz de que precisamos mudar de combustíveis fósseis para alternativas energéticas que não poluam o ar nem emitam gases de efeito-de-estufa de modo a reduzir o risco de catástrofes naturais e das mortes por asma,… estaremos condenados à extinção neste planeta. Um grande número de gente inconsciente e focada na questão errada perpetuará o problema. Caso o leitor não saiba, as catástrofes naturais e doenças como a asma são fontes de lucro exorbitantes e meios de colocar outros países em dívida através da Organização Mundial de Saúde e indústria farmacêutica, do Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI). O sistema económico é baseado no lucro e essa é a sua força impulsionadora. Para pesquisar melhor este ponto, procure “John Perkins, mercenário económico”.

Adorei também esta, do mesmo manifestante:

o mundo está “refém de meia dúzia de empresas que manda nos políticos” e “hoje o político é um boneco das grandes empresas de petróleo”

Se procurarmos a causa de raiz do aquecimento global, se seguirmos essa cadeia de relações causais e variáveis que originaram, perpetuam e pioram seriamente este problema, ao ponto de muitos cientistas falarem na possibilidade de extinção da humanidade dentro do tempo de uma vida humana (mais sobre isto será publicado em breve neste blog), o nosso problema não é o CO2, nem a falta de tecnologia para reduzir as emissões e até remover esse excesso da atmosfera. Se assim fosse, já o teríamos feito. A causa fundamental do problema das alterações climáticas, conhecido como aquecimento global e a começar a ser referido como aquecimento global fugidio ou descontrolado (significando que talvez já não o consigamos ‘agarrar’ e assim impedir a sua evolução exponencial para temperaturas cada vez mais altas), a causa de raiz é a distorção social da “economia” baseada na dívida e no lucro. Na dívida para que uns controlem os outros, e no lucro para que esses outros nunca tenham possibilidade sequer de apanhar os primeiros. Ou seja, não é economia nenhuma, mas sim um jogo competitivo em que quem dá as cartas faz basicamente aquilo que quer. E é por isso que convém escrevê-la entre aspas. É antes uma anti-economia. Os economistas não economizam de todo; o que eles fazem é propaganda ao valor do dinheiro, para parafrasear John McMurtry.

Neste sistema económico onde o lucro, e assim também a corrupção, são a sua base fundamental, enquanto a resolução de um problema não der lucro, ou até colocar em risco a posição das instituições estabelecidas ou do monopólio oligarca, o problema nunca será resolvido.

“Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou.”

– Albert Einstein

E é nesta altura que alguém remata que são os poderes financeiros e políticos, as corporações, o 1% mais rico do mundo que têm tamanha distorção de valores, doentia, desligada da natureza e vidrada na próxima acção mais lucrativa, os verdadeiros responsáveis pela situação do planeta. Sinto muito dizer-lhe, mas essa é também a minha e a tua cultura. Quando ignoramos um pobre a pedir esmola não estamos a ignorar um problema e orientarmo-nos para a próxima atitude mais lucrativa? Quando compramos algo e mais tarde o vendemos por um preço maior para fazermos algum dinheiro, não estamos a colocar um peso, tal como um aumento na inflação, sobre toda a população? Estas atitudes, tanto a nível de corporações como a nível individual, estão embutidas na organização social através deste sistema retrógrado milenar, perpetuador da escassez fictícia e alienado das leis da natureza, que é o dinheiro. E se queremos começar a enfrentar esta realidade do aquecimento global com mais sucesso do que os últimos 20 anos, em que votámos e esperámos que a política o resolvesse por nós, comecemos por aqui:

“Você define-se como uma vítima do mundo ou como o próprio mundo?” – Alan Watts

Alan Watts tem audios interessantíssimos sobre esta confusão entre símbolo e realidade que tantos problemas perpetuou ao longo a história. Pois é melhor começarmos a ignorar a política e agarrarmo-nos à ciência. A realidade actual e as previsões científicas para o futuro próximo são… Deixo-vos com a uma tradução de um artigo por um manifestante de Manhattan, Nova Yorque. Ele é bem mais sensível e cuidadoso nas palavras ao expôr aquilo que não sei como vos dizer aqui.


por Nathan Currier

Quão grande foi a marcha em Manhattan ontem? Um dos organizadores era a 350.org, um grupo que começou por Bill McKibben com base num estudo do cientista climático James Hansen, que afirmou que devíamos apontar para cerca de 350 partes por milhão (ppm) de CO2. Estamos atualmente em cerca de 400 ppm, por isso precisamos de mover “apenas” cerca de 50 ppm na direção oposta ao nosso rápido crescimento, que levou um empurrão de uns assustadores 3ppm no ano passado.

Vai ser necessário um grande esforço, e poucos de nós vivos hoje irão viver para vê-lo (em falta de engenharia de larga escala), mas é interessante ponderar a mudança minúscula que isso representa no ar – uma mudança de apenas 5 milésimos de um por cento (0,005 por cento) da atmosfera! Essa é uma das coisas fascinantes da ciência do clima, como tal mudança minúscula na nossa atmosfera poderia ter um impacto tão grande sobre o balanço de energia de todo o nosso planeta.

Mantenha isso em mente se está a tentar contemplar a relevância de cerca de 350.000 pessoas saírem para as ruas de Manhattan, a capital do capitalismo, o coração cultural da nação, onde a negação manufacturada tem tido maior acção de entrave. Isso porque de facto esta é exatamente a mesma proporção dos 7 bilhões de membros da humanidade, 5 milésimos de um por cento, tal como essas 50 ppm (partes por milhão) serem uma mudança na composição do ar. Além disso, alguns estimam o número real de manifestantes em 400.000, e se as estimativas globais expandem igualmente, então a nível global, estavam a marchar cerca da mesma proporção quanto o crescimento de CO2 desde a industrialização representa uma mudança na composição da atmosfera. De certa forma, todos aqueles em marcha eram apenas um vestígio, e logo que nos dissipámos em ruas e estações de metro depois, rapidamente fomos superados em número pelas pessoas que seguiam nas suas vidas quotidianas, que parecia óbvio, mas de outra forma, o quão monumental o pequeno vestígio se pode tornar!

E por falar em poderosos pequenos vestígios, o metano é ainda muito menos concentrado no ar do que o CO2, cerca de 220 vezes menos, mas houve realmente algum metano flutuando ao redor do ar de Manhattan ontem! Não, não me refiro a todos os canos com fugas na cidade que têm levado por vezes testes locais a registar leituras ambientais incrivelmente altas deste gás de efeito-de-estufa. Quero dizer que, entre os manifestantes, os sinais anti-fracking frequentemente pareciam superar todos os outros cartazes de “sub-tema”. Este é um fenómeno fascinante, já que alguns de nós sentimos que – uma vez que todos nós em última instância temos que viver no aqui e agora, e uma vez que não se pode afetar o clima que temos aqui e agora de forma muito eficaz através da mitigação de CO2 e só se pode ganhar apenas tração política prática ao lidar com isso aqui e agora – então uma das melhores maneiras de avaliar a seriedade e de se conseguir movimento à volta do clima seria focar-se em ação significativa sobre o metano. Em certo sentido, se você quer que as pessoas comecem a subir uma escada muito íngreme, precisa dar-lhes um agradavelmente baixo primeiro degrau, e esse primeiro degrau do clima seria o metano. Como Robert Watson, o presidente anterior do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas das Nações Unidas colocou de forma sucinta, cortando o metano rapidamente “demonstraria ao mundo que nós podemos fazer algo para rapidamente abrandar a mudança climática. Precisamos de nos mexer para arrefecer a temperatura do planeta. O metano é o lugar mais eficaz para começarmos “.

A marcha de Manhattan pelo clima também forneceu um exemplo bem à medida do quão frustrante pode ser conseguir que a grande marcha lenta da mudança role: para aqueles na parte de trás, levou duas horas para iniciarem qualquer movimento de todo, e depois mais duas horas para chegar a Columbus Circle, o seu ponto de partida ostensivo. Da mesma forma, arrastamentos inevitáveis ​​sobre mitigação das alterações climáticas estão a tornar a ação rápida em torno do metano ainda mais importante. E as incertezas quanto às mudanças climáticas de curto prazo, com um potencial crescente de eventos de alto impacto e de menor probabilidade que possam causar aquecimento abrupto (como as emissões de metano não-humanas no Ártico a iniciarem-se mais rapidamente do que os modelos prevêem), significa que ignorar o as mudanças climáticas a curto prazo durante tempo demasiado pode revelar-se fatal para todas as nossas melhores intenções. Logo, é fascinante ver um interesse em metano crescer a partir dos movimentos grassroots, mesmo que ainda seja em grande parte (e erroneamente) limitada à questão fracking (fracturação hidráulica por gás natural) neste momento. Vamos torcer para que o interesse por este mero vestígio de gás no nosso ar (desde a industrialização que tem aumentado em cerca de 1,1 ppm, uma alteração de cerca de 1,1 décimo de milésimo de 1 por cento da atmosfera! – despolete faísca em breve. O grupo de 1250 foi inicialmente concebido para fornecer uma espécie de desdobramento autónomo para o grupo 350 de McKibben, a fim de ajudar a despoletar essa faísca, mas o próprio McKibben disse logo que ele “tinha as mãos cheias com o CO2” e no momento não enviou aos seus seguidores a petição de abaixo-assinado inicial do grupo 1250, a qual rapidamente definhou. Mas se o interesse em metano chegar a essa concentração crítica, e essa faísca for providenciada, você sabe o que acontece a seguir: é aí que a ação climática vai explodir.

O texto acima foi anteriormente publicado por Nathan Currier no HuffingtonPost


A imagem na publicação mostra manifestantes cujos cartazes (ou será melhor dizer trajes) partilham uma relação interessante. Para cada libra (~450 gramas) gasta-se em água o equivalente a tomar 180 duches. Este tema será igualmente explorado neste blogue. Para já, para aqueles que dominam o inglês, aqui está o último documentário, super elucidante e mesmo estonteante, sobre o assunto: Cowspiracy, o qual poderá ser visto AQUI!

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